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O PMDB, o PT e o vinho que virou vinagre

O PMDB, o PT e o vinho que virou vinagre

Por Osvaldo Bertolino

Aprendi com a vida e com os estudos dos fenômenos sociais que a amizade é o mais doce dos sentimentos. Quando acompanhada do amor, do companheirismo e da camaradagem, ela é ainda mais doce. Nada mais agradável do que estar próximo de companheiros e camaradas. Mas essas são denominações desprezadas por quem não dá a devida importância a esses valores e, por isso, procuram vulgarizá-las, ridicularizá-las — uma atitude compreensível em uma sociedade forjada para bestializar as pessoas.

Exatamente por essas condições sociais, a amizade, o companheirismo e a camaradagem podem, em determinadas circunstâncias, transformar-se em comportamentos perigosos. Quem tem muitos amigos pode ter, em algum deles, a semente de um inimigo. Esse ex-amigo é o vinho que se transformou em vinagre — nas palavras de Humberto de Campos. E para não ter vinagre, a condição principal é não ter vinho. O ex-amigo é, em suma e em geral, o amigo que azedou.

Estridência

Esse ponto de vista acaba de ser confirmado integralmente com o comportamento do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) diante do governo. Há algum tempo esse partido e o Partido dos Trabalhadores (PT) viviam como vizinhos silenciosos dentro dos muros das instituições governamentais. Não eram mais os amigos de antes, mas mantinham-se numa louvável atitude de reserva e de discrição como duas pessoas que não se conhecem; uma fingia ignorar a existência da outra. E iam tratando dos seus interesses, dos seus projetos, como dois estranhos que marcham lado a lado sem que um pise o outro ou o incomode com a ponta do cotovelo.

Chegou, contudo, o que era inevitável: o vinho virou vinagre. Os abraços e os mimos foram interrompidos e substituídos por uma série de hostilidades, acompanhadas de palavras descorteses, proferidas em voz alta, até em rede nacional de rádio e televisão. Em vez daquele silêncio educado e cortês existente depois das relações afetuosas, passou a dominar a intriga. Por mais que algumas vozes peemedebistas tentem reduzir o volume da estridência do ex-amigo do PT, ela pode ser ouvida em alto e bom som pelo país afora.

Andor

Uma troca de mensagens peemedebistas vazadas para o jornal “O Estado de S. Paulo” revela que o ex-ministro da Aviação Civil e um dos principais aliados do vice-presidente Michel Temer, Eliseu Padilha, articula a saída do partido do governo após a convenção da legenda agendada para o próximo dia 12. A troca das mensagens ocorreu no último fim de semana em um grupo peemedebista do WhatsApp. O argumento é de que o PMDB precisa ter candidato a presidente da República em 2018 e não teria o apoio do PT.

Humberto de Campos conta que Voltaire, andando em uma rua de Paris, acompanhado de amigos, deparou-se com uma procissão. Ao se aproximar do andor em que se erguia a imagem de Jesus Cristo, o filósofo, com seu sorriso discreto e irônico, levou a mão à cabeça e tirou respeitosamente o chapéu. “Que é isso?”, indagou um amigo, estranhando a atitude do príncipe dos homens sem fé. “Virou amigo de Jesus?”, completou. “Não”, respondeu o autor de “Cândido”. Nós nos cumprimentamos, mas não nos falamos.” Talvez  a saída para o impasse seja por aí: a busca de uma cordialidade governativa. Até porque, ao que consta, vinagre não se transforma em vinho. A não ser por milagre. Mas será que ainda dá para alcançar o andor?

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