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Lincoln Secco: para onde vai o PT?

Lincoln Secco: para onde vai o PT?

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Em 1989, Lula quase venceu as eleições numa campanha em que boa parte dos recursos veio de simpatizantes ou de vendas de material partidário como camisetas e broches. Embora lutando contra o candidato da Rede Globo, seus programas eleitorais eram os mais criativos.

A militância se organizava em núcleos e, antes dos congressos partidários, debatia por várias semanas as teses das tendências. Dos anos 1990 em diante ela envelheceu e se profissionalizou na medida em que o partido ampliava a oferta de cargos nos governos que ocupava.

As duas categorias mais importantes do PT (os metalúrgicos e os bancários) foram afetadas pela automação e a terceirização.

Por fim, o ataque do papa João Paulo 2º à teologia da libertação aluiu a força das comunidades eclesiais de base.

Parte desse processo também foi uma escolha. A ala majoritária preferiu um partido social democrata de massas e eleitoralmente competitivo. Sacrificou com isso os debates nas bases, só que na medida em que elas se profissionalizaram que diferença faz?

O funcionário de um capa preta (no jargão petista) não tem direito à opinião e por isso ninguém mais espera uma “revolta dos bagrinhos”, segundo o título de um documento partidário dos anos 1980 que se tornou parte da memória petista.

Aquele partido de militantes não voltará mais. Hoje, o neopetismo tem outras formas de participação e internalizou a democracia exercida por lideranças de expressão eleitoral. Mas com todos os seus defeitos, ele é o único grande partido brasileiro organizado e com alguma participação de seus filiados. Sua direção tem 50% de mulheres e seus parlamentares, um limite de mandatos.

A força do PT no teatro da política oficial sempre esteve na capacidade de mobilizar a população fora dele. E ao mesmo tempo de brecar sua radicalização.

Após 12 anos de poder desmobilizando sua militância para evitar o confronto com seus aliados no Congresso, é possível que não disponha mais de força para influenciar o seu próprio governo.

A oposição partidária à direita ocupa o mesmo condomínio político que o PT. A desmoralização dele não é algo sem custo para ela. O PT controlou os movimentos sociais e dirigiu a maior central sindical do Brasil. Sem substituto à vista, a sua ruína deixaria para trás um país que não seria bom para ninguém.

LINCOLN SECCO é professor livre-docente de História Contemporânea na USP e autor de “A História do PT” (Ateliê, 4ª edição)

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