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A causa da Virada Feminista em São Paulo

A causa da Virada Feminista em São Paulo

Feminismo reúne mulheres do coletivo Fuzarca Feminista em São Paulo, durante a Marcha das Mulheres (Foto: Elaine Campos)

Neste final de semana, 4 e 5 de julho, ocorre a Virada Feminista em São Paulo. A programação de 24h começa às 17h de sábado, no Centro Cultural da Juventude. Mais de 10 mil pessoas confirmaram presença no evento do Facebook. O propósito é reunir principalmente mulheres para, além das atrações culturais, trocar experiências sobre feminismo – baseado em ampliar o papel da mulher e criar uma sociedade igualitária. “Queremos mostrar que a cultura, muitas vezes feita só por homens em todas as esferas, também pode ser produzida por mulheres”, afirma a universitária Helena Zelic, de 19 anos, ativista do coletivo Sempreviva Organização Feminista (SOF) – organizador do evento junto com a Fuzarca Feminista, núcleo jovem da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

Entre as atrações culturais, estão o show da MC Luana Hansen e uma oficina de cordel, mediada por Jarid Arraes, conhecida por esmiuçar temas ligados ao feminismo em suas colunas e blogs. Apresentações de dança, bate-papos e ioga também estão na lista da programação da Virada. Os homens serão bem-vindos, mas as oficinas e algumas outras atividades serão exclusivas para as mulheres. “Poderão surgir pautas sobre coisas que dizem respeito só às mulheres”, diz Helena. Nesta entrevista, a ativista fala por que é importante a Virada Feminista.

ÉPOCA – O que é e por que fazer uma Virada Feminista?
Helena Zelic – A Virada Feminista é mais do que um encontro, é uma atividade que faremos para reunir mulheres não só pela cultura, mas para trocar experiências sobre feminismo durante o evento. Queremos mostrar que a cultura, muitas vezes feita só por homens em todas as esferas, também pode ser produzida por mulheres. O porquê de fazer a Virada Feminista é por observarmos que o conservadorismo continua muito forte no Brasil, o que prejudica as mulheres. Na política, nos espaços de poder, nos espaços de cultura, nas ruas e nas redes sociais, o machismo continua muito forte. Acreditamos que a Virada Feminista trará mais força para responder a esse .

ÉPOCA  Inspirou-se em algum evento para fazer a Virada Feminista? Como foi organizado o evento?
Helena  A SOF (Sempreviva Organização Feminista) junto com a Fuzarca Feminista, já fizeram outras ações coletivas. A Virada Feminista foi algo pensado em conjunto e a concepção é de que não poderia ser feita de outra maneira. Não só várias mulheres estão trabalhando nisso porque acreditam no feminismo, como várias artistas estão nessa porque confiam que essa Virada vai ter força. No início, pensamos em fazer um festival para durar dois dias. Durante a organização, foi discutido que seria muito mais interessante fazer uma virada, durante 24h. Seria mais marcante. Além das atrações musicais, também queremos ressaltar que haverá intervenções de dança, teatro, rodas de conversa, oficinas. A importância de dar visibilidade para outras atrações é mostrar para essas mulheres que elas não estarão lá só para assistir, mas para participar.

ÉPOCA  Qual a importância de as mulheres se unirem coletivamente?
Helena  A importância é total. Nas pequenas ações é importante, mas não há maneira de ter mudanças efetivas sem a coletividadeentre as mulheres. Não é mudar só as nossas vidas, mas a vida de outras pessoas. Vivemos em um mundo que tem problemas diversos. Não é só o machismo, mas também o racismo, a homofobia e a lesbofobia. Muitas questões nos atingem. A importância do feminismo está em trazer mudanças efetivas na sociedade.

ÉPOCA – O evento será exclusivo para mulheres?
Helena –
O evento é aberto. Só que as oficinas e rodas de conversa serão auto-organizadas, ou seja, feita apenas por mulheres, por uma questão de protagonismo. Nessas oficinas poderão surgir pautas sobre coisas que dizem respeito só às mulheres, sobre coisas que elas podem não fazer normalmente. É importante que sejam feitas apenas por mulheres e que sejam espaços para que elas se fortaleçam em momentos de troca.

ÉPOCA – O que você acha que tem mudado na sociedade? Acredita que as mulheres começaram a se impor mais?
Helena – Há um impasse. Por um lado, as meninas cada vez mais se posicionam como feministas. Ao mesmo tempo, nos espaços de poder, o conservadorismo segue firme e forte. São contradições que vivemos. Quanto mais essas meninas se percebem feministas e se unem culturalmente e politicamente, trazem uma força maior. As mulheres que forem nessa Virada poderão conhecer e conversar com muita gente, trocar experiências e poder fortalecer o movimento feminista desta maneira.

Helena Zelic, da SOF, durante a marcha pela legalização do aborto (2014) (Foto: Dora Leroy)

ÉPOCA – Para você, o que significa o feminismo hoje e quais são as suas principais causas?
Helena –
O feminismo existe porque é necessário para a vida das mulheres. Aí entram as pautas que priorizamos, como a vida sem violência e o direito ao aborto, por exemplo, que são direitos necessários. São atitudes para que as mulheres tenham uma vida sem tantas limitações pelo poder e pelo machismo. O forte desta Virada vai ser mostrar que, quando as mulheres estão juntas, o feminismo fica mais forte.

