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Pepe Escobar analisa diferenças entre Rússia e Otan na Síria

Pepe Escobar analisa diferenças entre Rússia e Otan na Síria

O confronto OTAN-Rússia na Síria
7/10/2015,
Pepe Escobar, RT

Traduzido pela Vila Vudu

Um Su-30 entra uns poucos metros no espaço aéreo turco, por apenas dois minutos sobre a província Hatay, e volta ao espaço aéreo sírio logo que foi alertado por dois F-16s turcos.

A OTAN, como se podia prever, veio com todas suas armas retóricas engatilhadas. A Rússia está causando “perigo extremo” e deve parar imediatamente de bombardear aqueles ‘rebeldes moderados’ bonzinhos que a coalizão dos oportunistas safados tanto se esforça para não bombardear.

Mas, calma! A OTAN está atualmente ocupada demais para ir à guerra. A prioridade até pelo menos novembro é a épica operação Trident Juncture 2015; 36 mil soldados de 30 estados, mais de 60 navios de guerra, cerca de 200 aviões, todos treinando seriamente como defender-se do proverbial “Os Russos Estão Chegando!”

Mesmo assim, o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu – aquele, o da antiga doutrina de “zero problemas com os nossos vizinhos” – realmente “alertou” Moscou de que, na próxima, Ancara responderá “militarmente”.

Até, claro, que retrocedeu: “O que recebemos da Rússia (…) é que foi um erro e que eles respeitam as fronteiras turcas e aquele erro não se repetirá.”

O incidente teria sido facilmente contornado – pelos canais de comunicação militar-militar – sem a encenação que se viu.

Mas Ancara – flanco leste da OTAN – está sofrendo pressão descomunal do ‘Excepcionalistão’. Não por acaso, o El Supremo do Pentágono e neoconservador conhecido, Ash Carter, “manteve conversações” com Ancara sobre o incidente. Carter, claro, é o astro que mais aplicadamente pratica o diktat do governo dos EUA: “Ao empreender ação militar na Síria contra grupos moderados, a Rússia escalou a guerra civil.”

Na sequência, o ‘Sultão’ Erdogan, diretamente de Estrasburgo (não, não, não estava em campanha para o Parlamento Europeu) repicou: “Assad cometeu terrorismo de estado e, infortunadamente, vê-se a Rússia e o Irã a defendê-lo”.

E nem assim o ‘Sultão’ Erdogan conseguirá passar à história como o catalisador da muito desejada Guerra Quente 2.0 OTAN-Rússia. Não, pelo menos, por enquanto.

Só bombardeie quando nós mandarmos

Entra o Dr. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski, rugindo em coluna para oFinancial Times que Washington deve “retaliar”, se Moscou não parar de atacar “ativos dos EUA” na Síria. “Ativos dos EUA” significa terroristas “moderados” treinados pela CIA. E afinal, está em jogo a “credibilidade norte-americana”.

Dr. Zbig – principal mentor de Obama para política externa – insiste que bombardear “rebeldes” treinados pela CIA é prova da “incompetência militar russa”. E o contra-ataque norte-americano deve visar a “desarmar” a “presença naval e aérea russa.” E assim, qualquer um consegue uma Guerra Quente 2.0 OTAN-Rússia.

Dr. Zbig admitidamente considera que “o caos regional pode facilmente se espalhar para nordeste” e então “ambas, Rússia e China, podem ser adversamente afetadas.” Mas… e quem se preocupa? A única coisa que conta é que “interesses norte-americanos e amigos dos EUA… também sofreriam.”

Eis o que se faz passar por análise geopolítica que preste, no ‘Império do Caos’.

O ‘sultão’ Erdogan, por sua vez, não sossega. Moscou já reduziu a pó o sonho tão ansiado, de três anos, de Erdogan, de conseguir uma zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria. Há é uma zona aérea de exclusão verdadeira, sobre toda a Síria. Mas quem manda nela é a Rússia.

E isso explica por quê reina a mais completa histeria de pleno espectro e só se fala de mais sanções do Congresso dos EUA contra a Rússia. Como alguém conseguirá impor sua própria zona aérea de exclusão sobre a Síria… se a Rússia chegou primeiro?

E estava tudo andando tão bem para o ‘Sultão’! Ancara – dada da forte insistência de Washington – afinal abriu suas bases aéreas para a luta contra ISIS/ISIL/Daesh, mas só porque a operação foi parte de uma operação para mudança de regime em Damasco. E então, sim, Ancara conseguiria sua zona de exclusão aérea.

É quando entra em cena o pesadelo recorrente do ‘Sultão’: o Partido da União Democrática Curda (PYD) e sua organização irmã, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

‘O Sultão’ simplesmente não pode aceitar o avanço do PYD para a margem ocidental do Eufrates para ajudar na luta contra ISIS/ISIL/Daesh. ‘O Sultão’ quer “conter” o PYD em Kobani.

