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Marcelo Freixo: Impeachment, nos termos atuais, é golpe

Marcelo Freixo: Impeachment, nos termos atuais, é golpe

O Espelho

O Brasil precisa se olhar no espelho de uma vez por todas. Não de relance, à meia luz, cheio de subterfúgios e máscaras, como se habituou a fazer, mas encarar a si mesmo.

O Brasil precisa ver as marcas escavadas pela história no seu rosto, passar as mãos sobre elas e sentir os vestígios de anos e anos de problemas não resolvidos, sequer colocados.

Questionar os olhos cansados de tanto procurar atalhos e se esquivar dos conflitos.

Perceber o cinismo desenhado no canto da boca. Riso de escárnio que dissimula violências e omissões seculares.

Somos o país cuja independência foi declarada por um estrangeiro, e a República, proclamada após o golpe de um marechal monarquista.

Somos a casa grande que escravizou milhões de negros e continua a construir senzalas para seus descendentes.

Apesar de tanta luta, somos o país da abertura “lenta, gradual e segura”, do eterno consenso tramado no andar de cima, do voto indireto após 25 anos de ditadura civil-militar, que manteve os algozes da democracia no poder.

Ainda somos a República do café com leite, que tudo muda para permanecer igual. Somos o país que encontrou um atalho chamado Michel Temer, que prefere falar em pedaladas fiscais a discutir a reforma do sistema político-eleitoral.

Não importa se Temer também assinou decretos autorizando pedaladas em 2014 e 2015, quando assumiu interinamente a Presidência. Não interessa se PMDB deixa o governo para continuar governo.

Somos o país que elege inimigos, não adversários políticos. Que não debate ideias, se esquiva da discussão para desferir o golpe. Que não derrota, derruba. Para a sorte de muitos, nosso senso de moralidade é seletivo.

Apesar de tudo, há uma brecha nessas muralhas para que nós comecemos a nos olhar no espelho: a mistura positiva do público com o privado.

O destino do país invadiu nossos sentimentos mais particulares e tomou as ruas.

A política está nas mesas dos bares e nas igrejas, na boca da madame e da funkeira, do professor e do porteiro.

A classe artística está novamente no palco das ruas, pensando junto com a sociedade e sendo mais comentada por seus posicionamentos políticos do que por seus personagens.

A política pode ser ressignificada como o espaço do exercício das diferenças de ideias, sejamos contra ou a favor do governo. Ter lado não é ruim.Ruim é negar e querer eliminar o outro.

A democracia nos impõe desafios, não atalhos.

Impeachment, nos termos atuais, sem a comprovação de crime de responsabilidade, não é legítimo. É mais uma falsa saída.

Tenhamos coragem para encarar o reflexo no espelho sem temer a vertigem.

Fonte: Folha de S. Paulo

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