Home / Brasil / A quinta-coluna trotskista marchou na Avenida Paulista a favor do golpe
A quinta-coluna trotskista marchou na Avenida Paulista a favor do golpe

A quinta-coluna trotskista marchou na Avenida Paulista a favor do golpe

Por Osvaldo Bertolino

Para deleite da mídia, grupos trotskistas incitaram arruaças na manifestação do “Dia Internacional das Mulheres”, na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo. E saíram em marcha própria, dividindo o ato político, gritando slogans contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT). Os grupos seriam ligados ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Como não poderia deixar de ser, a mídia franqueou suas páginas, microfones e câmeras para que os trotskistas deitassem falação bem ao gosto dos golpistas.

No final dos anos 1930, quando o líder fascista espanhol Francisco Franco preparava-se para marchar sobre Madri com quatro colunas, o general Queipo de Llano disse: “A quinta-coluna está esperando para saudar-nos dentro da cidade.” Pela primeira vez, o mundo ouvia a palavra fatídica — “quinta-coluna”. Era uma referência ao ultra-esquerdista Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), que aderira à política de Leon Trotski e promovia uma frenética propaganda contra o governo republicano. Em 1937, o partido apelou para “uma ação resoluta” a fim de derrubar o governo republicano. O POUM dizia que praticava uma oposição “revolucionária”, mas, na prática, como disse o general Llano, era uma importante linha auxiliar dos fascistas.

Vistas pelas lentes da mídia, as manifestações foram assim: a “petista” foi uma “passeata de claques pagas pelo Estado” e a segunda uma mostra da possibilidade de a oposição ter nas mãos o que o tucano Aécio Neves chamou de pedido da “sociedade” pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Não parece haver argumentos muito brilhantes, no plano prático da luta política, a favor dos trotskistas. Alastram-se indicativos de que os elementos de classe contidos na crise não satisfazem os neurônios dos militantes “revolucionários” educados no preceito do vanguardismo febril do esquerdismo deletério.

Dois erros nunca se anulam

A justificativa pode ser encontrada em um texto antigo intitulado “Fora todos!”, publicado no site do PSTU, segundo o qual “apenas uma revolução socialista no país e a construção de um Estado dirigido pelos trabalhadores pode acabar com a corrupção”. É preciso algum traquejo para distinguir os sintomas dessa doença infantil. Com seu discurso “radical”, esse movimento quer mesmo é produzir encrenca e desgastar o governo. Ao tentar atiçar as massas contra um sistema de representação que considera inócuo para construir um dique contra o capitalismo — isso em meio a uma tempestade de dimensões históricas —, ações como essa servem mesmo para ser explorada pela mídia e engrossar a oposição direitista.

O termo “quinta-coluna” cai como uma luva — a manifestação é contra o capitalismo e ponto. Diz o axioma que dois erros nunca se anulam. Aliás, geralmente somam-se para dar um resultado ainda pior. Ou seja: a manifestação trotskista, que seria contra o “petismo” e o capitalismo, supre um vazio da direita, porque há um inegável clima de desmoralização dos métodos golpistas (especialmente os do juiz Sérgio Moro) criado exatamente pela compreensão da tática e da estratégia do jogo da direita pelo que a mídia chama de “petismo”. A mídia se esforça para manter a chama acesa, mas, para o infortúnio dos que monopolizam o noticiário as luzes do palco onde o golpismo é encenado estão ficando opacas.

Palavras de Lênin sobre Trotski

Quem aprecia esse estilo de fazer política pode até reencenar, irresponsavelmente e com sinal invertido, aquele juvenil orgulho dos tempos do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, quando os que estavam nas ruas eram exatamente os mesmos que hoje voltam a elas para defender a moralidade pública e a democracia, contra o golpismo. Mas isso não passa de demagogia barata, conluio com a desinformação, falta de seriedade ou estultícia mesmo. Para se ter uma ideia de até onde vai esse desvario, a há algum tempo a deputada Luciana Genro (PSOL-RS) elogiou, recorrentemente, o papel da mídia na cobertura da crise política durante entrevista ao apresentador da TV Globo, Jô Soares.

Apesar da superioridade potencial, as forças democráticas e progressistas ainda estão dispersas. Pela falta de uma delimitação mais clara das posições desse campo político, gente notoriamente comprometida com os interesses da elite consegue iludir setores consideráveis do povo. O esforço agora é para ampliar a unidade das ações a favor da democracia e isolar os grupos golpistas — entre eles o trotskismo. Quanto à manifestação esquerdista infantil do dia 8 de março, é oportuno terminar com algumas palavras de Vladimir Lênin sobre o papel histórico de Trótski: “Tenho a declarar que ele representa unicamente a sua própria facção.”

