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Saudade de um fim de semana

Saudade de um fim de semana

Por Osvaldo Bertolino

Passei o final de semana com minha irmã Jacira e meu cunhado Antônio no litoral sul de São Paulo. Eles vieram de Maringá num passeio relâmpago. Como são figuras doces e muito queridas, as horas se passaram que nem vi. Para eles também foi assim. Os dois dias de passeios pareceram duas horas. Repassando na memória aqueles momentos agradáveis, lembrei que Alphonse Daudet (romancista, poeta e dramaturgo francês) dizia que um ser é uma multidão.

Esses dois seres formam multidões especiais. Minha irmã é sete anos mais velha do que eu e se aproxima dos sessenta da sua idade. Na minha tenra criancice, comecei a vê-la como uma pessoa sábia, que dizia coisas e tomava atitudes que eu imaginava um dia poder fazer igual. Mas o tempo foi passando e sua sensatez aumentando, de modo que eu fico sempre em defasagem em relação a ela. Quando paro para ouvi-la, acrescento uma boa dose de sensatez ao meu jeito de ver o mundo e as pessoas.

Daudet explicava que cada pessoa, por ser uma multidão, era múltipla. A multiplicidade da minha irmã consiste em ter um coração feito de pura generosidade e uma alma que é a própria candura. Quando ela opina, é difícil não parar para ouvir. Herança da mãe, que também era uma multidão de boas almas. Talvez com algumas pitadas do pai, que em sua aspereza transmitia certezas que muito provavelmente balizaram a sensatez da minha irmã. Ela é a mistura desses dois temperamentos — possivelmente com mais herança da mãe.

Um ser assim seria incompleto sem outra multidão. Meu cunhado é um pouco disso tudo, com as nuances unas de cada ser humano. Seu humor, por exemplo, é de uma pureza quase ingênua, mas de uma sagacidade de mestre. Daqueles que não dão conversa fiada, nem se metem em criticismos cretinos. Tudo no tempo certo, na dose certa. Sem nenhum traço de arrogância, de petulância e de autossuficiência. Músico quase autodidata e de raro talento com um instrumento nas mãos (ele toca vários), transmite sua peculiar serenidade em cada nota soprada ou dedilhada.

Minha irmã e meu cunhado, enfim, formam uma multidão de seres magistrais. Desde há muito tempo são guardiões de almas que precisam de orientações, de exemplo, de chacoalhadas. Como professam a fé cristã, no sentido literal da formulação, não se furtam à caridade, à fraternidade, ao amor ao próximo incondicional. Suas multidões, como manda a crença que eles devotam, são como anjos que se desdobram para proteger um aqui, outro ali, mais outro lá adiante.

Não moro na mesma cidade que eles há mais de 30 anos. Saí da casa de meus pais antes de completar 17 anos. A partir daí, eu, minha mãe e minha irmã nunca mais compartilhamos o mesmo código DDD. Contraditoriamente, acho que ficamos cada vez mais próximos. A distância física às vezes aproxima as pessoas. Ainda mais se no meio do processo o filho vira pai e a mãe vira avó.

Minha mãe, e eu já falei muito dela aqui, tinha os seus jeitinhos, as suas idiossincrasias. E sempre foi feliz sendo o que ela era. O que é o melhor que alguém pode esperar da vida — ser feliz consigo mesmo, com a vida que montou para si. Um conceito apreendido por ela valia mais do que uma realidade óbvia e ululante. Se os fatos contradiziam os axiomas, pior para os fatos. Mas sempre conseguimos lidar bem com nossas diferenças. Eu ficava feliz por ela. E fico feliz por mim, por sempre saber compreendê-la.

O fim da vida da minha mãe em 25 de setembro de 2015 representou para toda a sua prole — e para as proles da sua prole — a entrada em um imenso vazio da vida. Olhando para o rosto da minha irmã neste final de semana, vi esse vazio nitidamente. Ela, como eu e os demais irmãos e demais irmãs, certamente vai encontrando formas de não se deixar cair nesse vazio. Minha irmã é forte, robusta e de personalidade de ouro. Vi também — e isso me deu uma chocalhada — que estamos passando por uma espécie de troca de guarda.

Meus sobrinhos — todos eles —, com quem cultivei carinho e afeto ao longo da vida, estão assumindo os postos que no passado recente eram dos meus irmãos. As filhas e os filhos da minha irmã, por exemplo, já são mães e pais. Essa constatação causa impacto, mas também leva à reflexão. Já começo a lembrar de quando passeava com meus pequenos à exaustão e depois, com eles adormecidos, beijava suas faces, sentia o perfume delicioso dos seus cabelinhos suados e cochichava em seus ouvidos coisas que de alguma forma achava que eles entenderiam, mesmo dormindo. O problema é que saudade dói. E como dói!

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