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Com a presença de Domenico Losurdo, seminário debate luta de classes

Com a presença de Domenico Losurdo, seminário debate luta de classes

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CRISES DO CAPITALISMO E LUTA DE CLASSES PAUTAM DEBATES
DURANTE SEMINÁRIO INTERNACIONAL CIDADES REBELDES, EM SP

Segundo dia do evento trouxe a visão de especialistas como Moishe Postone
e Domenico Losurdo e relatos de ativistas como Guilherme Boulos e Ferrèz.

O Seminário Internacional Cidades Rebeldes teve sequência no Sesc Pinheiros nesta quarta-feira (10) novamente com grande presença do público, que ocupou quase todos os mil lugares do Teatro Paulo Autran. Parceria entre aBoitempo Editorial e o Sesc São Paulo, o evento também é transmitido ao vivo pelo site e disponibilizado em vídeo no canal da Boitempo Editorial noYoutube.

A programação se iniciou com a segunda aula do curso de introdução à obra de David Harvey, desta vez conduzida pelo economista Marcio Pochmann: Para entender as crises do capitalismo. Tomando como base o discurso de Harvey, pautado pela teoria marxista, ele afirmou que a principal diferença entre as crises do fim do século XIX e de 1929 em relação a de 2008, é a falta de estudos recentes.

“Vivemos em 2008 uma crise comparada a de 1929, mas pouco estudada, ao contrário do que fazia Karl Marx, que não só as estudava, como também analisava as transformações que elas causaram posteriormente”, comparou.

Porchmann ressaltou outro ponto importante defendido por Harvey em sua obra: o de que não há capitalismo sem crise, porque sem crise ele não se desenvolve, destruindo suas velhas estruturas e criando novas. “O capitalismonão visa a melhora da sociedade, ele é um fim em si mesmo. O problema que estamos tendo desde a crise de 2008 é que as velhas formas de capital estão dizendo adeus e as novas não estão maduras”, concluiu.

O tema continuou em pauta na primeira conferência da tarde, Trabalho, mobilidade, flexibilização: a dominação social hoje, mediada pela jornalistaEleonora de Lucena.

A presença do historiador canadense Moishe Postone trouxe mais considerações a respeito do atual sistema: “As análises críticas do capitalismo precisam estar sempre sob nosso enfoque, para criar mudanças estruturais. Quando Marx teorizou a respeito do valor não se referia a trabalho ou riqueza da sociedade, mas sim uma constituição de riqueza”, disse.

Postone criticou os pensadores do capitalismo e sua convicção de que a ideia de socialismo e produção industrial oferecendo empregabilidade completa é um erro. “A revolução tem que ser inspirada no futuro e não no passado”, argumentou.

Também historiador, Jorge Grespan fez considerações acerca da crise atual, contextualizando um cenário em que o poder social está no bolso dos que possuem dinheiro – e cada vez menos entre os desempregados. “Com todo seu poder destrutivo, a atual crise confronta a ideia de que crises ajudam o capitalismo. Precisamos de uma série de transformações da mesma magnitude das que ocorreram após a crise de 1929”, previu.

Encerrando a conferência, o filósofo Vladimir Safatle buscou refletir a partir das opiniões apresentadas por seus colegas. “Uma das grandes contribuições deste debate é nos lembrar que a crítica do capitalismo também deve ser uma crítica do trabalho”, sugeriu.

A mesa seguinte, com mediação do sociólogo Sérgio Amadeu, teve como temaCidade pra quem? Ganhar e perder a vida na periferia da periferia da capital. Permeada por opiniões bastante contundentes, a conferência foi aberta pela socióloga Vera Telles, que abordou a atuação policial na área urbana, especialmente na periferia.

“Estamos vendo uma gestão urbana militarizada e violência policial. Vimos isso ao vivo e a cores nas manifestações de junho de 2013, que começaram com o desejo de transformação urbana e chegou à questão dos preparativos para a Copa do Mundo. O ponto de combustão daqueles atos foi a violência policial, que sempre aconteceu nas periferias urbanas”, afirmou.

Vera ainda comparou a cidade com um campo de batalha, diante da lógica militarizada que compõe a guerra urbana: “Essa lógica apaga a diferença entre crime, protesto de rua e comportamentos indesejáveis”.

Em seguida a palavra coube ao coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Guilherme Boulos, que lembrou o histórico das periferias na busca por mudanças.

“A indústria no século 19 funcionava como um espaço de exploração, segregação e negação de direitos, mas também era um espaço de rebeldia. Foi com os trabalhadores reunidos ali e passando por aquilo juntos que surgiu o movimento dos operários e sindicatos”, lembrou, para em seguida projetar o mesmo cenário na formação das cidades.

Para Boulos – que lança durante o seminário seu novo livro, De que lado você está? Reflexões sobre a conjuntura política e urbana no Brasil -, o mesmo processo fez surgir a periferia, da mesma forma que a negação de direitos gerou a rebeldia: “A periferia é sofrimento, mas também resistência”, concluiu.