O problema é que o PYD – apoiado pelo PKK – é o único aliado confiável do ‘Império do Caos’ na Síria. Mas ‘O Sultão’ não conseguiu se impedir de entrar em guerra – outra vez – contra oPKK. Washington não ficou exatamente muito contente.

E então há também o corredor chave do ponto de passagem de fronteira em Bab al-Salam até Aleppo – controlado por esquadrões de doidos apoiados por Ancara. É a ponte de Ancara para Aleppo; sem ela, nem a mínima chance de mudança de regime, nunca. O falso “Califato” ameaçava tomar o corredor. Tornou-se imperativo agir.

A espetacular entrada da Rússia no teatro de guerra desmontou todos esses elaborados planos. Imagine uma liberação completa do nordeste da Síria, tão logo o PYD – com auxílio dos combatentes do PKK – esteja suficientemente armado para dar cabo dos doidos doISIS/ISIL/Daesh. E imagine a Força Aérea Russa dando cobertura a tal operação, com coordenação extra pela central Rússia-Síria-Iraque-Irã em Bagdá.

‘O Sultão’, em desespero, teria de manobrar seus F-16s contra essa ofensiva. E assim poderíamos realmente ter um cenário cinco-minutos-antes-da-meia-noite OTAN-Rússia – com consequências aterrorizantes. ‘O Sultão’ pisca primeiro. E a OTAN mergulha na ignomínia da qual nunca emergiu – de volta àqueles elaborados exercício “a Rússia está invadindo”.

Dê bom-dia à minha ferramenta geopolítica jihadi

Passos seguintes para a campanha russa é dar atenção concentrada à estrada que liga a capital de ISIS/ISIL/Daesh, Al-Raqqah, em torno da qual os jihadis combatem pelo controle do petróleo e do gás em Sha’ir e Jazal. E há os bolsões a leste de Homs e Hama, e em al-Qaryatayn. Moscou – lentamente, metodicamente, sem erros – está chegando lá.

O que a campanha aérea dos russos já expôs perfeitamente claro é todo o mito central apodrecido da nova Jihad International.

ISIS/ISIL/Daesh, Frente al-Nusra e sortimento variado de esquadrões de doidos salafistas jihadistas são mantidos ativos e operantes por um massivo “esforço” financeiro/logístico/de armamento – que inclui todos os tipos de nodos chaves, de fábricas de armas na Bulgária e Croácia, até as rotas de transporte via Turquia e Jordânia.

Quanto àqueles “rebeldes moderados” sírios – e a maioria dos quais sequer são sírios, são mercenários – cada seixo rolado nas revoltas areias Sykes-Picot do deserto sabe que são treinados pela CIA na Jordânia. Os seixos do deserto também sabem muito bem que os doidos do ISIS/ISIL/Daesh foram infiltrados dentro da Síria, vindos na Turquia – mais uma vez através da província Hatay; e vastas porções do Exército e da polícia d'”O Sultão” estão no jogo.

Quanto a quem paga as contas daquela fartura de armas, fale com os “ricos pios doadores” – incitados pelos próprios clérigos – no CCG, o braço petrodólar da OTAN. Nenhum desses esquadrões de doidos poderia viver por tanto tempo sem “apoio” pleno, multidisciplinar dos suspeitos de sempre.

Daí a raiva histérica/apoplética/paroxística que toma conta do “Império do Caos” manifesta o absoluto fracasso, mais uma vez, da mesma velha “política” (lembrem-se do Afeganistão) de usar jihadistas como ferramentas geopolíticas. Falso “Califato” ou “rebeldes”, são todos paus mandados do CCG-OTAN.

Para acrescentar insulto à injúria, um muito frustrado “Sultão” foi também forçado a anexar-se a uma posição ligeiramente modificada de Washington – que agora manda que “Assad tem de sair”, sim, mas pode demorar um pouco, como parte de uma “transição” ainda a ser definida.

‘O Sultão’ continuará uma pilha de nervos. Não dá nenhuma importância ao ISIS/ISIL/Daesh. Agora, Washington assumiu – digamos assim. Quem esmagar o PYD e o PKK. Para Washington, o PYD é aliado útil. Para Moscou, melhor ‘O Sultão’ olhar bem onde mete seu pé neo-otomano.

“O Sultão” simplesmente não pode antagonizar “O Urso”. Gazprom vai expandir seu gasoduto Blue Stream até a Turquia. Seriam 3 bilhões de metros cúbicos; em vez disso, serão 1 bilhão de metros cúbicos. Segundo o ministro Alexander Novak, de Energia da Rússia, é por causa de capacidades técnicas.

Mas Ancara que se comporte, porque até essa extensão reduzida pode evaporar, se não houver acordo sobre os termos comerciais do TurkStream, ex-Turkish Stream. Ancara está sob tremenda pressão do governo Obama. E “O Sultão” sabe muito bem que sem a Rússia e todo seu elaborado plano para pôr a Turquia como nodo chave para o trânsito da energia do Leste para Oeste, tudo evanescerá no mato rasteiro da Anatólia. No fim, pode sobrar ‘mudança de regime’ até para ele mesmo.

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