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“Nova” direita e corrupção abalam primeiro-ministro italiano

“Nova” direita e corrupção abalam primeiro-ministro italiano

renzi

Alguns dias apenas depois das eleições periféricas aqui, na Itália, 44 prisões na Prefeitura de Roma revelaram o quadro de envolvimento, corrupção, sistema de clientelismo e colaboração com a Máfia que predomina, mais de que nunca, no cenário político da Itália. Trata-se do segundo ato do criminoso escândalo de colaboração envolvendo Máfia, fascistas e funcionários públicos, que concluiu há alguns meses na prisão de outros indivíduos, entre os quais o conhecido fascista e figura de liderança desta rede criminosa “capo” Massimo Carminatti.

Os indivíduos que foram presos recentemente pertencem tanto ao Partido Democrata, quanto também à centro-direita e são figuras da alta direção de consórcios políticos e serviços sociais da Prefeitura de Roma, conselheiros municipais (vereadores) e vice-presidentes.

Stefano Rodotá, ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados, argumenta que “não se trata de um fenômeno periférico, mas central na vida estatal” e expressa a opinião de que “existe uma sistema paralelo que conforma o âmbito institucional e, em continuação, o devora aos poucos. Esta alienação da democracia tornou-se um elemento de constituição do sistema”.

Características são as conversações gravadas pelos carabineiros envolvendo Salvatore Bucci, fundador do consórcio político 29 de Junho e conhecido pelo seu passado pecaminoso, já tendo sido condenado a 20 anos de prisão por assassinato. Bucci foi preso em dezembro do ano passado junto com Massimo Carminatti e disse a uma colaboradora: “Você não tem idéia do que ganho com os imigrantes. Com narcóticos ganha-se mais.”

Na ocasião foram presos também quatro gerentes de um consórcio político proximamente situado à Igreja Católica denominado La Cascina, porque, em colaboração, com o consórcio político de Bucci, alteraram o resultado de um concurso para formação de centros de recepção dos imigrantes. Hoje o Partido Democrata encontra-se em posição difícil, porque em uma outra conversa – gravada pelos carabineiros – Bucci argumenta: “Se Marino (atual prefeito de Roma apoiado pelo Partido Democrata) permanecer mais três anos e meio prefeito de Roma, eu e meu amigo comeremos Roma”. Bucci ministra também aulas de corrupção a conselheiros municipais (vereadores) do Partido Democrata: “A vaca deve comer primeiro, para depois a gente ordenhá-la.”

Liga, o grande vencedor

As recentes eleições em sete periferias da Itália revelaram vencedores velhos e novos portentosos políticos que deverão provar se foram eleitos para ordenhar a “vaca” estatal ou se cumprirão seus deveres para com os cidadãos que os elegeram. O grande vencedor destas eleições foi a Lega (Liga) de Matteo Salvini. Uma nova Lega que abandona o espírito local e prepara-se para ser a Nova Frente Nacional da Itália.

Matteo Salvino percebeu que, para tornar a Lega uma força capaz de reivindicar a governança do país, deveria conjugar seu perfil xenofóbico com uma retórica nacional anti-européia. Trata-se, portanto, de uma direita ligeiramente alterada para o único partido que duplicou seus votos de 2013 em relação às euroeleições do ano passado, atingindo 15% nas sete periferias onde foram realizadas as eleições.

O Movimento 5 Estrelas perdeu mais da metade de seus votos, mas apesar disso classificou-se em segundo lugar, com 24,8% nas periferias de Liguria, com 17,88% na Campania e 18,17% em Puglia e conseguiu ingressar no conselho das sete periferias que até hoje inexistia.

Anotem que a decadência do partido de Berlusconi é contrabalançada pela “nova” Lega e tem sua evolução ligeiramente desacelerada pela vitória de Giovanni Totti em Liguria, onde, contudo, os votos da Forza Italia somaram apenas 13%, enquanto a Lega conseguiu 20%.

No norte e centro da Itália, a Lega superou a Forza Italia em quase todas as periferias. Em Veneto, Lucca Gioia, candidato da centro-direita, mas oriundo da Lega, atingiu 50%, enquanto a candidata do Partido Democrata e escolha pessoal do primeiro-ministro Matteo Renzi, Alessandra Moretti, conseguiu apenas 23% de votos.

Democrata em queda

Agora Salvini surge como o “governo alternativo” e seu adversário único é o próprio premiê, Matteo Renzi. Paralelamente, o Partido Democrata surge em queda, enfraquecido, com 1 milhão de votos a menos em relação às eleições parlamentares de 2013 (queda de 33,8%), quando líder do partido era Bersanni.

Em toda a Itália a queda que registrou o Partido Democrata é considerável, particularmente em Veneto (85,8%) e Liguria, onde Giovanni Totti (homem de confiança de Berlusconi) tornou-se governador da periferia com 35%, enquanto a candidata do Partido Democrata, Rafaela Paita, somou apenas 28%. Anotem que se observou uma tendência generalizada de abstenção, com o comparecimento às urnas não atingiu 60% em nenhuma periferia.

Em Liguria, Lucca Pastorino, candidato de Esquerda a governador da periferia e deputado que pertencia ao Partido Democrata, mas que se tornou independente, concentrou apenas 9% dos votos, enquanto o Partido Democrata o acusou de ter sido responsável pela derrota de Rafaela Paita. Este foi o cálice mais amargo que foram obrigados a beber Matteo Renzi e o Partido Democrata, porque a periferia de Liguria era seu principal alvo e símbolo de sua guerra contra a ala de esquerda do partido e contra o esforço para criação de qualquer figura à esquerda . Esta guerra foi perdida.

O Partido Democrata pagou caro as leis antitrabalhistas que tornaram os ricos mais ricos e os pobres mais pobres e pelo fato de ter compactuado com a corrupção e com a alienação dos bens sociais dos trabalhadores, criando o Partido da Nação, dentro do qual predomina a ideologia neoliberal, a promoção de poder dos minoritários sem nenhuma legalização democrática. Este 95 de Liguria talvez seja o preâmbulo de uma unificação de todo aquele “povo da esquerda” que está disseminado dentro do Partido Democrata, no Movimento 5 Estrelas, na Outra Europa, nos sindicatos e, o mais importante, na abstenção.

A Outra Europa

Os candidatos da Outra Europa concentraram percentuais insignificantes de votos de um modo geral, com exceção da periferia de Toscana, onde Tomaso Fattori recebeu 6,27% dos votos, e de Liguria, onde o apoio de esquerda foi decisivo para o bom resultado de Lucca Pastorino.

Em Toscana foi reeleito, Enrico Rossi, do Partido Democrata, com 48% de votos, e em Puglia, venceu Michele Emiliano, também democrata, com 47% de votos. Renzi, embora seu partido tenha vencido em cinco das sete periferias, já perdeu, em um ano, metade de aprovação da coalizão das euroeleições (de 40,8% despencou em 25%).

Com apenas 25%, Renzi – sem governo eleito – tem a arrogância de alterar a mais democrática Constituição da Europa, a Carta dos Trabalhadores, e a educação, perdendo significativas parcelas de sua aliança social. Estes resultados todos deverão criar novas evoluções que afetarão diretamente os resultados das urnas nas outras eleições. (Maria Segre – Monitor Mercantil)

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