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Por que a direita não sai do armário

Por que a direita não sai do armário

Por Osvaldo Bertolino

Empresários de um lado, trabalhadores de outro. Os primeiros representados pelo patrão de cartola e charuto e os segundos representados pelo operário sujo de graxa empunhando um martelo ou uma foice. Esses símbolos não deixaram de expressar a relação entre capital e trabalho como engrenagem básica das sociedades capitalistas. Esquerda e direita são conceitos que se formaram como analogia às posições que os parlamentares ocupavam na Assembleia Nacional, em Paris, logo após a Revolução Francesa.

Nas galerias à esquerda da mesa diretora ficavam os jacobinos, radicais quanto ao fim da monarquia e quanto aos rumos da Revolução. À direita ficavam os girondinos, que defendiam posições mais moderadas e não simpatizavam com a ideia da França transformada em república. Já no século XIX, quando a maioria dos países havia trocado a monarquia de base feudal pela república baseada no liberalismo, direita passou a representar a defesa dos valores conservadores, como a tradição familiar e a propriedade privada dos meios de produção, e esquerda a crítica a esses valores.

Agudo conflito de classes

Quando os projetos socialistas e capitalistas passaram a disputar a hegemonia política e econômica do planeta, no século XX, a denominação de esquerda coube aos marxistas e a de direita aos liberais. Esquerda passou a significar o projeto de modificação da estrutura republicana arquitetada pela desigualdade social e do sistema econômico baseado na propriedade privada das forças produtivas. Seu ideário reivindica a precedência do trabalho em relação ao capital, da propriedade social em relação à propriedade privada dos meios de produção.

Direita tomou o significado de manutenção do status quo do sistema econômico e político sustentado pela correlação de forças favorável aos capitalistas. Seu ideário advoga a primazia do capital em relação ao trabalho, da propriedade privada em relação à propriedade social dos meios de produção. É verdade que entre uma e outra apareceram tendências moderadas, que preconizam a conciliação, a construção de um modelo de sociedade capaz de trazer a relação entre capital e trabalho da truculência patronal para o acordo, da instabilidade litigiosa do capitalismo para o equilíbrio negociado social-democrata.

O problema é que essa conciliação contraria a natureza de um modelo de sociedade fundado num agudo conflito de classes expresso pelos interesses de quem vive do trabalho e de quem vive do lucro do capital. Desde que o homem deixou de ser nômade e passou a criar e a acumular riqueza, esse conflito entre explorados e exploradores tem estado no âmago das relações econômicas, políticas e sociais. O capitalismo é apenas o capítulo mais recente dessa história.

Caminho pacífico

Já nos organizamos para produzir, depois do modelo de comunitarismo primitivo, principalmente em regimes escravista e feudal. Mas é no regime capitalista que esse conflito atinge seu ápice. Nele afloram todas as contradições das sociedades calcadas na divisão de classes e a clareza da dicotomia entre revolução e reação — que, de certa forma, estabelece o fio condutor entre os pensamentos estratégicos dos jacobinos e dos girondinos no pós-Revolução Francesa.

Sobre esse assunto, reina uma grande confusão na esquerda. Certa feita, em um congresso da Central Única dos Trabalhadores (CUT), presenciei o então presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Genoíno, dizer em um seminário para explicar o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva às delegações estrangeiras que o seu partido era “radicalmente reformista”. Genoíno fez, evidentemente, uma alusão às “reformas” do Estado que tramitavam em Brasília, mas fundamentada numa corruptela.

Segundo ele, o PT pensa assim porque representa a “esquerda democrática” e se diferencia da esquerda “dogmática”, que defende a “revolução armada” — de onde ele veio. “O PT me mudou”, disse. Como se sabe, Genoíno pertenceu ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e participou da Guerrilha do Araguaia entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Ele confundiu as coisas. Já na década de 1950 o Partido Comunista debateu essa questão quando surgiu a ideia do “caminho pacífico” para a revolução.

Contornos diversificados

Carlos Danielli, dirigente do PCdoB assassinado pela ditadura militar em São Paulo quando exercia o papel de principal elo entre a direção do Partido que estava na capital paulista e no Rio de Janeiro e a Guerrilha do Araguaia, escreveu na “Tribuna de Debates” do 5º Congresso do Partido, que se realizou em 1960:

“Esta questão (o caminho pacífico ou violento para a revolução) não depende só do proletariado, mas, principalmente, das forças que se opõem ao progresso (…). Aliás, a experiência do nosso povo é de que os grandes momentos históricos nacionais são precedidos de duras lutas, inclusive pelas armas, embora a solução final nem sempre tenha sido através da luta armada” (Osvaldo Bertolino, “Testamento de Luta – A Vida de Carlos Danielli”, página 81).

O que Danielli estava dizendo, no fundo, é que a luta de classes ganha contornos diversificados conforme o momento histórico. Em outras passagens do acirrado debate no Partido que varou quase toda a segunda metade da década de 1950, ele tratou desse assunto com muita sagacidade. Danielli criticou muito o “abstencionismo eleitoral” e “a teoria da revolução a curto prazo”.

