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Sérgio Moro e “Estadão” requentam caso José Dirceu para atacar a esquerda

Sérgio Moro e “Estadão” requentam caso José Dirceu para atacar a esquerda

Por Osvaldo Bertolino

Uma matéria de hoje (26) do portal do jornal “O Estado de S. Paulo”, de autoria de Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo, publicada com destaque e ares de novidade (com direito a áudio do interrogatório do juiz Sérgio Moro, vazado por meio corrupto e com intenções golpistas), na verdade requenta um assunto antigo. Matéria sem pudor, sem ouvir o contraditório, sem levar em conta as várias evidências de que o delator Julio Camargo (um dos sequestrados por Moro para forçar delações premiadas) fala sem apresentar provas de qualquer espécie (para ver a patifaria, clique aqui).

Quando algum veículo da mídia faz isso, pode-se esperar que lá vem mais uma palhaçada da direita por aí. De graça, eles não fariam isso. Na arte da pilantragem midiática, o “Estadão” é  mestre.  Reencenando o papel desempenhado nos anos 1950 e começo dos anos 1960, o jornalão dos Mesquita ataca todos os que estão na órbita de Lula e Dilma com a mesma virulência com que ataca o ex-presidente e a presidenta. Velho udenista de guerra, o “Estadão” sintetiza o ideal político do campo conservador.

Uma visita à história recente do país revela os mesmos argumentos utilizados pelos jornais da UDN — entre eles o “Estadão” — a fim de insultar os ex-presidentes Getúlio vargas, Juscelino Kubitscheck e João Goulart e seus aliados, reais ou imaginários. A onda reacionária foi além: Leonel Brizola era impedido de falar em comícios; Miguel Arraes, então governador do Estado de Pernambuco, para participar de um programa de televisão em São Paulo entrou pelos fundos da emissora — na frente encontrava-se um grupo de mulheres de terço na mão e dispostas a insultá-lo. Era o que o historiador Leôncio Basbaum chamou, em sua obra “História Sincera da República”, de “O terror psicológico”. A coisa funcionava assim: os jornais espalhavam boatos de toda ordem e a direita se aproveitava para criar movimentos minúsculos mas em profusão para passar a imagem de mobilização popular.

Por trás de tudo, comandando o espetáculo, estava a velha UDN, que havia decretado: João Goulart reinaria mas não governaria. No final das contas, o presidente nem reinou, nem governou. O golpe militar de 1964 representou o último ato da luta udenista para voltar ao poder desde a vitória de Getúlio Vargas na Revolução de 1930. Naquele tempo, a UDN não existia como partido, mas seu esboço já era bem conhecido como Partido Democrático de São Paulo. Logo se transformou num poderoso movimento político, que exigia o poder com ardor. No entanto, perdeu as eleições de 1945 e de 1950. Esteve na Presidência da República num curto espaço de tempo em 1954, depois de ameaçar Vargas com um golpe — o que o levou ao suicídio —, mas, um ano depois, em 1955, perdeu novamente as eleições para Juscelino Kubitscheck.

Os verdadeiros propósitos da direita

Em 1960, seu candidato, Jânio Quadros, finalmente fora eleito. Mas o presidente udenista traiu seus chefes ao tentar cumprir na Presidência algumas coisas que prometera como candidato e depois ao renunciar e entregar o poder ao arqui-rival PTB. Convencida de que legalmente não chagaria ao poder, a UDN abandonou o jogo democrático para recorrer às armas. Já o havia feito em 1951, outra vez em 1955 e ainda mais uma vez em 1961. Conseguiu, afinal, em 1964. Para acertar as coisas, no entanto, era preciso ganhar a opinião pública.

E para isso foi usada a velha arma: a luta contra a corrupção, que existe em qualquer governo burguês, em qualquer país. Mas o argumento sempre funciona e, apesar de pobre, esconde os verdadeiros propósitos da direita, que podem ser facilmente reconhecidos nas entrelinhas do noticiário. Um observador atento vê com nitidez esses propósitos nas palavras da mídia. Assim como naqueles tempos, hoje o governo é atacado, num primeiro plano, com o argumento rasteiro do “combate à corrupção” e, depois, por não ser do agrado da “iniciativa privada”, do capital sem pátria e sem cheiro — incompatível com qualquer defesa do Estado nacional — e a favor de “populismos” como os programas sociais.

