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Políticas de esquerda não cabem no euro

Políticas de esquerda não cabem no euro

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É difícil aceitar o discurso do sucesso exibido pelos governos e as autoridades da UE perante os recentes números do crescimento na Irlanda, Espanha e Portugal.

Jorge Bateira

O Banco Mundial acaba de prever um abrandamento do crescimento nos países em desenvolvimento. No último “Global Economic Prospects”, afirma que aqueles países “foram o motor do crescimento global a seguir à crise financeira, mas agora enfrentam um ambiente económico mais difícil”, devido à baixa das receitas do petróleo e à subida dos juros da dívida face à previsível subida da taxa de juro nos EUA. Esta conjuntura global torna mais difícil uma recuperação do emprego na UE, uma vez que as suas economias têm procurado adoptar um modelo de crescimento puxado pelas exportações. Philippe Legrain recorda (“The Eurozone’s False Recovery”): “Em 2014, as exportações da zona euro totalizaram 2,6 biliões de euros, mais do que as exportações da China. Dada a frágil procura global, um forte crescimento das exportações é dificilmente alcançável.”

De facto, é difícil aceitar o discurso do sucesso exibido pelos governos e as autoridades da UE perante os recentes números do crescimento na Irlanda, Espanha e Portugal. Enquanto a Irlanda tira partido da sua particular estrutura produtiva e beneficia do crescimento nos EUA e no RU, no caso de Espanha e de Portugal trata-se de um crescimento medíocre, sobretudo em resultado da suspensão da austeridade. Não por se ter concluído que a política era errada, mas apenas porque se entrou em ano eleitoral, o que contou com a cumplicidade da Comissão Europeia. Nenhuma das causas da presente crise da zona euro foi eliminada, pelo que se trata apenas de uma recuperação temporária, sem efeitos significativos e sustentáveis sobre o emprego.

Mais grave ainda, o bloqueio a uma reforma séria do sistema financeiro global, realizado nos últimos anos pelo lóbi finança-partidos nos EUA e na UE, preservou os mecanismos de especulação agressiva que conduziram à crise de 2008. A recente demissão da gestão de topo do Deutsche Bank é apenas um sintoma de que um novo episódio da grande crise financeira vem a caminho (ver Nouriel Roubini, “The Liquidity Time Bomb”). Mesmo que seja conseguido um acordo de última hora entre a Grécia e a UE, sobram fortes razões para pensar que as taxas de juro da periferia da UE acabarão por disparar para valores insuportáveis. Estaremos então condenados, na periferia da UE, a viver em permanente austeridade, de resgate em resgate? Quem ainda acredita que, para pôr fim ao desastre, basta colocar no governo um partido da oposição à austeridade, não percebeu mesmo nada do que está em causa nesta crise.

Na encruzilhada em que nos encontramos, e à luz do processo negocial Grécia-UE, apenas nos resta uma solução radical, quer dizer, uma solução que vá à raiz do problema da periferia da zona euro. Se a crise não pode ter uma solução no quadro de uma democracia federal (solução que rejeito), com a institucionalização de impostos europeus e volumosas transferências orçamentais para as periferias, mas também o consequente desaparecimento dos Estados soberanos, então só resta a ruptura. Mesmo que a Grécia aceite um acordo que não ultrapasse alguma das suas “linhas vermelhas”, permanecerá nas teias de um sistema que não permite ao governo promover o desenvolvimento do país. A insuficiência dos resultados das políticas que lhe serão permitidas e o desencanto com o Syriza, que acabará por crescer, liquidarão esta esquerda grega que pretendia mudar a UE por dentro. Neste sentido, Merkel é mais inteligente que Schäuble.

Na zona euro, o obstáculo maior à política económica de um governo progressista reside na livre circulação de capitais e na integração do país num sistema bancário supranacional que financia bolhas do imobiliário e outros activos, fazendo crescer as importações e o endividamento externo privado. Para eliminar este endividamento, um governo da zona euro não dispõe da desvalorização cambial, um mecanismo eficaz e socialmente mais acomodável. Fica limitado à chamada “desvalorização interna”, a criação de desemprego para baixar salários, desse modo aumentando um pouco a competitividade das exportações e reduzindo a procura de bens importados. Assim, dentro do euro, não há lugar para políticas de esquerda. O europeísmo de esquerda é um logro.

Economista, co-autor do blogue “Ladrões de Bicicletas”

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