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Grécia fora do euro: uma possibilidade cada vez mais real

Grécia fora do euro: uma possibilidade cada vez mais real

O que acontece se a Grécia sair do euro?

 

A saída da Grécia da Zona Euro é um cenário que já ninguém descarta. Com o impasse nas negociações entre Atenas e os parceiros europeus, fontes de Bruxelas admitem medidas de emergência e o controlo de capitais no país, ao passo que na facção mais radical do Syriza já se fala num default semelhante ao da Islândia em 2008. Se a saída se consumar, ninguém esconde dificuldades económicas no imediato, com mais inflação e perda de poder de compra dos gregos. A longo prazo, há quem antecipe a recuperação da economia helénica e problemas no resto da Zona Euro.

O SOL compilou algumas opiniões de economistas que debateram a questão grega nos últimos meses. Num cenário de ruptura completa das negociações entre a Grécia e os parceiros europeus, um dos principais impactos seria na banca helénica. O BCE tem estado a financiar os bancos gregos com uma linha de emergência. Se Mario Draghi fechar a torneira, as instituições ficam sem acesso a financiamento.

Banca nacionalizada

O economista Azad Zangana, da Schroders, antecipa que o Governo grego possa optar por sair do euro exactamente para imprimir sua própria moeda e evitar o colapso dos bancos. A nacionalização da banca seria um cenário quase certo, mas ainda assim o economista antevê uma recessão “profunda e prolongada” na Grécia, devido ao aperto do crédito e à falta de confiança.

Filipe Garcia, economista da consultora financeira IMF, explicou aoSOL que o primeiro constrangimento “seria o acesso a moeda estrangeira” por parte de Atenas. A Grécia poderia tentar financiamento noutro bloco económico, mas se não o conseguir as empresas teriam dificuldades em obter crédito e a economia paralisaria.

Se o Estado grego entrasse em incumprimento e deixasse de pagar a dívida ao exterior, poderia até conseguir assegurar parte das despesas correntes – pensões ou salários, por exemplo – com as receitas dos impostos. Mas haveria um problema nas empresas do sector privado, que têm de recorrer a empréstimos para funcionar no dia-a-dia. “Provavelmente grande parte entraria em incumprimento. Os bancos e outras empresas seriam provavelmente nacionalizados”, considera Filipe Garcia.

Inflação e perda de poder de compra

Com a retirada do euro, entraria em circulação um novo dracma. Mas, sendo uma moeda mais fraca do que o euro, as importações ficariam mais caras e haveria mais inflação na Grécia. A subida de preços teria efeitos no poder de compra dos cidadãos. “O mais provável seria uma escassez de bens essenciais, falências e paralisações de muitas empresas e consequente desemprego”, antecipa Filipe Garcia.

O prémio Nobel Paul Krugman não esconde que uma saída do euro por parte da Grécia traria problemas de curto prazo. “Seria seguramente feio para a Grécia, pelo menos de início”, escreveu no blogue do New York Times.

Recuperação é possível

A grande divergência dos economistas é sobretudo a longo prazo: o que aconteceria à Grécia dentro de alguns anos. Krugman já admitiu, com algum humor, que o país pode recuperar fora da moeda única, depois das dificuldades iniciais. “Suponha que um novo dracma muito desvalorizado traz uma avalanche de britânicos bebedores de cerveja para o Mar Jónico, e que a Grécia recupera”, escreveu no blogue, concluindo:  “O risco real para o euro não é que a Grécia falhe, mas que seja bem sucedida”.

Quem aposta na recuperação do país tende a apontar para a Islândia. Este país teve uma crise bancária em 2008. Nacionalizou a banca, repudiou parte da dívida que os bancos nacionalizados tinham contraído, desvalorizou a moeda e tomou medidas de controlo de capitais. Depois de uma recessão – menos pronunciada do que noutros países que foram intervencionados pela troika – voltou de novo a crescer. Houve inflação e perda de poder de compra, mas a moeda mais fraca ajudou uma economia movida pelo turismo e pelas exportações de peixe e de alumínio.

O presidente da Islândia, Olafur Ragnar Grimsson, disse recentemente que o sucesso da recuperação do país se deveu ao facto de não ter seguido a receita de cortes orçamentais prescrita pela Comissão Europeia.

Contágio na Europa

Se a recuperação fosse bem sucedida, os maiores problemas poderiam ocorrer no resto da Europa. Krugman antecipa que mais cidadãos e Governos começassem a questionar as políticas de austeridade, levando ao “descrédito do establishment”.

Raoul Ruparel, economista do instituto Open Europe, aponta para um risco político: a desagregação da união monetária deixaria de ser um cenário hipotético e a saída de um país da moeda única seria questionada sempre que surgissem problemas de política orçamental num país. Não é por acaso que os juros portugueses estão a subir, à boleia do impasse na Grécia: os mercados estão já à procura do senhor que se segue.

Os dirigentes europeus não escondem que a saída do euro seria prejudicial. “Qualquer país que deixar o euro, ou que sofra dentro do quadro da zona do euro, torna-se um problema para o projecto europeu e para o projecto do euro”, afirmou esta semana o comissário dos Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovici, advertindo que, “é por isso que é preciso evitar [a saída da Grécia]”. (João Madeira – Sol)

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