Sobre outrolado

Notícias Relacionadas

5 Comentários

  1. É um desserviço à luta democrática chamar esses grupos do PSTU e PSOL de trotskistas e, assim, falar de uma “quinta coluna trotiskista”. E é um erro interpretar as ideias de Trotsky a partir daqueles que se reivindicam fraudulentamente da sua herança. Esses grupelhos esquerdistas se reivindicam fraudulentamente do trotskismo para tentar cavar seu espaço ao lado da classe trabalhadora enquanto reforçam a política do imperialismo. São oportunistas, simplesmente. No Brasil, aqueles que levam adiante o “Programa de Transição”, os verdadeiros trotskistas, estão agrupados dentro do PT, na Corrente O Trabalho, seção brasileira da 4ª Internacional, que tem desempenhado um papel honroso na política nacional.

  2. Javier Villanueva

    Absurdo comparar o suposto “trotskismo” de grupos apenas democráticos como o PSTU e o PSOL, como uma experiência histórica como a do POUM, aliado do anarco-sindicalismo, verdaderira força revolucionária e proletária na guerra civil espanhola, que não se transformou em revolução pelas manobras do estalinismo. Absurdo tomar as palavras de um general fascista como “prova” de uma acusação infame que nunca foi comprovada, que não possui nenhum documento histórico que prove tamanha falsidade. É só lembrar da detenção e desaparição dos líderes do POUM pelas mãos da checa estalinista do PCE, acusada por centenas de dirigentes operários, sobretudo anarquistas. Ridículo criticar a ação infame do Psol e Pstu, aderindo pela suposta “esquerda” ao golpe contra o PT e o Lula, com tais argumentos. O Pstu e o Psol deverão dar contas das suas posições estrafalárias, antipopulares e golpistas ante um grupo minúsculo de universitários, mas pouco interessam ao povo trabalhador que sabe de que lado estão seus interesses históricos. Para defender o Lula e o PT das tentativas da direita -e ficar do lado do governo da Dilma, votado pelo povo- não é necessário trazer a tona argumentos a-históricos como o do suposto “trotskismo” desses dois grupos minúsculos, nem reacender a polêmica sobre a “traição” nunca comprovada do POUM.

    • PSTU e PSOL dizem ter fortes ligações com o trotskismo. O POUM esteve do lado errado da guerra ao se negar a integrar a frente ampla de combate aos fascismo. O termo e os ataques ao “estalinismo” demonstra bem como o trotskismo viu aquela guerra, negando-se a integrar a frente ampla do Partido Comunista. As palavras do general fascista estão registradas em documentos reais, como atestam os autores do livro “A grande conspiração”.

      • O POUM formou parte de uma amplia frente de trabalhadores contra o fascismo, sim, em aliança estreita com o anarquismo; formou parte também de administrações e direções de comunas em que estavam todos os partidos anti-fascista, assim como também das milícias e batalhões republicanos, combatendo com valentia ao fascismo, até serem expulsos pelo PCE. Isto é um fato histórico. As palavras do general fascista não mencionam o POUM nem o trotskismo -que era apenas um setor, uma fração do POUM, assim como os trotskistas brasileiros estão mais dentro do PT do que fora dele-, e sim fazem referência genérica a uma 5ª coluna que obviamente eram os partidários do franquismo que estavam calados enquanto a guerra não se definia a seu favor, mas que não deixavam de passar informação aos fascistas e de boicotar à república. As ligações do Psol e Pstu com o trotskismo existem, claro, assim como de centenas de grupos até menores em toda América Latina. Durante a insurreição sandinista em 1979 na Nicarágua, militantes da direção do PST argentino até formaram uma Brigada, a Simón Bolívar, que participou da luta armada, tomando um porto e um par de cidades, e que se dedicaram a organizar sindicatos operários. A FSLN não conseguiu encuadrá-los e os expulsou da Nicarágua por ultra-esquerdistas. parecido ao do POUM e o PCE, com a diferença de que na Nicaragua não foram acusados de favorecer a contra-revolução e sim -como aqui- de passar de rosca nos tempos da revolução, atrapalhando as decisões da maioria. Também não foram torturados, desaparecidos nem mortos; apenas foram expulsos, como aconteceu também durante a Revolução Cubana. Dois tratamentos -Cuba e Nicarágua- bem diferentes do que o estalinismo deu ao ultra-esquerdismo na Espanha e na URSS.

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicadoCampos obrigatórios estão marcados *

*