ÉPOCA – Nem todas as mulheres concordam com as bandeiras feministas hoje ou não gostam do rótulo de feminista. Por que você acredita que isso acontece?
Helena –
Algumas pessoas deturpam o feminismo, principalmente os homens e a cultura que é feita por homens. São características que jogam contra o feminismo, é uma cultura que vai contra o feminismo. Algumas mulheres não compreendem. Tem tudo a ver com educação, com comunicação. Em relação à educação, falta abordar nas escolas temas como a questão de gênero. Várias pessoas e partidos políticos estão gritando “não” ao gênero. É preciso trazer também o feminismo às escolas para que esse espaço seja um ambiente confortável para as meninas, para que elas aprendam mais. Aprende-se que a história é feita por homens, então é preciso discutir questões referentes às mulheres e história feita por elas. Tudo isso é crucial para entender a importância do feminismo. Sobre como mudar a opinião das mulheres que vão contra o tema, acho que o primeiro passo é não se voltar contra elas, mas sim tentar entender quais são as motivações disso. É com conversa que se mudam os preconceitos, mas também mostrando como o movimento que construímos é amplo, plural, nos acolhe e fortalece.

ÉPOCA – Para você, qual marco na história do feminismo é mais importante?
Helena –
É muito difícil separar um momento específico, até porque a história das mulheres é muito ampla nesse sentido. Muitas delas são desconhecidas porque a história foi disseminada por homens. Ainda assim, sabemos de momentos feito por mulheres organizadas, responsáveis por avanços, como na Revolução Russa. Mais do que destacar um momento específico, diria que em todos os momentos que as mulheres se organizam, as coisas mudam de alguma maneira.

ÉPOCA – Você poderia dar mais detalhes sobre as oficinas da Virada Feminista? Como elas funcionarão?
Helena –
Convidamos algumas mulheres nas quais já confiávamos, que sabíamos que faziam um trabalho legal e que tinham a pegada da virada. Elas estão livres para mediar a oficina no método que já costumam fazer. Um exemplo é a oficina de Cordel, que vai ser feita pela Jarid Arraes. É uma literatura hegemonicamente não valorizada. A Jarrid já produziu vários cordéis e uma oficina sobre isso é muito relevante, já que não é uma cultura valorizada principalmente no Sudeste do Brasil. Uma mulher negra fazendo uma oficina sobre isso é muito relevante.

ÉPOCA – Foi planejada alguma estratégia para evitar assédios?
Helena –
Teremos uma equipe de monitores e de segurança no Centro Cultural da Juventude e algumas mulheres militantes responsáveis por prestar atenção nesse tipo de caso durante a Virada. Além disso, a organização estará identificada, sendo mais fácil chegar até nós para relatar ocorrências como essas para tomar as devidas providências. Apesar disso tudo, esperamos que seja um espaço confortável, de solidariedade e que não precisemos presenciar casos de assédio nem violência.

>> As cantadas ofendem

ÉPOCA – Quais foram os meios de divulgação do evento?
Helena – A gente apostou bastante na internet e o evento do Facebook está com mais de 10 mil pessoas. Também distribuímos informalmente cartazes e flyers pelas ruas, em lugares públicos, ônibus e durante a Virada Cultural, em shows de artistas feministas como o da cantora Ana Tijoux, do Chile.

ÉPOCA – O quanto a internet, com sites e redes sociais, ajudam a mobilizar mais pessoas?
Helena – Acredito que a internet seja uma ferramenta bem importante nesse processo, mas a ressalva é de que, sozinha, não faz todo o trabalho. Entre as comunicadoras da Marcha Mundial das Mulheres, costumamos dizer que vamos falar com as ruas, redes e roçados. O campo é outra realidade e uma parte muito grande do país que não pode ser ignorada. Por outro lado, a internet é muito boa para difusão com facilidade.

ÉPOCA – Na música, qual foi o critério para selecionar as atrações? Como as letras remetem ao feminismo?
Helena – Algumas cantoras já eram conhecidas, como a Luana Hansen, que vem do rap, e a Joana Duah, do estilo MPB. Fomos juntando outros nomes, que fizeram contatos e chamaram outras pessoas. Deixamos claro que a atividade era colaborativa e de que as pessoas iriam participar pela causa. A identificação com o feminismo vem a partir da escolha e vontade dessas cantoras participarem. Luana Hansen, por exemplo, tem letras sobre ser mulher e o machismo, sobre ser negra e o racismo, sobre ser lésbica e a lesbofobia. Ela problematiza todos esses temas nas músicas. Todas as artistas vão trazer o feminismo na arte de alguma forma, nem sempre totalmente explícito.

ÉPOCA – Que tipo de intervenções culturais acontecerão? 
Helena – Haverá várias peças de teatro, algumas coisas ligadas à dança, performances da Eliane Capel ou Andrea Barbour. Elas estão construindo isso desde o início do planejamento da Virada, pensando em como fazer. Outro exemplo é a peça do Levante Mulher, um coletivo de mulheres que são feministas e se apresentam em vários momentos, que estão na programação.

ÉPOCA – Todos os eventos acontecerão no Centro Cultural da Juventude? Vocês esperam um público de 11 mil pessoas?
Helena –
Sim, tudo vai acontecer lá. A programação está dividida entre horários e espaços. Estamos na expectativa, não temos muito a ideia de quantas pessoas vão aparecer por lá, mas acredito que não haverá problema em relação ao espaço físico.

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