“As eleições não eram consideradas (pelo Partido) como uma importante forma de luta”, escreveu ele (página 74 do mesmo livro). Danielli estava criticando a passagem desse “esquerdismo” para o adesismo eleitoral “direitista”. “(…) Quando tentamos corrigir os erros de direita, caímos em posição esquerdista. E ao combater esta, incorremos em desvios oportunistas de direita (…). É difícil localizar o oportunismo, seja ele de direita ou de esquerda. O primeiro se esconde sob a máscara da amplitude e o segundo sob a fraseologia revolucionária. Mas um exame atento pode nos levar à essência dos fenômenos que aparecem na superfície”, disse (páginas 73, 75 e 76).

Contradição presente

Para Danielli, a questão da frente democrática encerra uma contradição que precisa ser bem compreendida.

“A pretexto de defender a unidade da frente única, há camaradas que temem levantar as reivindicações populares ou dar-lhes consequências nas lutas. Veem só o aspecto da unidade (…) e esquecem da luta. Há outros que só veem a luta e esquecem a unidade. Unidade e luta são dois momentos de um só processo dialético que deve ser levado com vistas a fortalecer a frente única, processo inconcebível se não visar dar base de massas à aliança estabelecida”, escreveu (página 77). Ainda sobre a tática eleitoral para acumular forças, Danielli disse:

“Ao mesmo tempo em que se alia com a burguesia nacional (…), o proletariado luta contra ela em defesa de seus interesses. Aliança com a burguesia e luta ideológica contra a burguesia (…)” (página 68).

Essa é uma contradição presente entre as forças e correntes políticas que apoiam o ciclo Lula-Dilma e pode ser traduzida em duas questões básicas. Primeira: quem são e o que querem os empresários que apoiam este governo? É preciso lembrar que Lula e Dilma não eram candidatos dos sonhos da maior parte do empresariado. Em julho de 2002, a revista Exame consultou os presidentes de 100 das 500 maiores empresas do Brasil e obteve o seguinte resultado: 71% apoiavam o tucano José Serra e, como segunda escolha, aparecia Ciro Gomes. Lula tinha apenas 1%.

Os meses passaram, Serra não decolou, a candidatura Ciro Gomes inflou e murchou e Lula foi se aproximando dos empresários. Estabeleceu-se, então, a aliança com o centro político e a interlocução com os empresários brasileiros resultou no seguinte pacto: como o governo Fernando Henrique (FHC) não deu atenção ao setor produtivo, privilegiou o mercado financeiro e arrefeceu o crescimento econômico, Lula deu a eles a esperança de diálogo com o Planalto e incentivo à produção.

Configuração política

Segunda questão: ao apoiar um governo assim a esquerda revolucionária assume que onde existia a chama da revolução haverá a partir de agora um desejo sereno de mudanças? De início, é preciso dizer que a dicotomia entre revolução e reação não desapareceu. Como vimos, ela é intrínseca ao capitalismo. Mas, como disse Danielli, não é correto ter uma teoria transformadora estática, que enxerga só o curto prazo. Ninguém que advoga a teoria marxista e leva em conta toda a sua experiência do século XX pode imaginar que o desenvolvimento econômico não é benéfico aos trabalhadores.

Essa é uma bandeira que une um largo apoio no espectro das forças que apoiam o governo. O apoio dos empresários a esse desenvolvimento pode, por exemplo, até implicar em defesa de mudanças radicais — como é o caso da grita contra os juros altos. É que na outra ponta da corda estão as forças da reação, tendendo a defender a manutenção do cenário estabelecido pelo neoliberalismo.

Eis a configuração política deste ciclo de governos: centro-esquerda. Essa convergência pontual de interesses entre empresários e trabalhadores, entre o centro e a esquerda, possibilita, em consequência, o diálogo para, por exemplo, dar combate unitário a uma tendência neoliberal que perdura na política monetária do país. Há, evidentemente, entre as forças políticas que apoiam o governo uma boa dose de enfrentamento. Nesse ambiente, a conceituação de esquerda e direita renova seu significado.

Direitona ideológica 

Essa fotografia, evidentemente, não aparece nas análises que a direitona ideológica difunde a três por quatro, moldadas e envernizadas pela mídia. Ela está interessada em outras coisas, como o golpismo para voltar a reinar absoluta. O que dá sustentação a esses artistas de picadeiro, que agitam bandeiras esfarrapadas como o moralismo, são as versões de que vivemos uma espécie de “fim da história” no Brasil. Para os porta-vozes desta opinião, os paradigmas econômicos e políticos que marcaram o século XX perderam a razão de ser.

