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Mídia faz “Operação Cavalo Doido” contra Lula

Mídia faz “Operação Cavalo Doido” contra Lula

Por Osvaldo Bertolino

Ela começou ontem e segue hoje a todo vapor. Os grupos de mídia continuam manipulando grosseiramente os vazamentos seletivos da farsa chamada “Operação Lava Jato”, comandada pelo iníquo juiz Sérgio Moro, uma adaptação das redações ao método muito comum da polícia em suas tropelias, conhecido como “Operação Cavalo Doido”. Novamente a Folha de S. Paulo comparece com a mais relevante contribuição para essa onda de truculência midiática.

Em sua versão eletrônica, fartamente reproduzida por seus filos Brasil afora, o jornal traz a seguinte manchete: “Lula loteou BR Distribuidora entre Collor e PT, diz procurador.” Quando se abre o embrulho, o conteúdo revela o padrão-lixo do jornalismo da mídia. O texto se limita a dizer que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu ao senador Fernando Collor (PTB-AL) “ascendência” sobre a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, por volta de 2009, “em troca de apoio político à base governista no Congresso Nacional”.

Nomes poderosos envolvidos

No mais, o que se tem são as conhecidas parolas de Janot contra Collor, agora recheadas com a denúncia (denúncia, repita-se!) protocolada no STF (Supremo Tribunal Federal) contra o deputado federal Vander Loubet (PT-MS). “O caso está sob análise do ministro Teori Zavascki, que deve decidir, sem prazo, se acolhe ou rejeita a denúncia. Lula não é alvo da acusação da Procuradoria”, registra o jornal.

E prossegue: “Janot não descreveu a origem de sua conclusão sobre o papel de Lula na distribuição de cargos da BR, mas o ex-diretor da Petrobras e da BR Nestor Cerveró disse em delação premiada, conforme a Folha informou nesta terça (12), que Lula havia ‘concedido influência política’ sobre a BR a Collor.” A partir daí, Lula some da matéria. E o leitor atento fica com aquela sensação de vazio, aquele sentimento de que foi vítima de mais uma empulhação jornalística.

A ânsia da mídia em atingir qualquer alvo que representa o Partido dos Tralhadores (PT) e o governo da presidenta Dilma Rousseff já virou insanidade. A começar pelo destaque desproporcional dado à “Operação Lava Jato” em comparação com outros casos de corrupção, como os da “Operação Zelote”. Enquanto a primeira tem um valor presumido (com base em depoimento dos bandidos do esquema que serviu para o cálculo contido no balanço da Petrobras recentemente divulgado) de US$ 6 bilhões, a segunda, de acordo com os mesmos critérios, tem um valor mais de três vezes superior, estimado em US$ 19 bilhões. Sem contar os nomes poderosos envolvidos com as maracutaias da Zelotes.

Jornalismo marrom em estado puro

Foi com essa lógica que o jornal O Estado de S. Paulo também abriu sua caixa de maldade para atacar a cunhada de João Vaccari, o ex-tesoureiro do PT. Segundo a matéria, Marice Corrêa Lima, vítima do juiz parlapatão Sérgio Moro — o capo da “Operação Lava Jato” — ao ser presa depois de confundida com a irmã,  é “suspeita de auxiliar o ex-­tesoureiro petista na movimentação de propina da Petrobrás”. O caso seria os R$ 240 mil que ela teria recebido do PT por danos gerados após citação de seu nome na farsa “mensalão”. O valor foi usado na compra de um apartamento em construção no Guarujá, litoral paulista, em 2011, da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop).

A história se desenrola, na narrativa do Estadão, como enredo de novela de quinta categoria. O imóvel, declarado por R$ 200 mil, foi devolvido um ano depois para a incorporadora da obra e rendeu à Marice um crédito de R$ 432 mil. A empresa é a OAS – uma das 16 acusadas na “Lava Jato”. Em 2014, o imóvel foi vendido por R$ 337 mil. Em seu depoimento, Marice confirmou aos investigadores  que a compra do apartamento em construção foi feito “utilizando os recursos recebidos de uma indenização por danos morais, pagos por um advogado mediante acordo”.

Marice afirmou que o pagamento da indenização “não foi precedida de processo ou de notificação judicial ou extrajudicial”. Foi um acerto entre as partes por causa da “divulgação do nome” “em associação ao caso ‘Mensalão’”. Questionada sobre o fato de o caso do “mensalão” ter ocorrido em 2005 e o pagamento em 2011, a cunhada de Vaccari disse que houve uma negociação com o PT por algum tempo. “A qual culminou com o reconhecimento do direito da declarante a ser indenizada.” Marice afirmou que existe um contrato e “que todos os pagamentos foram feitos mediante cheques da agremiação partidária e depositados em sua conta­ corrente” e que vai buscar uma cópia desse documento para apresentar às autoridades.

