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O petismo morreu! Viva o petismo!

O petismo morreu! Viva o petismo!

Por Osvaldo Bertolino

A revista Veja tem como marca suas capas indecentes contra a esquerda, que remetem a matérias infames, recheadas de mentiras e grosserias. Numa delas está a sentença fascista de que o Partido dos Trabalhadores (PT) é uma espécie em extinção. Trata-se, visivelmente, de uma provocação, uma propaganda panfletária que nem de longe reflete a realidade. O petismo é uma corrente de opinião que expressa posições políticas bem definidas de largos setores da sociedade brasileira. Não será a vontade fascista da Veja e seus iguais que imporá a sua extinção.

A curta experiência histórica do PT deu resultados extraordinários. O partido tem marca, imagem, carisma e acumulou competência para crescer nas urnas em ritmo mais veloz do que registram as biografias de todos os movimentos progressistas dos países europeus e asiáticos. Algumas de suas criações, em especial novas formas de democracia direta, são imitadas por adversários de todas as cores ideológicas e tende a incorporar-se aos hábitos do país como artigo de primeira necessidade na modernização da atividade política e da gestão pública. Para muitos, o PT significou a continuidade da guerra travada sob toque de silêncio no combate à ditadura militar. De moral áspera, quase religiosa, se orgulhava de dizer e cumprir, prometer e fazer. Do ponto de vista ético, era tido como uma referência nacional.

Mas o partido nasceu e cresceu com o péssimo hábito da maioria dos petistas de conversar apenas entre si. Os problemas apareceram quando o outro lado, o conservador, deu provas de que tudo isso pouco significava para a luta política e teve a sensibilidade de perceber o alcance da “estabilidade monetária” que levou Fernando Henrique Cardoso (FHC) ao poder. Aí veio a virada de casaca de uma porção petista, quando Antonio Palocci assumiu o Ministério da Fazenda no primeiro governo do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, que adotou a ideologia liberal como modelo de condução do país. Foi péssimo que essa virada de mesa mental tenha acontecido no maior partido de esquerda das Américas.

Troca de pele 

Palocci, com suas frases feitas, que beiravam a tolice econômica, personificava o abismo para o qual o rumo traçado por FHC estava conduzindo o país. Entre a correção conceitual do PT e a correção de rota pragmática da linha palocciana, portanto, a questão que se colocava era a seguinte: ou se ficava com a incoerência de quem reavalia seu plano de voo ao sabor das circunstâncias ou ficava com a coerência de quem via o mundo com lentes progressistas. A segunda opção era mais aceitável por uma razão simples.

O campo que o PT ocupou na vida política brasileira diz respeito a toda a esquerda. Cada centímetro cedido à direita implica, obviamente, em menos espaço para as bandeiras progressistas. Por isso, era difícil imaginar que tudo seria como dantes no quartel de Abrantes petista. “Nós vamos pagar caro, teremos duros revezes nas próximas eleições, mas o PT vai ser reconstruído”, disse na época o presidente do partido, Tarso Genro. Não poderia ser diferente. Permitir ao PT passar ileso por aquela troca de pele de importantes setores do petismo significava incensar na íntegra os movimentos nefastos que criaram obstáculos para o campo progressista. Felizmente, venceu a concepção progressista.

O governo do “ex-comunista” D’Alema

Um movimento à direita levaria o partido para posições conservadoras rapidamente. Foi o que aconteceu com muitos partidos social-democratas europeus. Lembremos que as conversões de movimentos progressistas às realidades da aritmética conservadora foram dramáticas — algo que reproduziu, em cada país, o drama bíblico da conversão de Saulo na estrada de Damasco. No caso britânico, boa parte do trabalhismo renegou 100 anos de luta para assumir integralmente o conteúdo rival e refazer o caminho do poder. Eles assumiram a ordem mundial que nasceu hegemônica das cinzas da guerra fria e que está afundando, no continente, o que resta do projeto social-democrata e desperta reações.

O desemprego atinge níveis inéditos e o déficit nas contas públicas é robusto. Houve a virada ideológica à direita do final dos anos 1970, mas, a partir de meados da década de 1990, partidos à esquerda do centro passaram a dirigir a maioria dos países da União Européia. A badalada “onda rosa” social-democrata, no entanto, chegou a ser ameaçada de ser substituída pela amarga “onda azul” fascista. Antes do susto causado pela votação de Le Pen na França e da vitória da Lista Pim Fortuyn na Holanda, países como Espanha, Noruega, Áustria, Dinamarca, Itália e Portugal pegaram o caminho à direita. Embora não estivesse diretamente em causa, o tema União Européia motivou muitos eleitores que optaram por aquele caminho.

A perda das soberanias nacionais e de direitos históricos é uma realidade que fere profundamente o sentimento patriótico dos europeus. Na Dinamarca, por exemplo, os social-democratas perderam o referendo sobre a entrada do país no regime do euro e em seguida foram substituídos pela direita. Em seguida, a Constituição européia, de cores liberais, foi exemplarmente derrota na França e na Holanda. Os direitistas diziam, com certa razão, que a tática dos social-democratas de reavaliar suas posições políticas para agradar a um “eleitorado mais amplo” é o neoliberalismo com discurso de esquerda.

Na Itália, essa constatação ficou nítida: o governo do “ex-comunista” D’Alema chegou ao ponto de passar por cima de uma das mais queridas conquistas da classe operária, a proibição constitucional de participação do país em guerra ofensiva, ao participar ativamente do sangrento ataque imperialista à Sérvia. Na América Latina, com nuances diferentes vimos esse movimento na Argentina, no Equador e na Bolívia. Na encruzilhada histórica em que se encontrava, a região ia para a esquerda ou para a direita. Foi para a esquerda e despertou os instintos rebaixados da direita.

Pico histérico

No Brasil, a “Operação Lava Jato, que repete a farsa do “mensalão” ao anunciar que pilhou gente com com as impressões digitais sobre tenebrosas transações sem mostrar uma (umazinha) prova, fez o país entrar em uma crise de puerilidade que empurrou a institucionalidade para uma zona bastante sombria. A lembrança do acusador Fouquier-Tinville, no auge do terror do comitê de salvação pública da Revolução Francesa, em 1794, repassando em poucos minutos gente que não agradava ao plenário da convenção para a sala das carroças, e daí para o cadafalso da guilhotina, é inevitável.

Para ter uma visão mais definida da farsa é preciso voltar no tempo para ver a origem das contradições no governo desde que Lula tomou posse em 2003 e atingiu o auge em 2005, com o pico histérico do “mensalão”. Analisar  a farsa da “Lava Jato” só com os dados de hoje, como muita gente está fazendo, mais confunde do que esclarece. Se não bastasse a pirotecnia em torno do assunto, há uma evidente manipulação ideológica. Cumpre essa função, além dos conceitos ocos e vulgares, o curral de opiniões domesticadas do jornalismo brasileiro.

Essa mentalidade de “cordão sanitário” no plano das idéias criou um ambiente profissional ditatorial, em que qualquer alternativa ao modo elitista de se produzir notícias é respondida com discriminação e boicote. Para além da eclética e deletéria boataria, dissemina-se pelo país um sentimento de Armagedon. As “investigações”  vão assim se transformando num dos episódios mais patéticos da história política moderna brasileira, com sua mistura de bravatas, foguetórios e pouquíssima substância. O tempo joga a favor da luz, dizem os sábios. Por isso, a reciclagem do PT é importante para os grandes embates de classe que se avizinham.

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