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O dicionário do golpe

O dicionário do golpe

Por Osvaldo Bertolino

Num momento em que existe um volume inédito de informações à disposição do público, é possível que nunca o cidadão brasileiro tenha estado tão mal informado como hoje. Isso se deve ao mundo à parte dos que fazem da política a arte de delinquir, um gueto seleto de farsantes e impostores, no qual o que parece não é, e o que é hoje pode deixar de ser amanhã. Diante da salada de falsas questões, ideias sem nexo e fatos incompreensíveis que é servida diariamente no noticiário político, o que se tem, na maior parte do tempo, é sonegação de informação com segundas, terceiras e quartas intenções.

Até a mais desinformada telespectadora da novela das oito está cansada de saber que não se deve confiar nessa gente. Mas eles, com suas alquimias e a receita infalível de Joseph Goebbels, fazem a mentira se tornar realidade à força de repetição. Tudo bem dosado e calculado para atingir o alvo em cheio. Tomemos o caso de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, incensado até armar o golpe do impeachment contra a presidente Dilma Roussef e depois, quando começou a aparecer todo enlameado pelas mesmas velhas práticas políticas da direita, passou a ser empurrado para o cadafalso.

A marcha golpista precisava de Cunha para o passo decisivo no degrau cronológico da trama. Só ele seria capaz desse lance ousado que o tucanato vinha ensaiando há tempo e não tinha coragem política para consumá-lo. Terceirizaram o trabalho sujo. Agora é seguir com a procissão, na qual Cunha não tem mais o que fazer. Vale a ladainha do berro, do verbo, da rasteira, da trapaça. Vale tudo. Vale, sobretudo, a demagogia barata, a desinformação, a falta de seriedade com a importância do voto e o incentivo à estultícia. O fato é que com essa onda de moralismo típica de maré baixa o Brasil se vê novamente envolvido em uma discussão tão antiga quanto hipócrita.

Delírio teorizante

O comando dessa empreitada está entregue à ditadura de uma casta com a presunção de ignorar a sabedoria humana ao conferir a si própria o título e as credenciais de senhora do bem e do mal, do que convém ou não ao país. É uma espécie de Ku-Kux-Klan da falsa moralidade, com ojeriza ao pensamento avançado, humanista. A cada dia ela nos apresenta exemplos dos mais edificantes, baseadas em características e fenômenos de um país que eles imaginam, muito diverso do país real. Equacionar, operar, extirpar e outros vocábulos os embalam em seus cálculos frios.

Os dados aparecem em esquemas e equações que não partem de realidades conhecidas. São fantasias e fantasmagorias que não se destinam a descobrir, orientar, provar, mas… Se destinam a que precisamente? A sofismar, a mistificar e mitificar, a ludibriar. Qualquer que seja o problema, por mais complexo e multiforme, não lhes faltam engenho e arte para transformá-lo em gráficos e diagramas para dar-lhe denominação própria e original. Mas não lhe dão especificidade, ou não querem lembrar que informar e analisar requer arte e ciência.

Nessa pregação moralista, o delírio teorizante atinge o auge. Como a presunção é o traço mais evidente dos responsáveis por essas informações e análises, eles insistem no diagramar, no cronogramar, no organogramar, no topogramar para ver se com o inusitado da linguagem obtêm crédito. Pensam que podem vencer pelo choque, pelo cansaço do prolixo. Pode-se dizer que é uma mídia nominalista. Se a realidade — onde coisas e fenômenos estão há muito tempo nominados — não corresponde às análises, muda-se o nome das coisas e fenômenos.

Pasteis de vento

Os problemas sociais não são fenômenos da realidade — eles só existem em nós, que insistimos na equalização dos históricos desnivelamentos econômico e cultural. E por isso somos chamados de radicais, atrasados, baderneiros e de outros nomes da pululante adjetivação do dicionário dessa mídia. Pois saibam os que não sabiam que esse gosto pelo nome dos que se presumem detentores da verdade chega até à limitação da liberdade de opinião. São eles que mandam e acabou a história.

De propósito, esses senhores de sua semântica esvaziam o conteúdo das informações para pôr no lugar frases retorcidas e neologismos esquizofrênicos. Como alguém lembrou, vazio igual só o daqueles pastéis que a velhinha vendia na feira, apregoando: “Pastéis de camarão!” O comprador se aproxima, pega um, paga. Na hora de comer, diz: “Mas, minha senhora, não achei camarão nenhum!” Ela responde: “O senhor sabe como é, uns gostam, outros não gostam, uns podem, outros não, por isso não ponho.”

Quem come os pasteis do “mensalão” e do “petrolão”? Quem gosta de recheio de “amigo de Lula”, usado em manchetes garrafais e chamadas estridentes quando alguém cai nas armadilhas dos golpistas?  São pastéis de vento, ou vento de pastéis. E como eles inventam nomes com facilidade, suas explicações se encaixam naquele tipo de resposta que se dá às crianças de certa idade que não perguntam para saber, mas pelo perguntar.

Constituição não é roupa

Essa dissemântica é velha, mal de nascença. Entre seus princípios estamos vendo essa pregação imoral contra a corrupção. Sabemos que essa corrupção tem um limite semântico — os tais “mensalão” e “petrolão” — só compreendido por aqueles que o inventaram. Mas para a propaganda contra o governo não poderia haver nomes melhores. É só isso. Porque se fosse mesmo corrupção nas dimensões que propagam, no conceito da língua portuguesa, teríamos tido exposições monumentais em praça pública de ladrões cercados de cartazes especificando os crimes de cada um. O que há é o estardalhaço natural de quem falsifica os fatos — principalmente quando lhe faltam glórias próprias.

Muitas vezes essas falsificações são imposições a jornalistas, massacrados pela ditadura dos donos do poder, que sequer têm tempo de estudar as leis e meditar sobre os problemas nacionais, de auscultar o coração do povo, de ler e entender os processos sociais. Muitos nem foram formados neste espírito e, em terra de batráquio, precisam se agachar para não serem atingido pela língua do sapo. Esses golpistas querem fazer crer que seus oponentes não têm direitos que estão na Constituição e em outras cartas. Mas Rui Barbosa deixou escrito que a Constituição não é roupa que se recorte para ajustá-la às medidas deste ou daquele interesse. O nome disse é golpe, vigarice refinada!

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