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Eduardo Cunha não é Catilina e Sérgio Moro não é Cícero

Eduardo Cunha não é Catilina e Sérgio Moro não é Cícero

Por Osvaldo Bertolino

O famoso orador romano Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) ensinou que uma boa história precisa responder às perguntas “quem?” (quis/persona), “o quê?” (quid/factum), “onde?” (ubi/locus), “como?” (quem admodum/modus), “quando?” (quando/tempus), “com que meios ou instrumentos?” (quibus adminiculis/facultas) e “por quê?” (cur/causa). No caso da nova fase da Operação Lava Jato denominada “Catilinárias”, a última pergunta de Cícero é a mais relevante.

Pela boca de seu amigo Tito Pompônio Ático, ficamos sabendo que para Cícero Roma era um assunto sobre o qual não se devia pedir informações a fim de evitar aborrecimentos. Mas, ao que parece, seu aborrecimento chegou ao limite com as sucessivas tentativas de conspiração comandada por Lúcio Sérgio Catilina (109-62 a.C.) — algo muito parecido com as ações da direita no Brasil nos últimos tempos — e ele assumiu a defesa do que poderia ser a legalidade da época. Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? (Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?), foi a frase mais famosa do seu brilhante discurso no Senado romano que entrou para a história.

Bravatas de glória

A obra-prima de retórica com a qual Cícero denunciou ao Senado a conspiração armada por Catilina poderia ser adaptada, hoje, para a defesa da democracia no Brasil. Com a diferença de que, ao contrário do que diz a mídia, Eduardo Cunha não é o verdadeiro Catilina (há vários no condomínio golpista mais merecedores desse nome). Nem tampouco essa fase da Lava Jato tem a intenção de demonstrar que há um golpe em curso. Não há nenhum Cícero entre os obscuros comandantes dessa operação farsesca; eles usaram o nome querendo demonstrar que são diligentes e que Cunha estava abusando da paciência alheia.

Data venia. Alguém acha que o juiz Sérgio Moro — o comandante da operação — pode falar em nome do povo brasileiro? Alguém o elegeu para isso? Alguém acha que ele tem o poder de expressar os sentimentos dos cidadãos do país? Moro está, mais uma vez, obtendo seus minutos — ou bravatas — de glória. É evidente que ele tem a obrigação de exercer o seu papel de juiz. Mas é sua obrigação também atuar como defensor da lei, da justiça, dos direitos humanos, da ética e da Constituição. Não é o que ele vem fazendo. Diante disso, essa operação contra Cunha e alguns de seus aliados (a arraia-miúda) deve ser vista numa perspectiva mais ampla.

Cores ideológicas

É óbvio que a direita vem atuando para afastar o presidente da Câmara dos Deputados, que, de aliado de primeira hora, passou a ser um estorvo para ela. Não há como justificar a presença dessa figura degenerada no centro das maquinações golpistas. Afastá-lo passou a ser a tarefa prioritária da direita, como a mídia tem demonstrado fartamente nos últimos dias.

Sérgio Moro, como um dos artífices da onda golpista, faz uma maquiagem nessa operação, como tem sido sua praxe, que não sobrevive a nem cinco minutos de exposição à luz. É difícil imaginar seriedade de Moro numa atividade como essa operação “Catilinárias”. Entretido em ”defender” o país, ele tem dado várias demonstrações de que sua força tarefa não é séria. Se fosse, Cunha já estaria na cadeia há meses.

O pano de fundo tem cores ideológicas. Os adeptos de Moro vêm demonstrado serem duros contestadores do rumo político do governo da presidenta Dilma Rousseff. Ou seja: eles lutam contra um programa de governo e suas engrenagens básicas. Os códigos e as convenções deste governo não servem para levar adiante a plataforma ideológica da parcela da sociedade a qual pertence Moro. No seu mundo, o Estado como principal agente da sociedade é um anátema. Daí a sua pregação ideológica e taxativa, de viés conservador e golpista, sobre os mais variados assuntos de interesse público. É um filme que já vimos várias vezes.

A luta ideológica da claque de Moro é contra a natureza dos regimes de estilo popular que emergiram triunfantes em muitos países da América Latina — uma forma de organização política e econômica propensa a equalizar o escandaloso desnivelamento social da região. A direita defende o que ela chama de lei e ordem — tradução de imobilidade social. Isso ocorre porque a quase totalidade dos seus privilégios advém da exclusão social.

Números ridículos

Ou seja: a elite brasileira nunca aceitou de quem ela julga seus subordinados uma postura que ultrapassasse a obediência à ordem por ela estabelecida. Não é raro ouvir dessa gente que ladrão bom é ladrão morto, especialmente se ele for pobre e preto. Na prática, essas manifestações da direita servem de palco para líderes políticos geralmente sem plateia e sem votos — além de “socialites” profissionais, desocupados e até cantores frustrados.

Quem acredita honestamente na honestidade dessa gente deve olhar friamente para as manifestações do dia 13 de dezembro de 2015. É errado que a oposição se manifeste? É claro que não. É natural que tente mobilizar seus quadros? Sem nenhuma dúvida. É compreensível que os líderes inchem ao máximo o número de participantes? Sim, ainda que isso produza números ridículos. Tudo isso faz parte do atual jogo político brasileiro.

O que se deve lamentar é, de um lado, o profundo desprezo pelas regras democráticas. De outro, o disparate entre a real dimensão das manifestações e sua repercussão na mídia. As marchas foram um estrondoso sucesso como ocupação de espaço midiático e um indisfarçável fracasso como ocupação de espaço nas ruas. O evento mereceu aquilo que os jornalistas denominam cobertura de saturação — induzida pela criação de uma falsa expectativa de que se iria presenciar uma manifestação de proporções excepcionais.

Utopias neoliberais

Não se está argumentando aqui que tudo são rosas pelo caminho. É claro que os desafios que o país tem pela frente são enormes. E que o governo precisa fazer movimentos mais ousados para vencê-los. Tampouco se pretende negar aqui que há insatisfações em relação ao governo. A economia do país marcha para trás. A especulação financeira não cansa de se fartar na farra dos juros altos. As pessoas cobram soluções rápidas para seus problemas. Mas, infelizmente, não existe milagre. Consertar a economia e resgatar a dívida social é obra de gerações.

Essa inquietação é absolutamente legítima, bem como seu uso político por parte da oposição. O problema é quando ela flerta com o golpismo. Nessa hora, o terreno é fértil para soluções autoritárias, para saídas supostamente fáceis. Em lugar de debates amplos e democráticos, denuncismos. Em vez de eleições, golpe. A história brasileira é exemplar em aventuras como essas. Já deu para aprender que os atalhos golpistas são, ao mesmo tempo, atos de pilantragens — como ocorreu com o golpe militar de 1964.

A verdade é que a direita está se aproveitando disso tudo para criar uma falsa imagem do país e vender o sonho das utopias neoliberais. São, em geral, pessoas sem ética, sem moral e sem autoridade para falar contra a corrupção, seja lá o que elas querem dizer com isso. É certo que quase todas têm pelo menos um ou dois milhões de dólares em seu patrimônio cuja origem não conseguem explicar.

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