Já o escritor Ferrèz fez um desabafo bem-humorado, clamando para que a periferia não se cale diante dos discurso conservador, que visa minar sua ideologia e confrontar questões fundamentais, como os direitos humanos. Ele associou os graves problemas sociais que assolam essas regiões à falta de contestação atual.

Foi igualmente incisivo ao comentar o resultado das últimas eleições, que revelou outra tendência associada a seu discurso: o aumento do conservadorismo nas próprias periferias: “A política partidária socialista e popular se afastou da periferia. Antes os políticos não apareciam por lá apenas para pedir voto, mas para falar de política, de lutar por uma distribuição de água e luz justas, para conversar com a juventude. Isso acabou e reverbera nas urnas”.

A última conferência do dia foi Lutas de classe: sindicalismo, partidos e movimentos sociais, com o filósofo italiano Domenico Losurdo, em debate com o cientista político André Singer e o sociólogo Ruy Braga, com mediação do jornalista Breno Altman.

Losurdo iniciou contextualizando historicamente o surgimento de movimentos que questionavam a injusta divisão do trabalho a partir da expansão colonial do Ocidente. Além da classe operária, vista como uma espécie de “nova invasão bárbara”, ele citou também o movimento feminista, até então impedido de participar da vida política, e a exploração entre nações, muitas vezes abordada por Marx e Engels.

Em um segundo momento, o filósofo – cujo novo livro, A luta de classes: uma história política e filosófica, também está sendo lançado no evento – refletiu sobre o movimento partir do século XX, quando os partidos ligados à teoria marxista chegaram ao poder.

“A luta de classes continuou, apenas mudou de forma. Neste caso, tem sido pelo trabalho organizado, pela melhora da economia, aumento da produção e melhora nas condições de vida das massas populares. Uma teoria diferente, inesperada, mas que se manifesta e é conduzida por um novo poder, vindo do proletariado”, justificou.

André Singer lembrou que a atuação dos partidos operários tiveram enorme importância na transformação de seus países, mas se dividiu em caminhos distintos entre comunistas e socialdemocratas desde então, vivendo uma espécie de ocaso nos anos 1980.

“A cidadania social sofria poucas alterações mesmo quando esses partidos eram derrotados nas urnas. De repente, o neoliberalismo começou a reverter as conquistas dos 100 anos anteriores de maneira metódica e implacável. E os partidos operários vão deixando de cobrir as duas funções: organizar a classe e lutar pela igualdade”.

Singer entende que a hegemonia neoliberal não será superada sem que outra direção ganhe as maiorias e se mostre capaz de resolver os principais problemas da humanidade.  “Talvez os novos partidos não sejam partidos de classe, talvez se estruturem em redes. Caberá a eles inventar as novas formas, como foi feito na segunda metade século XIX”, sentenciou, antes de concluir com o exemplo recente do movimento dos indignados, na Espanha, que aceitou o desafio de oferecer uma alternativa à sociedade.

Ruy Braga fez uma análise da luta de classes no Brasil nos últimos 15 anos:“Recentemente não havia mais sentido falar em conflito classista. As pessoas estavam mais preocupadas em fazer parte de um tipo de grupo consumidor, tornar-se uma espécie de agente monetário, que frequenta shoppings, aeroportos, tem certos direitos”.

Em sua opinião, esta “pacificação social”, que coincidiu com o surgimento da chamada nova classe média, se refletiu em alguns indicadores fundamentais no país, principalmente até 2008/2009, como a diminuição do número de greves, novo direcionamento de movimentos sociais tradicionais e a sedução do subproletariado por meio de créditos consignados e desconcentração da renda.

Numa reflexão final, ele descreve o momento atual como de transição, graças a um novo acirramento do processo de luta de classes. Segundo ele, isto se dá pelos limites encontrados pelo modelo de desenvolvimento vigente, com a precarização do trabalho e endividamento das famílias trabalhadoras.
Programação

O Seminário Internacional Cidades Rebeldes tem sequência nesta quinta-feira (11), às 11h, com a terceira aula do curso de introdução à obra de David Harvey – A cidade global e os limites do capital, com Mariana Fix e Leda Paulani – e três conferências:

·        14h – Nacionalismo, identidade nacional e segregacionismo
Com Jessé SouzaGilberto Maringoni e Christian DunkerMatheus Pichonelli(mediação).

·        17h – Megaeventos esportivos e megaprojetos em cidades à venda
Com Luis FernandesCarlos Vainer e Jorge Luiz Souto MaiorRenato Rovai(mediação).

·        20h – Pólis, polícia: violência policial e urbanização
Com Guaracy MingardiRaquel Rolnik Silvio Luiz de AlmeidaLeonardo Cazes (mediação).

Realização: Sesc São Paulo e Boitempo Editorial

Apoio: Fundação Perseu Abramo  | Fundação Rosa Luxemburgo

Fundação Maurício Grabois | Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região / Faculdade 28 de Agosto

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