O modo como estávamos acostumados a ver as coisas e a entender o mundo não faz mais sentido. Os conceitos clássicos de esquerda e direita, segundo essa tese, não existem mais porque a oposição básica que lhes daria sentido — socialismo versus capitalismo — foi varrida pela “nova ordem mundial”. E com ela teria desaparecido a dicotomia entre revolução e reação, que estabelece o fio condutor com marxistas e liberais.

Escopo ideológico

Onde havia a chama da revolução, teria passado a existir um desejo sereno de mudanças porque as forças da reação estariam tendendo a defender a manutenção dos cenários estabelecidos de uma forma menos autista. Em consequência, as possibilidades de diálogo e de solução dos conflitos seriam maiores. A nova dicotomia no máximo lembraria um pouco a organização partidária norte-americana, comandada por republicanos à direita e democratas à esquerda, ambas enquadradas por “instituições maduras” no trato das políticas macroeconômicas e sem espaços para operar mudanças estruturais.

É difícil a comprovação desta tese num país em que o combate histórico à hegemonia liberal ainda é uma luta contra resquícios medievais. Essa constatação ajuda a desvendar por que no Brasil a direita morre de vergonha em admitir-se de direita e procura manter baixa a visibilidade de sua bandeira. A realidade, no entanto, mostra cotidianamente que o enfrentamento entre forças de transformação e forças conservadoras não desapareceu. Travamos hoje uma batalha contra uma direita que age de arma na mão para suprimir direitos sociais, que luta com unhas e dentes para manter a imprensa a seu serviço, que abomina qualquer iniciativa que visa a distribuição de renda e que desqualifica qualquer conceito de Estado de corte humanista.

Ou seja: direita e esquerda, que sempre pintaram suas bandeiras com cores nítidas, enfrentam-se com projetos claramente opostos para o país. A direita brasileira não assume o escopo ideológico que lhe corre nas veias porque ele já está há muito tempo superado. Ela sempre se soube na contramão da história, dando sustentação a qualquer regime que protegesse seu senhorio, porque privilégios feudais e arcaísmos oligárquicos que já estão sepultados há séculos em outros países ainda são a essência do seu projeto estratégico.

Repressão varguista

Daí a tentativa da direita de camuflagem de sua bandeira, que vem sendo pintada desde antes da disputa ideológica típica do século XX, quando no Brasil já havia o choque do contemporâneo com o obsoleto. A história do movimento partidário imperial — principalmente no auge das disputas entre monarquistas e republicanos, quando os últimos fundaram mais de 300 clubes no ano e meio decorrido entre a Abolição e a República — guarda perfeita simetria com o atual estágio em que as forças políticas conservadoras reproduzem a forma como as oligarquias trataram o povo ao longo do período republicano.

Ainda hoje pouco se sabe a respeito da atividade política popular contra a monarquia, registrada em muitos jornais republicanos, e do fio condutor das ações progressistas do século XX com as lutas que se vinham travando por um futuro melhor desde antes da proclamação da República — resultado da contumaz ação autoritária das forças conservadoras. Na República Velha, que continuou restringindo a participação popular nos destinos do país, os trabalhadores começaram a construir um efetivo movimento político, que culminou na criação do Partido Comunista do Brasil.

Depois da derrocada da República Velha e da consolidação da Revolução que levou Getúlio Vargas à Presidência da República em 1930, com a superação da fase em que os comunistas enfrentaram a repressão varguista, o quadro partidário ganhou nova configuração. O PCB — a sigla do Partido Comunista do Brasil na época — contribuiu de forma decisiva para a unidade nacional contra a reação e conquistou a legalidade. Sua atuação junto ao povo, mesmo depois de ser cassado no governo do general Dutra, em 1947, foi marcante.

Cenário partidário

Neste período surgiu, pelas mãos de Getúlio Vargas, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com o objetivo declarado de ocupar os espaços do PCB. Surgiram também o PSD e a UDN, que retomaram a clássica configuração partidária da República Velha — além de outros partidos de menor expressão à direita e à esquerda. O PTB, partido ligado ao movimento operário que adotou uma plataforma nacional e democrática, revelou-se uma força ponderável na formação de um campo político nacional amplo e ao mesmo tempo com base popular, também integrado pelo PCB, e cumpriu importante papel até o golpe militar de 1964.

Vencido o longo inverno antidemocrático, o quadro partidário, após uma fase de redefinição das posições políticas, voltou a ser basicamente o mesmo do período que sucedeu o Estado Novo. Hoje, pode-se dizer que, numa conjuntura evidentemente muito mais complexa, o DEM e o PSDB são, em essência, a continuidade do PSD e da UDN.

O Partido Comunista do Brasil, já com a sigla PCdoB, voltou a figurar com destaque no cenário partidário e novamente propôs uma frente popular, liderada pelo PT, que foi se ampliando até a vitória eleitoral que conduziu Lula à Presidência da República em 2002. E isso incluiu os partidos de centro que, quando não se unem à esquerda, não ficam no centro — vão para a direita. Surpreende que lideranças políticas progressistas tenham dúvidas sobre isso. Os conservadores seguramente não as têm.

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