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O impeachment e o camelo

O impeachment e o camelo

Por Osvaldo Bertolino

Parece haver nas ações da direita brasileira de hoje cada vez mais coisas entre o céu, onde está a imaginação, e a terra, onde se vive a realidade, do que sonha a nossa vã filosofia. Pelas melhores regras do que se considera ser a ciência política, pela sabedoria acumulada nas academias e até pelas experiências do passado, tais e tais causas deveriam gerar tais e tais efeitos; desta ou daquela situação teria de resultar esta ou aquela consequência. Mas não tem sido assim. Isso se deve à mais interessante inovação que a direita trouxe para o debate político: o Departamento de Gerência de Falsidades e Mentiras. Ou seja: a mídia.

É o que acontece agora com os espetáculos deploráveis criados por figuras teatrais e patéticas, como Eduardo Cunha e seus aliados — especialmente a turma do tucano Aécio Neves —, com essa chicana do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Essas obras de fancaria, examinadas de perto, mostram que, como na parábola do camelo da Bíblia, não levam nenhum dos acusadores a entrar no reino dos céus — ou, até, em lugares onde o ingresso exige méritos muito mais modestos. O bicho teria menos trabalho para passar pelo buraco de uma agulha do que um desses acusadores para ser abrigado na morada dos justos.

Guerra do Vietnã

A calamitosa sequência de truques para justificar as acusações que pesam contra as vítimas dessa execração pública inescrupulosa é uma prática que faz primeiro o sujeito perder a pose, depois o respeito e por fim qualquer condição de continuar falando em moral, ética e bons costumes. Mas nada disso parece incomodar os acusadores. Eles vivem em um mundo no qual não cabem os países onde se vive sob a proteção das leis e a Constituição funciona como uma garantia para os cidadãos. Sua aplicação  gera um ambiente de tranqüilidade, a expectativa de ordem e o conforto de saber que as decisões serão tomadas sempre de acordo com as mesmas praxes e critérios.

No Brasil, a mídia quer transformar esse viés democrático em um fator de tumulto. Seus mandantes a todo momento interferem no Poder Judiciário, no Poder Legislativo e no Poder Executivo. Eles invalidam leis que o Congresso aprovou, inventam regras novas no meio do jogo e decidem o que a Constituição quis ou não quis dizer a cada artigo. A “comentarista” do Grupo Globo Miriam Leitão, por exemplo, já avisou que o resultado da comissão especial responsável por analisar o pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff terá de ser ”razoável”. O que será que ela e seus iguais consideram “razoável”? Vai ser preciso adivinhar, ou perguntar a eles, ou, quem sabe, pedir que escrevam eles próprios novas leis para o país.

Se perguntados o que pretendem fazer, suas respostas certamente serão parecidas com aquela célebre explicação dada por um oficial norte-americano, durante a Guerra do Vietnã, após pulverizar uma aldeia acusada de abrigar guerrilheiros comunistas: “Para salvar a aldeia, tivemos de destruí-la.” O Brasil, como já se disse mais de uma vez, tem um dos piores sistemas de mídia do mundo — possivelmente o pior. Não é ruim o suficiente, porém, para as necessidades dos manda-chuvas de sempre — e mesmo de algumas personalidades do mundo político que se imaginam do mundo das artes cínicas… ops, cênicas — , que sempre combinam entre si uma tramoia para torná-lo ainda pior do que já é. Trata-se de uma manobra para retirar do eleitor, ou reduzir pela metade, o seu direito de escolher os nomes das autoridades públicas que gostaria de eleger.

Feira de Acari

Isso explica porque esses meios golpistas são uma espécie de X-tudo. São enfiados ali, à medida que vão sendo encontrados, os ingredientes mais diversos e disparatados entre si — qualquer coisa serve, desde que faça volume. Entram “denúncias” requentadas, “denúncias” que estão paradas há tempos e “denúncias” que talvez um parlamentar oportunista faça algum dia. Nesse vale-tudo, a mídia vai se revelando como de fato ela é — uma máfia.

Que razões, por exemplo, podem ser apresentadas com dados e fatos para esse processo impeachment? Quando se coloca a pergunta, as respostas começam com um “veja bem” — e a partir daí não se vê mais nada com clareza. Na melhor das hipóteses, seguem-se explicações que desvendam só um pedaço da charada. Na maioria das vezes, o que se tem são análises difíceis de entender, defeituosas na lógica, contrárias aos fatos ou tudo isso ao mesmo tempo. Ao fim e ao cabo, fica-se na mesma. É um mistério, como a feira de Acari.

 

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