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As armas do “sim” e do “não” na Grécia

As armas do “sim” e do “não” na Grécia

A Grécia dividida: conheça as armas dos dois lados da campanha

“Sim” ou “Não”. “Nai” ou “Oxi”. É a dúvida que paira pela Grécia, um deles será a resposta que o mundo tanto aguarda. O povo helénico desloca-se às urnas no próximo domingo, forçado a uma escolha difícil, preso num dilema onde parece não haver finais felizes, nem respostas acertadas.A campanha intensificou-se na última quarta-feira. A carta de Alexis Tsipras, que deu esperança aos que esperavam cedências por parte do primeiro-ministro helénico, tornou-se num mero episódio e contribuiu para o incrementar da tensão.

Na quinta-feira, ambos os lados da barricada acordaram mais ferozes: o Eurogrupo a abrir a porta ao Grexit em caso de vitória do “não”, o Governo helénico a admitir a sua própria capitulação com a vitória do “sim”.

Perante isto, não admira que o povo helénico se mantenha indeciso.
A Grécia indecisa
As primeiras sondagens colocavam o “não” em primeiro lugar, tendo-se seguido uma ligeira vantagem para o “sim”.

Esta sexta-feira, uma sondagem da Alco dá a vitória ao “sim” com 44,8 por cento das intenções de voto. O “não” representa a opção de 43,4 por cento dos inquiridos, com 11,8 por cento dos questionados ainda indecisos.Os indecisos são muitos e, sobretudo, a diferença entre os partidários do “sim” e do “não” é mínima. Uma disparidade inferior ao próprio intervalo de confiança e que é representativo da indefinição do povo helénico.

Também num estudo da Universidade da Macedónia a aprovação ao acordo se encontra na frente.

Quarenta e três por cento dos inquiridos afirmam querer votar a favor, contra 42,5 por cento a seguir a linha de Alexis Tsipras. Os indecisos são 14,5 por cento dos inquiridos.

Nada de estranhar quando se sabe o que está em causa e quando nenhuma resposta (nem a própria questão) parece estar correta.
As restrições financeiras
As restrições financeiras são apresentadas como a principal arma dos credores. O motivo que levou a estas restrições depende do olhar de cada um, mas apresenta-se como certo que estas influenciam o voto.

Sem programa de resgate, sem garantias e perante a indefinição, o Banco Central Europeu não aumentou o fundo de liquidez de emergência aos bancos helénicos.
Entretanto, as consequências desta asfixia vão aumentando. A Grécia tem dificuldades a importar e, aponta La Tribune, começam a faltar comida, combustíveis e medicamentos, nomeadamente nas ilhas gregas.

Em alguns distribuidores automáticos, já começa a ser difícil conseguir ter acesso aos tais 60 euros diários.
Os partidários do “não” acusam os credores de provocar uma asfixia financeira para influenciar a campanha.

Os partidários do “sim” defendem-se, rejeitando tratar-se de uma decisão política e argumentando que não foram eles a decretar o controlo de capitais.

De forma propositada ou não, esta acaba por ser uma influência a favor do “sim”. A ideia de que estas dificuldades poderão permanecer caso o “não” vença influenciam a população.

Um povo que vive uma semana particularmente difícil, depois de anos marcados por sucessivas dificuldades.
A Europa do “sim”
O presidente do Parlamento Europeu, o socialista Martin Schultz, mostra-se crítico face à postura do Syriza.
“Ajudaremos o povo grego mas certamente não o Governo”, afirmou na quinta-feira.

Com a rejeição ao acordo, Jean-Claude Juncker garante que os negociadores gregos ficariam numa posição mais fragilizada. Pelo contrário, Atenas argumenta que este daria mais força aos negociadores helénicos e que não representaria a saída da Zona Euro.

Alexis Tsipras diz mesmo: com a vitória do “não”, na segunda-feira haverá um acordo assinado em Bruxelas. Jeroen Dijsselbloem contraria.

“Se eles disserem que não querem isto, não só não há apoio para um novo programa, como também não há apoio para manter a Grécia na Zona Euro”, afirmava ontem o presidente do Eurogrupo.

Já esta sexta-feira, Dijsselbloem apontou nova farpa ao ministro grego das Finanças, ao considerar “completamente falsa” a ideia de que a Grécia possa estar a acercar-se de um entendimento com os credores.
A Grécia do “sim”
Do lado do “sim”, estão ainda os responsáveis dos principais setores da economia e a maioria das empresas, para quem esta semana também não tem sido fácil. Confederações da agricultura, exportações, engenheiros, turismo e da indústria apelam ao voto no “sim”.

“O nosso lugar é na Europa, isolar-nos seria suicídio”, defendem.

Os responsáveis assinalam que há postos de trabalho em risco, nomeadamente no turismo, e que os menos abastados seriam os mais afetados.

“Não teremos capacidade para alimentar o país. O povo terá fome”, afirmam os responsáveis da confederação agrícola que sublinham que vários projetos são financiados por fundos europeus.

O “sim” agrega ainda os partidos políticos do centrão, nomeadamente a Nova Democracia, o To Potami e o PASOK. Os órgãos de comunicação social privados também são acusados de favorecer a aceitação do acordo, nomeadamente através da forte cobertura aos protestos a favor do “sim”.
A Grécia do “não”
Rejeitar o acordo não é rejeitar a Europa. Esta é a garantia dada pelo Governo grego na defesa do “não” ao referendo de domingo.

Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis dão a cara, argumentando que o “não” do povo grego lhes dará maior poder negocial. O primeiro-ministro garante que o povo continuará unido após o referendo, mas nada é assim tão certo.

A imprensa helénica dá conta de que quatro deputados dos Gregos Independentes, parceiros de coligação do Syriza, vão votar “sim” e as próprias fações do Syriza se começam a dividir.

Yanis Varoufakis já garantiu que deixará de ser ministro das Finanças em caso de vitória do “sim” e abre a porta à demissão de todo o Executivo. Sem governo, a Grécia corre o risco de entrar num novo marasmo.
O relatório do FMI
O ministro das Finanças usa agora também o FMI como instrumento de campanha. O relatório datado de 26 de junho, mas defendido por Lagarde só esta quinta-feira, defende que os parceiros europeus têm de reestruturar a dívida helénica.

Reportagem de Patrícia Cracel e João Caldeirinha – RTP

“O FMI cedeu neste ponto no mesmo dia em que o primeiro-ministro Alexis Tsipras anunciou um referendo para que o povo grego possa rejeitar uma proposta do FMI que não ofereceu um alívio da dívida”, escreveu Varoufakis no seu blogue.

Na defesa do “não” juntam-se reputados economistas, que têm incentivado o povo grego a votar contra o acordo. Os vencedores do Nobel da economia Paul Krugman e Joseph Stiglitz mantêm o seu discurso anti austeridade e apelam ao voto no “não”.

“A Grécia deve votar ‘não’ e o Governo grego deve estar pronto para, se necessário, deixar o euro”, defende Paul Krugman numa tribuna do New York Times.

Christian Hartmann – Reuters

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