Votação da abolição da escravatura

Quando Jorge Bornhausen, ex-presidente do PFL (atual DEM) e ex-senador pelo Estado de Santa Catarina, falou em se livrar “dessa raça pelos próximos 30 anos” (referindo ao “petismo”, neologismo dos golpistas para atacar todas as correntes políticas de esquerda), ele de fato não se referiu a etnias ou a grupos nacionais, conforme sua explicação no jornal “Folha de S. Paulo”. “Mas ao que coloquialmente designamos por corja, ‘gente perversa’, conforme Antenor Nascentes no ‘Tesouro da Fraseologia Brasileira’”, explicou o pefelista.

Mais uma vez, precisamos visitar a história. “O passado é, por definição, um dado que nada mais modificará. Mas o conhecimento do passado é uma coisa em progresso, que incessantemente se transforma e aperfeiçoa”, diz Marc Bloch, historiador francês fuzilado pelos nazistas em 1944, no livro Apologia da História, lançado no Brasil pela “Jorge Zahar Editor”. Possivelmente, os governadores gerais, ou vice-reis, pensavam a mesma coisa de Zumbi dos Palmares, de Tiradentes, de Felipe dos Santos, dos Alfaiates da Bahia de 1798, dos republicanos do Nordeste de 1817 e 1824. Movidos pelas idéias da Revolução Francesa e da Independência Americana, eles lutavam contra o domínio colonial.

A raça a qual Bornhausen se refere é também a daquelas multidões entusiasmadas que assistiam às sessões do parlamento durante a votação da abolição da escravatura — finalmente assinada pela princesa Isabel. Essa raça, assim chamada literalmente pelo barão de Cotegipe (um dos líderes do Partido Conservador, eleito senador pela Província da Bahia e presidente do Senado de 1882 a 1885) — segundo ele, “libertada” pelo imperador — teve ainda em suas fileiras os camponeses de Canudos, do Contestado e legou para a história do povo brasileiro vultos notáveis de líderes populares como Borges da Fonseca, Frei Caneca, Cipriano Barata e tantos outros, valentes, combativos e que tinham um norte definido.

Os conceitos clássicos de esquerda e direita

Esse passeio pela história revela o que está sendo julgado nessa escalada golpista e neste caso específico de ataques incessantes a José Dirceu. Sem fatos novos que impliquem diretamente o governo, como aliás ocorreu em tantos outros escândalos que ocuparam o noticiário, ondas de boataria são exploradas até que o cansaço as relegues ao esquecimento para que novas sejam levantadas — ou requentadas, como nesse caso dessa palhaçada do “Estadão” de hoje. Assim como aconteceu com as lutas travadas no início da Republica — e, de certa forma, reeditadas entre os anos de 1945 a 1964 —, quando o governo Prudente de Morais conciliou o poder dos latifundiários com o da burguesia, a direita sonha com uma “democracia” com dois partidos — revezando-se no poder sempre que possível ou conveniente. E ambos devem ser conservadores. Daí o ataque feroz ao PT e por extensão à toda a esquerda.

Os conceitos clássicos de esquerda e direita, segundo essa tese, não existem mais porque a oposição básica que lhes daria sentido — socialismo versus capitalismo — foi varrida pela “nova ordem mundial”. E com ela teria desaparecido a dicotomia revolução e reação, que estabelece o fio condutor com marxistas e liberais. A nova dicotomia no máximo lembraria um pouco a organização partidária norte-americana, comandada por republicanos à direita e democratas à esquerda — um espectro político muito próximo do “centro”. Como no Brasil o povo ainda luta contra resquícios medievais, o que existe de fato é uma batalha contra uma direita que luta com unhas e dentes contra o progresso social. O resto é papo furado para engambelar otário.

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