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Muito além de Delcídio Amaral

Muito além de Delcídio Amaral

Por Osvaldo Bertolino

A prisão espetaculosa e em flagrante do senador Delcídio Amaral (PT-MS) faz parte de um enredo que vai muito além do fato em si. Os motivos da acusação parecem incontestáveis, mas a dimensão que o caso ganhou não corresponde a eles. A começar pelos nomes envolvidos nas gravações feitas pelo filho de Nestor Cerveró, Bernardo, como os dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Tóffoli, Gilmar Mendes e o relator da Operação Lava Jato, Teori Zavascki, responsável pelo pedido de prisão do senador.

Assim como eles, a rigor o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deveriam ser investigados. Sem falar no gravíssimo flagrante do “perigoso canal de vazamento” de informações sigilosas da Lava Jato para beneficiar pessoas poderosas, segundo o ministro Teori Zavascki, referindo-se à esculhambação em que se transformou a famosa força-tarefa comandada pelo juiz Sérgio Moro.

Feito o noves fora, o que sobra mesmo é mais um lance da patetice em que a mídia transformou a disputa política no país. E assim, de espetáculo em espetáculo, os artistas circenses vão criando situações que podem levar a um desfecho dramático, cujos resultados e consequências são imponderáveis. O que se sabe, com certeza absoluta, é que casos como esse se enquadram perfeitamente no enredo golpista da direita. E aí é preciso prestar muita atenção na jogada para não tomar bola nas costas.

Em suma: o momento não é de bravatas, de moralismos tão falsos quanto perigosos, mas, sim, de abrir o campo de visão e focar bem a realidade. É preciso contabilizar e quantificar quem não está disposto a entrar no jogo sujo da direita para servir de base para o golpismo. Esse é o pano de fundo, a batalha que realmente interessa ao país. Em torno dela, deve-se jogar as fichas — inclusive o rigor na apuração e punição de eventuais delitos.

Sabe-se, não é de hoje, que as acusações da direita são exatamente o que ela usa para fazer seu jogo político. E isso quer dizer que o seu vale-tudo, seu quanto pior, melhor, tem o único objetivo de resolver já o que seria, pelas regras democráticas, resolvido em 2018, na sucessão presidencial. O problema é que até lá muita coisa vai acontecer e o seu projeto poderia enfrentar grande resistências quando ele for a debate. O mais fácil, para a direita, é forçar o golpismo e, com ele, impor goela abaixo o projeto de desconstrução da era Lula-Dilma com a sociedade desarmada, sem a menor condição de resistência.

Esse projeto, sabemos bem, é o mesmo que levou o país ao caos na era FHC. Ele passa pelo desmonte do Estado, pela ameaça à soberania nacional, pelo fim da legislação trabalhista e social e pela revogação das garantias democráticas constitucionais. Ou seja: tudo aquilo que o povo brasileiro conquistou com duras lutas ao longo da história estaria sob ameaça. Em exercício de fácil compreensão, portanto, chega-se à conclusão de que a garantia do mandato da presidenta Dilma Rousseff é tarefa histórica, inserida na defesa da pátria, dos direitos do povo, do futuro dos brasileiros.

Eis, em resumo, a lição que devemos tirar desse triste espetáculo. E compreendê-lo como mais um capítulo da luta histórica do povo brasileiro contra seus inimigos; os que querem perpetuar uma condição inaceitável e que guarda grande semelhança com o pensamento elitista do século XIX. A defesa da democracia, da soberania nacional, dos direitos sociais e das garantias constitucionais é, hoje, o grande desafio para as forças progressistas. E não há outro meio de fazê-la, para ela ser algo efetivo, sem unidade popular e visão ampla do espectro político que se apresenta de forma tão complexa. Nessa tarefa, a história serve de guia e as teorias sociais progressistas de bússola.

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