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Pinguelli: o papel estratégico da Petrobras é indispensável

Pinguelli: o papel estratégico da Petrobras é indispensável

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O Brasil se encontra numa posição privilegiada em energia, um dos pontos de entendimento na visita da presidente Dilma Rousseff ao presidente norte-americano, Barack Obama. O país dispõe de recursos hidrelétricos abundantes, ainda que devam ser obedecidas as restrições de ordem ambiental.

LUIZ PINGUELLI ROSA – revista Época

Usamos biocombustíveis, como o álcool em automóveis, feito da cana de açúcar, com enorme vantagem econômica e ambiental em relação ao álcool de milho usado nos EUA. E a descoberta pela Petrobras de petróleo na camada do pré-sal adicionará de 30 a 80 bilhões de barris às reservas já conhecidas de 14 bilhões de barris. Isso muda a situação e o status global do Brasil no petróleo. Ainda assim, cabe a pergunta: qual é o futuro da indústria do petróleo?

Se abre possibilidades para o país, o petróleo é também um dos vilões do aquecimento global, devido às emissões de gases do efeito estufa, como reiterado pelos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC). É possível reduzir emissões com desenvolvimento econômico e criação de empregos, segundo um Estudo do Fórum Brasileiro de Mudança Climática, referido na divulgação do compromisso entre os presidentes do Brasil e dos EUA. E ainda temos pela frente a reunião da Convenção do Clima da ONU no final de 2015, em Paris, que discutirá formas de reduzir as emissões. Apesar disso tudo, e apesar de precisar ser usado com maior eficiência, o petróleo ainda será, por muitos anos, uma das principais fontes de energia do mundo.

“A corrupção e a política de preços dos combustíveis deixaram a Petrobras em situação frágil”

Houve a fragilização da Petrobras pela política de preços dos derivados, que estimulou o consumo de gasolina importada pela empresa, juntamente com outros derivados do petróleo, a preços maiores que os praticados no mercado interno. Isso foi agravado pelos desfalques devido à corrupção envolvendo grandes empreiteiras. Hoje, a fragilidade da empresa e a repercussão da Operação Lava-Jato ameaçam conquistas na exploração de petróleo e no desenvolvimento tecnológico.

Em decorrência dessa fragilidade, retomou-se o debate na mídia sobre mudanças institucionais e da legislação do petróleo. No sistema vigente, de partilha, o petróleo produzido é repartido entre a empresa e o país. Um ponto que tem provocado maior polêmica é a participação obrigatória da Petrobras em 30% de todo empreendimento, sendo ela a empresa responsável pela operação dos poços na exploração do pré-sal. Assim, a Petrobras será a detentora da tecnologia. O maior problema é o do controle dessas reservas e de sua exploração econômica, pois no sistema de concessões vigente fora da área do pré-sal o petróleo extraído pertence à empresa responsável.

O excedente econômico gerado pelo petróleo do pré-sal poderá resultar em uma redistribuição de seus benefícios, a começar pelaeducação, um objetivo correto. Há, entretanto, grandes interesses em jogo na disputa pelos recursos do petróleo. Há projetos de lei para derrubar o regime atual.

Apesar de tudo, a exploração do petróleo no Brasil vai bem. A produção de óleo e gás natural da Petrobras em território nacional alcançou o equivalente a 2,6 milhões de barris de petróleo por dia. Supondo que em alguns anos o consumo seja de 1,5 bilhão de barris por ano, tomando-se a hipótese de 40 bilhões de barris de reservas, elas darão para pouco mais de 26 anos – um tempo confortável para o consumo do país, mas não para ele se tornar um grande exportador. Seria interessante que a renda petroleira do pré-sal não desestimule as fontes alternativas e a eficiência energética, como forma de mitigar o aquecimento global. Muito pelo contrário, o ideal seria usar parte do lucro com o pré-sal para investir em energias renováveis.

As descobertas no pré-sal são importantes se comparadas com as descobertas em todo o mundo na última década, onde se destacam o óleo e o gás de folhelho nos EUA, principalmente. No pré-sal, há óleo leve de alta qualidade e competitivo comercialmente, mesmo com a queda recente do preço internacional do barril. Assim, ficamos em uma posição estratégica no quadro mundial.

Se consideramos o período de 2010 a 2014, a produção do pré-sal, numa média anual, aumentou cerca de 12 vezes, de 42 mil barris para 492 mil barris por dia. A produção do pré-sal superou 800 mil barris por dia em abril, oito anos após a descoberta do mesmo em 2006. Isso demonstra a eficiência da Petrobras na produção, especialmente porque os poços se situam em águas profundas e ultraprofundas.

O pré-sal também tem estimulado o desenvolvimento tecnológico e o setor industrial. Em função das águas ultraprofundas, foram e estão sendo desenvolvidas várias inovações tecnológicas em parceria com universidades e centros de pesquisa. Também resultou na contratação de sondas de perfuração, plataformas de produção, navios, movimentando a cadeia produtiva da indústria nacional de energia. Em maio, a Petrobras recebeu, em Houston, no Texas, o prêmio anual da Conferência de Tecnologia Offshore (OTC), pelas tecnologias que desenvolveu e por suas conquistas no pré-sal. Os poços no pré-sal estão sendo perfurados em tempo cada vez menor, com as melhores práticas mundiais de segurança operacional. O volume de negócios ali gerado impulsiona o desenvolvimento de toda a cadeia de bens e serviços, trazendo tecnologia, capacitação profissional e grandes oportunidades para a indústria. Por isso, é preciso superar a fase atual e olhar para o futuro.

O novo plano de negócios da Petrobras reflete a dificuldade atual de levar adiante vultosos investimentos. Propõe-se reduzir em 33% a produção do petróleo prevista para 2020, que seria 4,2 milhões de barris por dia. No refino, que foi o ponto fraco até agora, serão retomadas apenas em 2017 as obras do segundo trem da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, para iniciar sua operação em 2018. Do Comperj, em Itaboraí, será concluída apenas uma parte em 2017, procurando-se parceiros para o restante. A questão que se coloca é se a diminuição proposta reflete uma visão financista a dominar o presente, incompatível com um país do tamanho do Brasil, cujo futuro ainda tem de ser construído.

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