Home / Principal / A pedalada golpista do TCU e o cachorro de Sherlock Holmes
A pedalada golpista do TCU e o cachorro de Sherlock Holmes

A pedalada golpista do TCU e o cachorro de Sherlock Holmes

holmes_and_watson

Uma espécie de histeria coletiva tomou conta da bandidagem midiática e seus asseclas da direita em geral com a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de dar um prazo de 30 dias para que a presidente Dilma Rousseff se explique pessoalmente, por ofício, sobre “irregularidades” apontadas pelo órgão na prestação de contas do governo de 2014. A ladroagem tucana já vem apontando que por aí é possível ressuscitar a tese do impeachment, utilizando-se do tapetão do TCU.

Antes de prosseguir, convém saber quem são os ministros que tomaram a decisão após receber uma comitiva de golpistas e corruptos notórios, liderada pelo candidato da direita, Aécio Neves, derrotado por Dilma Rousseff em 2014.  São eles:

  • Benjamin Zymler, servidor de carreira do TCU, indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC).

  • João Augusto Nardes, ex-deputado federal (PP-RS), indicado pela Câmara do Deputados em 2004 na disputa em que derrotou o então deputado federal José Pimentel (PT-CE).

  • Antônio Valmir Campelo Bezerra, ex-deputado federal e senador ligado ao ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz, indicado pelo Senado em 1997.

  • Walton Alencar Rodrigues, servidor de carreira do Ministério Público, indicado pelo Ministério Público, que ingressou no TCU em 1999.

  • Aroldo Cedraz, deputado federal historicamente ligado ao ex-senador Antonio Carlos Magalhães (ACM), indicado pela Câmara dos Deputados, na disputa em que derrotou o deputado federal Paulo Delgado (PT-MG), em 2006.

  • Raimundo Carreiro, servidor de carreira do Senado, indicado por unanimidade pela Casa em que trabalhava em 2007.

  • José Jorge, ex-deputado federal e senador, historicamente ligado ao ex-PDS e ao ex-PFL, candidato a vice-presidente de Geraldo Alckimin do PSDB na eleição de 2006, foi indicado pelo senado em 2008.

  • José Múcio Monteiro, ex-deputado federal do PTB, indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2009.

  • Ana Arraes, ex-deputada federal do PSB-PE, indicada pela Câmara dos Deputados em 2011, após vencer a disputa contra o ex-deputado federal Aldo Rebelo (PCdo B-SP).

O perfil não é o que se pode recomendar como referência de pessoas probas, zelosas da ética na política e confiáveis defensores da democracia. É difícil aceitar a tese desses ministros, a maioria ligada a uma concepção de governo que foi uma mediocridade neoliberal em cujo legado é difícil encontrar qualquer coisa de positivo. Descem, portanto, as cortinas e aparece a crise política em sua real dimensão e com sua verdadeira face.

Essa peça, que também pode ser entendida como um ensaio geral do espetáculo que tomará conta do país no ano que vem (quando ocorrerão eleições municipais), ainda não definiu o gênero teatral ao qual pertence. Pode ser uma comédia. Pode ser uma farsa. Pode ser também uma tragédia. Nas comédias, como se sabe, o protagonista atua como o néscio de quem todos riem. Nas farsas, o protagonista é enganado. E nas tragédias o protagonista caminha consciente e célere em direção à própria ruína. O detalhe inquietante é que no drama encenado no Brasil o protagonista não está no palco. Em outras palavras: somos eu e você, amigo e amiga, que estamos sob o holofote. Então, precisamos refletir.

Mudanças importantes na vida dos países carecem de dois insumos básicos. O primeiro: um desejo amadurecido na sociedade de que essas mudanças aconteçam; uma espécie de consenso coletivo em relação à necessidade de mudar. O segundo insumo: alguém que tome a frente e as realize. Um líder que tenha vontade e competência para sintetizar o desejo da maioria e concretizá-lo. É desse cruzamento que surgem as grandes reformas, os grandes avanços.

