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O papel de FHC como baluarte do golpismo

O papel de FHC como baluarte do golpismo

Por Osvaldo Bertolino

O tipo de campanha que a direita vem fazendo para enganar a população sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff  dá cartaz no noticiário da mídia, mas não consegue ocultar algo fundamental: poucas vezes um presidente teve a sorte, como tem a presidenta Dilma Rousseff, de enfrentar inimigos tão desqualificados como os que enfrenta hoje.

De fato, um dos trunfos mais poderosos de Dilma é o tipo de gente que lhe faz oposição. Durante o tempo todo, o público ouve bravos discursos clamando por princípios e pureza de figuras como José Serra, Aécio Neves e, principalmente, Fernando Henrique Cardoso (FHC), que está hoje, domingo (6) nas páginas dos jornais vociferando suas habituais diatribes contra a democracia. Assim fica difícil para a direita!

Nos anos 1950, distribuíam-se prêmios a quem conseguisse reunir o máximo de tolices em frases curtas. Entre elas, havia uma sentença lapidar: “Os quatro evangelistas são três: Esaó e Jacu.” A lembrança vem com a sentença de FHC de que “não é porque são mais pobres que (os eleitores de Dilma Rousseff) votam no PT, mas porque são menos informados”.

Ele age como aqueles vendedores de produtos conhecidos nas farmácias por BO (Bom para Otário), ao tentar empurrar goela abaixo dos brasileiros grosseiras falsificações – como se fôssemos um país de bocas-abertas. Ele acha que para os brasileiros pensar dói. O bom mesmo, segundo seu cínico evangelho, é mantê-los na obscuridade política para colher apoios manipulados, sem polimento e sem lapidação.

FHC é o ícone de um pequeno setor do Brasil que se imagina mais capaz, mais limpo, gente melhor do que os seres considerados primevos por serem descendentes de negros e índios. Ele tem se sentido um Carlos Lacerda redivivo – aquele histriônico jornalista anti-Getúlio Vargas, anti-Juscelino Kubitscheck e anti-João Goulart. FHC afirmou, entre outras diatribes, que nos governos Lula e Dilma a corrupção se transformou em um fenômeno novo, pois tem “organicidade” e “é sistêmica”. Anteriormente, ele havia declarado que “a ética do PT é roubar”.

O pó da derrota

Para tentar se justificar, ele disse que suas declarações não eram ofensas. “Eles é que ofenderam o povo brasileiro com o caixa 2”, declarou, como se o seu partido não fosse o campeão dessa prática irregular. O ex-presidente voltou a usar a metáfora da bomba atômica para explicar, segundo sua fantasiosa tese, porque o PSDB não deu entrada no pedido de impeachment do ex-presidente Lula. (FHC já havia dito que “impeachment é como bomba atômica, só assola, não é para ser usado”.) “A eleição de Lula fez parte da construção da democracia. Impeachment é bomba atômica”, disse, explicando que o processo de destituição de um presidente arrasaria a democracia do país.

Agora, com o recrudescimento do golpismo em várias frentes e de maneira ainda mais agressiva, FHC assume o papel de um dos baluartes do jogo sujo da direita. “A responsabilidade pelas crises é do lulopetismo, como há anos venho denunciando. Basta ler meu livro sobre A Miséria da Política para ver há quanto tempo”, escreve ele no artigo de hoje. “Trata-­se agora de, ao reduzir os malefícios do lulopetismo, restabelecer a crença na democracia, dar prevalência à Constituição e criar uma nova situação de poder”, afirma, confessando sua adesão escancarada ao golpismo. “Nem preciso voltar a falar de impeachment, dos cuidados que ele requer. Essa medida não deve ser objeto de desejo, mas pode brotar de investigações e fatos”, complementa.

A verdade é que FHC vem recorrendo ao velho artifício que compensa os partidos conservadores sem forças para levantar as massas: a mídia. E a mídia, que mesmo com sua descabida pretensão de ser “os olhos da nação” – segundo palavras do célebre pensador, jurista e estadista brasileiro Rui Barbosa – já foi obrigada a dobrar a língua quando o povo derrotou a direita em 2002, 2006 e 2010, tem se esmerado nesse papel. Mas a militância democrática tem tudo para, novamente, furar o bloqueio midiático que esconde a sujeira tucana para amplificar as calúnias contra o campo governista e certamente voltará a fazer a direita morder o pó da derrota.

