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Joaquim Barbosa, Sérgio Moro e a alquimia do ódio

Joaquim Barbosa, Sérgio Moro e a alquimia do ódio

Por Osvaldo Bertolino

A “Veja” publicou, há algum tempo, um “pequeno (o termo pode ter sentido duplo) dicionário das (re)criações políticas” que, entre outras asneiras, define o “verbete” democracia como “todo regime simpático a Brasília em que o povo não tem força suficiente para tirar do cargo o governante que se pretende eterno”. (É uma alusão ao apoio do Brasil à Cuba.) A própria revista prestou um grande serviço ao lembrar — puxando a brasa para a sua sardinha, evidentemente — que o termo é o mais vilipendiado do vocabulário político em todos os tempos.

Para a direita, que tem a pretensão autoritária de ser sinônimo de democracia, o termo se limita à prática política representativa e consiste somente na realização periódica de eleições. Os Estados Unidos são o epicentro desses mitos “democráticos” — o país do individualismo, dos caubóis solitários, do Estado que apenas garante “a lei e a ordem”. Eles os passaram adiante, mundo afora, como fizeram com a Coca-Cola e o McDonald’s.

A direita sempre procura fundamentos doutrinários para empurrar seus adversários ideológicos para fora da liça. Eleições livres e limpas, em que todas as pessoas votam, todos os votos têm peso igual e todos os eleitores podem ser votados — com as exceções determinadas por uma Justiça justa —, não são, para eles, critérios intrínsecos à democracia.

Crise de representatividade

No Brasil, essa concepção ganhou força desde 1994, quando a legislação começou a engessar as eleições. A linguagem publicitária começou a dar lugar ao discurso mais dissimulado e menos politizado. Os parâmetros que regulam a aparição dos candidatos na mídia, com o intuito alegado de tornarem a disputa mais igual, tornaram-na apenas mais chata. Entramos numa fase de eleições de refluxo, de comedimento, de confronto indireto. Eleições decididas na sala de casa e não nas ruas, no jogo publicitário e não no debate ou no confronto de propostas.

Como consequência, as eleições atuais não parecem que estão sendo realizadas no mesmo país daquelas da década de 1980. Fora a poluição visual, os desperdícios e a sujeira de sempre, vê-se pouca gente vestindo camisetas e bonés, carregando bandeiras, ostentando bótons. O horário eleitoral tem baixa audiência e as firulas publicitárias são hegemônicas — algumas são autênticas patacoadas. Vivemos, enfim, tempos de eleições em que o bloco direitista optou pelo jogo rasteiro e foge do confronto ideológico.

Tudo isso levou o quadro político brasileiro ao conceito formal de democracia. Além da alienação política, o distanciamento dos eleitores em relação à campanha significa que a militância partidária perdeu espaço na vida do país. As pessoas que nos anos 1980 festejaram o voto como um direito restaurado, sentem-no agora como uma obrigação a cumprir. Ou seja: as eleições se transformaram de uma festa da democracia em um ritual cada vez mais aborrecido. A chama cívica enfraqueceu e ficou no seu lugar um certo enfado. Talvez seja isso o que se chama por aí de crise de representatividade.

Alquimia do ódio

Na contramão dessa involução está a política propriamente dita, o debate partidário sério. A existência de uma esquerda atuante ao longo da nossa história republicana confere uma coloração politizada aos debates eleitorais. O problema, portanto, não está na ferramenta — a democracia —, mas no uso que se faz dela. A questão é: como as forças políticas que lutam por transformações estruturais devem proceder num jogo com estas regras? Não há alternativa, aparentemente, fora de uma Reforma Política democrática. E nela a contenção dos abusos do poder econômico é ponto essencial.

Isso explica por que a direita foge dessa questão como o Diabo da missa. A mídia quando raramente toca no assunto é para distorcê-lo, achincalhá-lo. Não foram poucas as vezes em que vozes da esquerda apontaram a oportunidade do debate sobre a natureza das acusações em farsas como o “mensalão” e a “Operação Lava Jato” para se levar adiante essa proposta. Mas o objetivo dos próceres dessas representações circenses — em especial os juízes Joaquim Barbosa e Sérgio Moro — passa longe da apuração das causas da corrupção eleitoral e do aprimoramento da democracia.

A mídia, por sua vez, se encarrega de fazer a alquimia das trapaças desses juízes para apresentá-las ao público de forma obscurantista. Os fantasmas que ela solta na praça são alimentados pelo modo como o assunto é apresentado. Periodicamente, matérias a respeito aparecem sob trilha sonora grave ou diagramação sombria. E assim muita gente fica com a impressão de que não há alternativa para o abismo. E acaba tirando conclusões e erigindo crenças baseadas em visões ignorantes e superficiais, matéria-prima do ódio que desfila pelas ruas a serviço do golpismo e dos vitupérios contra a democracia.

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