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Tortura e corrupção na “Folha de S. Paulo” ontem e hoje

Tortura e corrupção na “Folha de S. Paulo” ontem e hoje

Por Osvaldo Bertolino

Uma charge de Lula puxando um bloco de carnaval com José Dirceu, Delúbio Soares e João Vaccari Neto vestidos de presidiários, estampada na capa do jornal Agora — do grupo que edita a Folha de S. Paulo —, choca e faz pensar. É o caso de relembrar a velha piada: “Deus sabe tudo, mas a mídia crê que sabe ainda mais.” Tal atitude reflete bem a conduta moral das famílias que controlam a mídia brasileira.

Certa feita, quando eu era assessor de imprensa na Câmara dos Vereadores de São Paulo, presenciei o coronel Erasmo Dias — personagem que integrou a estrutura repressiva da ditadura militar — dizer que não lia bobagens, só coisas sérias, referindo-se à Folha de S. Paulo. O assunto era o aborto, usado para atacar a então prefeita Marta Suplicy (então no PT), e o coronel estava respondendo a uma citação de Jean-Paul Sartre por um aparteante.

A ligação de Erasmo Dias com a Folha de S. Paulo é uma espécie de selo de garantia de que esse grupo de mídia tem a moral toda enterrada na lama. Quando o coronel era secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, almoçava regularmente com o empresário Carlos Caldeira Filho, sócio de Octávio Frias (o pai) no grupo que editava a Folha de S. Paulo e a Folha da Tarde (a versão antiga do Agora). Eles eram tão ligados ao regime que deram origem a uma anedota segundo a qual a Folha da Tarde, uma espécie de porta-voz oficiosa dos torturadores, tinha alta “tiragem” — uma grande quantidade de “tiras” trabalhava em sua redação.

Denunciamania golpista

O empresário amigo de Erasmo Dias chegou a ser nomeado diretor extraordinário de Terminais Rodoviários da Companhia do Metropolitano (Metrô), quando Paulo Maluf foi governador paulista — fiel escudeiro da ditadura militar em São Paulo —, de onde saiu três meses depois deixando um rastro de corrupção visível a léguas de distância. Caldeira Filho mandou demolir parte da obra do Terminal Rodoviário Tietê e adiar a sua inauguração para atender a interesses de grupos empresariais — ação que causou enormes prejuízos ao Estado.

Recentemente a Folha de S. Paulo confessou abertamente sua simpatia pelo regime latrocida de 1964 em editorial que classificou a ditadura militar como “ditabranda”, neologismo que define a síntese da índole corrupta e golpista da mídia brasileira. A “ditabranda” não está dissociada da denunciamania golpista recente, quando não faltam teorias sem fatos — matéria-prima indispensável a qualquer acusação que se preze —, no particular palco da mídia, onde uma combinação macabra de interesses político-ideológicas dos grupos que controlam a circulação de informações com mão de ferro gosta de encenar seus atos.

Esse jornalismo rarefeito, de baixa intensidade moral, é bem conhecido no Brasil. Nos anos 1940 ele ganhou um reforço, vindo dos Estados Unidos, num processo de “modernização” deflagrado por Pompeu de Souza, do Diário Carioca. Vocações literárias e evocações filosóficas foram substituídas por uma narrativa simples e linguagem empobrecida. Pompeu de Souza recebeu, apropriadamente, o título de “pai dos idiotas da objetividade”, concedido por Nelson Rodrigues.

Amontoado de asneiras

Como resultado, o que se vê é que o cidadão brasileiro presencia regularmente, com seus próprios olhos e ouvidos, a publicação de insultos, ataques pessoais, intrigas, falsidades, invenções, erros de fato e mentiras puras e simples. A “ditabranda” da Folha insere-se aí. O neologismo apenas expressou uma plataforma política latente, sempre recorrente quando os caminhos democráticos começam a ser pavimentados. Mais uma vez, a legião de “economistas”, “comentaristas”, politicólogos, provocadores e demagogos em geral que vive à sombra das oligarquias cumpre o seu papel histórico de erguer barricadas contra o progresso.

Mas a democracia está contra eles. O progresso está contra eles. A verdade está contra eles. Suas má-criações os fazem figuras subqualificadas e desmascaram o título de escolhidos para restaurar a ordem e a moralidade públicas. Na verdade, em nome dessas bandeiras o que se vê é o mesmo histórico amontoado de asneiras, meias-verdades e mentiras pela boca de pessoas que se julgam mais sábias do que todos. Lembre-se que eles tentaram manter o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva “sub judice” a fim de criar as condições para dar o bote.

Carta de um leitor

Esse poderoso braço do tráfico de informações da direita sonha em reviver cenas que predominavam no início da década de 1960. Os métodos da direita magnetizada pela coesão que emana de clãs minúsculos estão de volta. São as mesmas faces, tangendo velhíssimos ideais. Recorde que o título do editorial do jornal Correio da Manhã que circulou no dia 31 de março de 1964 sintetizou numa palavra o desejo da elite brasileira naquele dia: ”Basta!”. No dia seguinte, 1º de abril, o jornal repetiu a dose: ”Fora!”.

A Folha do dia 27 de março de 1964, em editorial intitulado ”Até quando?”, indagou: “Até quando as forças responsáveis deste país, as que encarnam os ideais e os princípios da democracia, assistirão passivamente ao sistemático, obstinado e agora já claramente declarado empenho capitaneado pelo presidente da República (João Goulart) de destruir as instituições democráticas?” Outros jornalões da mídia, como O Estado de S. Paulo e O Globo, tocavam na mesma banda, com a mesma escala. Qual a diferença dos editoriais de hoje em dia?

Há algum tempo, a Folha publicou uma sugestiva carta de um leitor. “Desculpe, mas acabou a minha capacidade de absorver só notícias negativas. A Folha há muito deixou de praticar um jornalismo investigativo e entrou firme no jornalismo denunciativo, que não leva a nada”, disse ele. O leitor estava comunicando a perda da paciência com o jornalismo chulo da Folha. Ele não é o único nem a Folha a única publicação da mídia a colocar como prioridade de sua estratégia editorial a busca do pior em tudo, mesmo que esse tudo seja o melhor para o país.

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