O pior pecado depois do pecado

Esse comportamento da mídia reproduz a máxima machadiana de que o pior pecado depois do pecado é a publicação do pecado. Seria apaixonante enveredar aqui por uma discussão sobre a moralidade dos povos. Mas os tempos são curtos e basta lembrar que por estar historicamente superado o programa da direita é um terreno fértil para a corrupção. A moralidade se submete aos processos seletivos de variação, adaptação e competição em busca da sobrevivência dos grupos sociais. Daí a contramarcha histórica da direita, que existe unicamente para preservar seus privilégios, por meio de conchavos entre os agentes que sustentam o status quo.

Se não basta a violência como elemento político, modalidade em que a direita brasileira se destaca historicamente – é só observar a lista de golpes e tentativas de golpes de Estado –, há a constatação ao alcance de todos de que, em matéria de corrupção, os udenistas-tucanos têm muito conhecimento de causa. O rigor moral certamente levaria o país para um severo acerto de contas entre classes sociais.

A soberania do voto

Os ataques de FHC ao povo, portanto, estão longe de ser um devaneio; eles refletem um pensamento ideológico agora novamente usado de maneira enfática para reforçar o sentimento “antipetista” (na verdade uma espécie de fascismo difuso) como contraponto ao sentimento do povo pobre, que interage mais com os poderes públicos em todo o país. São, na verdade, conceitos que apostam na despolitização individualista e liberal da chamada “classe média” – boa parte dela elevada para alguns degraus acima na escala econômica do país pelas políticas dos governos Lula e Dilma. Com isso, FHC e seus asseclas afrontam um princípio básico da democracia: a soberania do voto.

Todas as constituições democráticas, inclusive a do Brasil e suas limitações, dizem que o povo é soberano. Isso quer dizer que o fundamento da democracia é o voto individual de cada um dos milhões de cidadãos legalmente habilitados a votar. Mas a elite brasileira nunca aceitou esse princípio civilizatório. Anos atrás, quando o regime militar de 1964 começava a transitar do apogeu para o declínio, o então presidente, general Ernesto Geisel, proclamou sem reservas a tese da “imaturidade” do eleitorado brasileiro – opinião reafirmada por seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo.

Elitismo rombudo

Mas o que levou Geisel a manifestar esse pensamento não foi aquele elitismo rombudo que sempre caracterizou os que se imaginam os bem-nascidos do Brasil, como acaba de proclamar FHC. Foi um elitismo mais sofisticado. Justiça seja feita, ele, apesar de ter sido um ditador sanguinário, não encampou em sua fala os termos estáticos, quase essencialistas, dos anos 1920 e 1930, tempos áureos do pensamento autoritário e da sociologia culturalesca, muito presentes nas campanhas da direita de hoje em dia. Um exemplo disso foi a proposta feita pelo “comentarista” da TV Globo, Alexandre Garcia, ex-porta-voz de Figueiredo, que na semana anterior ao segundo turno das eleições de 2006, diante do favoritismo de Lula, defendeu a tese da “aptidão eleitoral” para se obter o título eleitoral.

Também nisto Geisel fez questão de se mostrar olímpico e pedagógico: deu ao elitismo de outrora uma formulação intelectual mais elaborada, postulando que em primeiro lugar deve vir o crescimento econômico, depois o bem-estar social, sendo este, segundo ele, a pré-condição de um “regime democrático sadio”. Em vez de vituperar pura e simplesmente a vida político-partidária, como fez FHC, via-a como desejável, e até a exaltava, ressalvando porém que ela não poderia ser autêntica enquanto não houvermos alcançado elevados índices de desenvolvimento, e enquanto não tivermos um eleitorado composto de “cidadãos conscientes, racionais, sociabilizados e educados”.

O povo é soberano porque é

Anos depois, esse tema voltou à baila, trazido por ninguém menos que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Contestar a afirmação que lhe foi atribuída tornou-se durante um bom período o esporte predileto de pessoas como eu, pouco afeitas a outros esportes além de torcer para o Santos Futebol Clube, e a discussão parece ter colocado na defensiva os que gostavam de menosprezar a capacidade intelectual do povo. A própria expressão “povo”, quando usada para esse fim, soa elitista – reflete a pretensão de alguém que olha de cima para baixo, como se lhe fosse dado o direito de aprovar ou não aprovar o que o ”povo” decide. Querendo dizer que ele, que se imagina soberano, precisa aprovar a decisão soberana.

Na democracia, o povo não é soberano porque sabe ou deixa de saber algo. É porque é. Ele é a fonte da soberania, contra o pensamento autoritário tradicional, que atribui uma designação sobrenatural à origem do poder. É porque encarna o direito de voto, porque vota como entende que deve votar e porque o voto é o único caminho legítimo para quem queira ser investido nas mais altas funções decisórias – regra que deveria valer também para o Poder Judiciário, como ocorre onde imperam democracias mais populares.

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