Ninguém com alguma seriedade analítica nega que o ciclo iniciado por Lula em 2003 representa o encontro dessas oportunidades. Como disse o sempre genial Luiz Fernando Veríssimo, o início do governo Lula foi decepcionante: decepcionou os que imaginavam que ele mudaria tudo e os que imaginavam que ele não mudaria nada. Ou seja: Lula nem salvou, nem afundou o Brasil. Essa quebra de expectativas que Lula causou, tanto entre seus seguidores mais entusiasmados quanto entre seus detratores mais empedernidos, acarreta, por si só, um avanço inédito no amadurecimento do embate político no Brasil. Ou por outra: se de nada valesse a eleição de Lula, só o fato de ela ter sido simbólica já é uma grande ruptura com a nossa história e tradição política.

De um lado, perdeu a razão de ser o discurso salvacionista do PT — hoje bandeira segurada por inexpressivos grupos “esquerdistas” que não se cansam de fazer o papel de quinta-coluna — e, de outro, talvez na mesma proporção, a propaganda irracional da direita contra as esquerdas, que permeia historicamente largas fatias da sociedade brasileira, foi posta à prova. Com a desconstrução das quimeras “esquerdistas” e das ficções conservadoras, a própria dicotomia entre esquerda e direita ganhou espaço no centro da discussão política como pano de fundo dos reais problemas do país — que tendem cada vez mais a ser vistos na sua essência, e não na sua superfície.

Esse é um debate presente dentro do próprio governo. Em nome da boa administração macroeconômica, por exemplo, a direita diz que não se pode agir com mais vigor na área social. Mas, se quisermos levar este debate às raízes teóricas, devemos lembrar de conceitos políticos há muito desvendados.

O Estado é o governo de homens e mulheres organizados em classes. E a política é a arte de organizar esses homens e mulheres. A vida política, portanto, é o afrontamento dos interesses sociais — ou de classe — pela direção do Estado. Eis o que se aprende sobre política com o ABC do marxismo.

Evidentemente, a compreensão dessas categorias é difícil em um país no qual oportunistas, políticos invertebrados, de caráteres melífluos, de posições dúbias e de meias palavras assumem postos importantes. Por isso, talvez, em meio a esse fogaréu que se instalou em Brasília, quando menos se espera surgem posturas que sugerem descaso e indiferença do governo em relação à corrupção — como essa decisão rastaquera do TCU. São discursos rasos com a única finalidade de reforçar o emocionalismo que opõe o indivíduo, magoado em sua pureza ingênua como uma moçoila oitocentista, e a realidade ingrata que devora sonhos.

É fácil imaginar até onde a direita golpista pretende levar o redemoinho criado com essa nefasta decisão, assoprado por “notícias” vazadas para segunda, terceira e quarta intenções. É essa, unicamente, a leitura que se pode ter da decisão do TCU. O objetivo é apenas fazer marola para atrapalhar o governo. Não é, nem de longe, estudar a fundo a questão, propor mudanças na legislação e criar os meios para melhorar o combate à corrupção.

É verdade que o governo vinha entrando em atritos inúteis com o Congresso. Mas nada disso abona a iniciativa do TCU. Seria útil que, em vez de apostar em espertezas de resultados políticos duvidosos, os golpistas envolvidos nessa manobra se empenhassem em dar agilidade aos trabalhos de sua competência.

Faz falta, também, uma ação mais efetiva da base social que apoia o governo para dar respostas ágeis a manobras inescrupulosas como essa. Apesar da superioridade potencial, as forças democráticas e progressistas ainda estão dispersas. Pela falta de uma delimitação mais clara das posições desse campo político, gente notoriamente comprometida com os interesses da elite consegue iludir setores consideráveis do povo.

Chama a atenção que setores da esquerda silenciam diante dessas sucessivas pedaladas golpistas, o que faz lembrar aquela passagem em que Sherlock Holmes chama a atenção do inspetor Gregory para o “estranho comportamento” do cachorro. “O cachorro nada fez durante a noite”, contesta o inspetor Gregory. “Justamente isso é que é estranho”, diz Sherlock Holmes.

Sobre outrolado

Notícias Relacionadas

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicadoCampos obrigatórios estão marcados *

*