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Lula, Mussolini e o chicote do juiz Sérgio Moro

Lula, Mussolini e o chicote do juiz Sérgio Moro

Por Osvaldo Bertolino

Desde a primeira vez que ouvi falar do juiz Sérgio Moro, desconfiei que ele não era uma pessoa séria. Aí fui pesquisar sua vida pregressa e descobri coisas cabeludas, como o seu envolvimento no fantástico esquema de desvio de estimados R$ 500 milhões da prefeitura da minha cidade, Maringá, no Paraná (clique aqui), durante a gestão do prefeito Jairo Gianoto, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Descobri também que por trás da trama estavam o senador Álvaro Dias, que recentemente deixou o ninho sujo do tucanato paranaense para se filiar ao Partido Verde (PV); o ex-governador Jaime Lerner, do então Partido da Frente Liberal (PFL); e o banqueiro Daniel Dantas (clique aqui), que operava o esquema barra pesada do caixa dois do PSDB.

Logo assumi as prevenções com as quais os defensores do Estado Democrático de Direito o olham dos quatro pontos cardeais. Sérgio Moro também foi revelando uma acentuada inclinação para o exercício do autoritarismo e da pirotecnia midiática. Prende quem ele bem entende, condena os que ele acha que podem render algo para prosseguir em sua marcha discricionária e monta suas farsas sabendo que há sempre uma plateia disposta a levá-las ao grande público. Enfim, ele pratica toda sorte de atos anormais e aparenta não se dar conta disso, como se fosse um sujeito apaixonado de quem os outros comentam em segredo e riem maliciosamente. E estabeleceu-se, então, uma dicotomia que dividiu o país e crispou os ânimos políticos.

O sequestro do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva representou o auge da sua escalada arbitrária. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, falou em condução sob vara, como se dizia antigamente. Eu recorro a outra imagem, igualmente antiga: o chicote, mais adequado ao histórico da elite brasileira. O lado da língua de couro e o lado do cabo oferecem dois climas inteiramente diversos para a fermentação das ideias. De um lado, o direito democrático que se reclama; do outro, uma reprimenda que se aplica. Sérgio Moro está do lado do cabo do chicote; e suas vítimas (inclusive o povo brasileiro), do lado da língua de couro.

Nos anos 1930, na Itália governada pelo fascista Benito Mussolini, houve uma condenação ao fuzilamento de um militante anarquista, chamado Michele Schirru, que lembra muito os métodos de Sérgio Moro. A acusação era de que ele havia cometido o crime hediondo de pensar em matar o ditador. A corte que se reuniu para julgar o caso considerou-se honrada em assinar a sentença de morte.

Um membro da alta magistratura foi ao calabouço do condenado para oferecer a comutação da pena. Michele Schirru assinou o requerimento que foi, ali mesmo, indeferido. Negaram-lhe até o direito de morrer de frente, como homem desassombrado, para que não legasse à história nenhuma demonstração de altivez e heroísmo. A petição que lhe levaram para assinar foi, apenas, para humilhá-lo. E foi morto como um cão, conforme os registros indignados da época.

Há, na crônica do gênero humano — ou desumano, para ser exato —, numerosos episódios que podem atestar a conduta errática desse tipo de ação de Sérgio Moro. Um outro caso ocorreu após a batalha de Wagran, quando um jovem alemão tentou matar Napoleão Bonaparte, descarregando a pistola em sua direção. O autor do malogrado atentado foi levado à presença de Napoleão, que indagou:

— Por que queria me matar?

— Porque a Alemanha não desfrutará sequer um dia de paz enquanto você existir – respondeu o jovem.

— O que te inspirou a fazer o atentado? – prosseguiu Napoleão.

— O amor à minha pátria.

— Combinou a ação com alguém?

— Não. Encontrei essa ideia na minha consciência.

— E sabia a que perigo estaria exposto?

— Sabia. Mas morrerei contente morrendo pela minha pátria.

— Sei que tem sentimentos religiosos. Acredita que Deus autoriza assassinatos?

— Deus me perdoará, conhecendo os motivos do meu crime.

— Nas escolas que frequentou ensinaram essa doutrina?

— Grande número daqueles que a aprenderam estão dispostos a segui-la, e prontos para morrer como eu para a salvação da pátria.

— Que faria se eu te desse a liberdade?

— Eu te mataria.

Napoleão abaixou a cabeça, meditou e disse para o duque de Cadore:

— É preciso fazer a paz!

(Pierre Corneille, Cinna)

Sérgio Moro disse que Lula “pensou” em um Brasil imaginário e que ninguém está acima da lei. O ex-presidente pensou, sim, em um Brasil diferente do imaginado pelo juiz. Na verdade, os “crimes” de Lula não podem ser classificados entre os do anarquista italiano e o do jovem alemão. E ainda menos ao lado daquele de Hamórdio, assassino de Híparco, a quem os atenienses levantaram uma estátua que tinha em uma das mãos um punhal, expressão do crime, e na outra um ramalhete de flores, expressão da vitória da liberdade sobre a tirania. Esses tentaram matar, apunhalaram, descarregaram pistolas. Lula foi mais longe: não foi acusado de tentar matar alguém, não atirou, não arrancou punhal, mas “pensou”. E o pensamento é a mais infame das armas, porque é arma que ninguém vê.

Nessa infâmia toda, cabe dizer a Sérgio Moro que ele restituiu ao pensamento a sua condição de arma proibida e fatal, restaurando a benemérita jurisprudência dos tempos de Piero de Verona e dos “Capitani di Santa-Maria”! E tu, Galileu, se souberes que a Terra se move, não digas, em Pisa, a ninguém!

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