A história morre aí. Mas o Estadão esticou o assunto, publicando inclusive cópias de documentos conseguidos sabe-se lá por quais meios (sabe-se, sabe-se!), sem chegar a nenhuma conclusão e sem provar uma vírgula do que insinua. Jornalismo marrom em estado puro, persecutório, mau caráter.

Fatos isolados

Nelson Werneck Sodré, em sua obra “História da imprensa no Brasil”, publicada em 1966, insinua — possivelmente para fugir da censura e da repressão — que o jornalismo conservador só presta para esse tipo de ação da Folha e do “Estadão” demonstrada acima. “O desenvolvimento da imprensa no Brasil foi condicionado, como não podia deixar de ser, ao desenvolvimento do país. Há, entretanto, algo de universal, que pode aparecer mesmo em áreas diferentes daquelas em que surgem por força de condições originais: técnicas de imprensa, por exemplo, no que diz respeito à forma de divulgar, ligadas à apresentação da notícia”, escreveu.

Sempre se referindo ao jornalismo americano, Nelson Werneck Sodré disse que o “foca” (jornalista principiante), utilizando aplicadamente a técnica do lead, “transforma qualquer sinal de um problema social constante em fatos isolados que se repetem diariamente e cujas raízes reais ficam apagadas sob os detalhes específicos de cada história”. É o que se vê na mídia, um veículo repetindo o outro, todos divulgando as mesmas coisas, com a mesma conotação. A informação fragmentada, sem mostrar a relação de um acontecimento e sua causa, na verdade é uma técnica de encobrir os interesses e as relações econômicas dos grupos monopolistas que controlam a mídia na estrutura da sociedade de classes.

O bisavô do DEM e do PSDB

A direita ainda pensa como Hipólito da Costa, que em 1808 fundou o primeiro jornal brasileiro, o Correio Brasiliense — mesmo ano da criação da imprensa no Brasil —, que dizia: “Ninguém deseja mais do que nós (a elite) as reformas úteis, mas ninguém se aborrece mais do que nós que essas reformas sejam feitas pelo povo.” Ou como o principal líder civil da “Revolução Constitucionalista” de 1932, o então dono do jornal O Estado S. Paulo, Júlio de Mesquita Filho, para quem “o império da lei e da justiça” só poderia ser restabelecido no dia em que São Paulo voltasse “à sua condição de líder insubstituível da nação”.

Mesquita Filho, evidentemente, estava falando de um setor de São Paulo: a elite, representada pelo Partido Democrático (o bisavô do DEM e do PSDB). Fora desse mundo microscópio, para ele tudo o mais era irrelevante e atrasado. “Anulada a autonomia de São Paulo (por meio da Revolução liderada por Getúlio Vargas, em 1930), o Brasil se transformou num vasto deserto de homens e de idéias”, disse Mesquita Filho da sacada da redação do seu jornal durante um ato contra a Revolução de 1930.

Racistas do Sul dos Estados Unidos

Mesquita Filho estava, na verdade, estimulando o sentimento bairrista da elite paulistana, que se mantêm ainda hoje, como se este “ser paulista” que ele proclamou fosse algo superior aos demais brasileiros. Principalmente aqueles que tomaram resolutamente o partido do povo e pagaram um alto preço pela opção que fizeram. De passagem, dá para lembrar alguns precursores deste partido, como Frei Caneca — que terminou seus dias à frente de um pelotão de fuzilamento —, de Tiradentes — enforcado por defender a independência do Brasil — e de Cipriano Barata — que passou doze anos no cárcere pelo “crime” de criticar os desmandos daqueles que controlavam o Estado.

A lei e a ordem, para essa elite, são os seus preconceitos antidemocráticos sustentados pela ideologia dominante — cuja nascente é o regime das Capitanias Hereditárias. ”Na lei, os burgueses precisam dar-se uma expressão universal precisamente enquanto dominam como classe”, escreveu Karl Marx. A lei universal dos conservadores brasileiros, traduzida pelo pronome “nós”, ainda trata o povo como os racistas do Sul dos Estados Unidos tratavam os negros — segundo a fina ironia do escritor George Bernard Shaw. Primeiro, reduziam os negros, no mercado de trabalho, à condição de engraxates; depois, concluíam que “negro só serve mesmo para engraxar sapatos”.

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