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Lula e as serpentes do arcebispo

Lula e as serpentes do arcebispo


Por Osvaldo Bertolino

O papa Francisco nomeou, na quarta-feira (9), dom Darci José Nicioli como novo arcebispo metropolitano de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, Estado de Minas Gerais. A nomeação, aparentemente, nada tem a ver com a diatribe do sacerdote que ganhou destaque na mídia quando orientou os fiéis a vencer o mal pisando a cabeça das serpentes “que se autodenominam jararacas” — uma referência explícita ao discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para se defender do ato arbitrário do juiz Sérgio Moro que o conduziu coercitivamente ao Aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo (um verdadeiro sequestro relâmpago), para depor sobre suposições cuja distância da realidade é maior do que a que separa o céu da Terra.

Mas fica a dúvida: o agora arcebispo ganhou um prêmio ou um castigo? A força divina a que ele diz servir avaliou com atenção as consequências da sua fala irresponsável? Desde o Gênesis, a serpente é estigmatizada pelas religiões cristãs como o símbolo do mal, mas ignora o arcebispo que Jesus Cristo ensinou seus seguidores a serem prudentes como ela e simples como a pomba. Lula se comparou à serpente jararaca claramente com o sentido da prudência. Atacado por forças do mal, ele disse que para acertar sua cabeça é preciso muita astúcia — como, aliás, age o inimigo da crença a que o sacerdote falastrão diz defender, que, segundo algumas interpretações bíblicas, falou pela boca da serpente do Jardim do Éden.

Dom Darci José Nicioli, que deveria ser o enviado de Jesus Cristo como ovelha no meio de lobos, inverteu os papéis. Em vez de ser prudente como a serpente de Jesus Cristo, incitou o ódio como a astuta serpente do Éden. O arcebispo fez como tantos outros cujo entendimento se torna surdo e cego diante das realidades. No seu caso, pode-se dizer que a serpente do Éden assumiu o comando das suas palavras. “Maldita é a Terra por tua causa”, disse Deus a Adão por ele ter dado ouvidos a Eva, que por sua vez foi enganada pela serpente. Torço para que as ovelhas de dom Darci José Nicioli não padeçam com essa sentença — é o que desejo, do fundo da alma.

Duas senhoras

O sacerdote católico tem o direito de falar o que bem entende. O que ele não tem é a prerrogativa de ser o porta-voz do pai da mentira. Dom Darci José Nicioli falou como um fariseu, de quem Jesus Cristo disse ser o filho do Diabo. Não há verdade nele, disse o mestre dos cristãos. “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso”, atestou, segundo João, o apóstolo evangelista. Se o arcebispo fosse prudente como a outra serpente, no mínimo evitaria intimidades entre as coisas do céu e da Terra nesses tempos em que o Diabo anda solto nas procissões golpistas.

Um pouco de cerimônia entre Deus e os homens e mulheres, ou dos homens e mulheres entre si, nunca fez mal a ninguém. No Brasil, a República e a Igreja Católica viviam, desde 1891, como duas senhoras que viajam no mesmo ônibus e não trocam uma palavra. Agora, pela pregação de dom Darci José Nicioli, elas devem voltar a ser amigas íntimas, daquelas que uma quer pagar a passagem da outra e a outra quer pagar a passagem da uma. Ao mandar seus ouvintes pisar a cabeça da serpente — a prudente, “que se autodenomina jararaca”, não a do Éden —, ele incitou o ódio e insuflou as manifestações golpistas programadas para o próximo dia 13.

Anciãos peruanos

Dizem que os padres são “ministros” de Deus na Terra. Cumpre, então, perguntar se dom Darci José Nicioli tem feito, aqui na Terra, aquilo que Deus manda. A reposta certamente é não, pois ele deveria estar empenhado em pregar a paz e a fraternidade, não o ódio e a guerra entre irmãos. De minha parte, peço, com a simplicidade de uma pomba, que nos livremos, por nós mesmos, de exaltações torpes como essa do arcebispo. A liberdade e a pátria, quando defendida por vozes farisaicas, são dois anzóis que pescam homens e mulheres para pô-los ao serviço do Diabo.

Conta o escritor peruano Ricardo Palma, em sua obra “Últimas tradições peruanos”, que no Peru dos vice-reis, quando se escutavam gritarias nas ruas, os anciãos sensatos chegavam a mão à orelha e indagavam aos mais novos: “Que gritan, hijos?”. “Padre, que viva la pátria y la liberdad”, respondiam. “Pues atranca la puerta”, dizia o ancião prudente como uma serpente. Eu, daqui desse canto, digo o mesmo para quem me lê e pretende gritar slogans golpistas nas ruas no próximo dia 13. Ouçamos os anciãos peruanos e ignoremos o apelo de dom Darci José Nicioli, o filho do pai da mentira.

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