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Uma sugestão, de graça, ao juiz Sérgio Moro

Uma sugestão, de graça, ao juiz Sérgio Moro

Por Osvaldo Bertolino

Meritíssimo:

Depois de uma conversa de mim comigo, cheguei a uma conclusão que julgo útil ao senhor. Faço apenas um comentário, que, a seu juízo, pode desdobrar-se em sugestão. Já que o senhor está tomado pelo sopro de Torquemada (como este comentário é público, para quem não sabe esclareço que trata-se do fanático da inquisição Tomás de Torquemada, o frade da Espanha do fim do século XV nomeado inquisidor-geral pelo papa Inocêncio VIII para perseguir judeus, agiotas, bígamos, homossexuais e bruxas), proponho a criação do Tribunal das Imoralidades Financeiras (TIF).

Seria uma forma de julgar sumariamente, como o senhor vem fazendo na “Operação Lava Jato”, as condições de fortunas dos que lidam com a coisa pública (juízes, parlamentares, políticos, policiais, delatores, jornalistas, empresários e por aí afora). O senhor sabe que todas as inquietações dos nossos dias são de fundo puramente econômico. O mal-estar da sociedade contemporânea provém, quase todo, do desequilíbrio entre o salário e o custo de vida.

Para fugir dessa condição — o senhor sabe bem, mas não custa lembrá-lo —, há os que recorrem à desonestidade para fazer fortuna. Uma investigação rigorosa teria dois méritos: amedrontaria os desonestos e constituiria uma satisfação à grande massa dos pobres, que veem na opulência dos ricos um insulto e uma afronta à sua miséria. Uma investigação dessa ordem, lógico que respeitando os códigos vigentes — coisa que o senhor não vem fazendo na “Lava Jato” —, cumpriria, de uma vez só, uma obra social e um ajuste fiscal, conferindo a realidade das fortunas com o que elas pagam de impostos. Ou seja: com uma só cajadada o senhor mataria dois coelhos. Ou, mais acertadamente: dois ratos.

Na verdade, não estou falando de nenhuma novidade. Faço apenas uma adaptação do que escreveu Humberto de Campos quando lembrou de uma honesta inovação moralizadora adotada pelo rei do Egito Ahmas, no século VI antes de Cristo. Ele nomeou magistrados para o exame anual das finanças particulares. Todos os egípcios eram obrigados a prestar contas da sua vida, das suas rendas e dos seus gastos, impedindo-se, dessa maneira, que eles se tornassem desonestos e perdulários.

Outra sábia decisão foi tomada pelo rei Asychis. É sabido que na religião do Egito antigo a alma existia enquanto existisse o corpo — o que fez surgir a prática da mumificação. Preocupado com a pobreza do reino, o soberano determinou que não haveria empréstimo sem a hipoteca da múmia paterna ou do túmulo do tomador, exigência que equivalia, para o devedor, à perda da própria alma, ou da alma do pai.

São experiências bem-sucedidas, que poderiam servir de base nos julgamentos do TIF. Seria uma medida providencial nesses dias tão turbulentos, quando a massa dos brasileiros discute mais a corrupção do que o futebol e os espetáculos de exposições de acusados presos sem provas na mídia dão mais audiência do que a novela das oito. Todos teriam suas fortunas submetidas a uma verdadeira operação lava jato. As minhas economias, por exemplo, estariam à disposição do TIF, com o único temor de que o senhor adapte a ideia de Ahmas à de Asychis — o que determinaria, irremediavelmente, que meu corpo ficaria, desde agora, sem o consolo sequer de um repouso na sepultura.

Atenciosamente,

Osvaldo Bertolino

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