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Cotoveladas, chutes e cusparadas dos golpistas

Cotoveladas, chutes e cusparadas dos golpistas

Por Osvaldo Bertolino

O lance da bola alçada na área do time golpista por Eduardo Cunha, o peemedebista presidente da Câmara dos Deputados, na esperança de que a aglomeração de oportunistas do seu time faça o primeiro gol, revela a cada dia cotoveladas, chutes, cusparadas e outros recursos típicos de pernas de pau para tentar ganhar o jogo contra a democracia à mão grande. Nessa fase final da jogada, o principal jogador da direita, a mídia, anuncia “novidades” possivelmente ligadas a matérias requentadas da 22ª fase da “Operação Lava Jato”.

O esforço do juiz Sérgio Moro para municiar a direita nessa investida deve estar ligado ao empresário Ademir Auada, preso e logo solto na fase “Triplo X” da operação farsesca, que atuava como intermediário na venda de offshores criadas pela empresa de advocacia e consultoria panamenha Mossack Fonseca. Certamente ele não vai provar nada contra o “petismo”, mas jogará sujeira no ar suficiente para criar mais tumulto e inflar as manifestações golpistas com pessoas de cérebros lavados e enxaguados pela mídia.

Verdadeira novidade

As primeiras falácias divulgadas dão conta de que Auada era o contato entre a firma panamenha e a publicitária Nelci Warken. Nelci seria “testa de ferro” num esquema montado pela Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop), o Partido dos Trabalhadores (PT) e a empreiteira OAS. Sempre na condicional, como manda a regra do jornalismo marrom, o noticiário golpista diz que o objetivo seria esconder a verdadeira propriedade de imóveis do Condomínio Solaris, no Guarujá.

A verdadeira novidade dessa fase “Triplo X” da “Lava Jato”, contudo, segue escondida do grande público. Ela foi descoberta em uma visita de agentes da Polícia Federal ao Conjunto Nacional, prédio de escritórios e lojas na Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo, numa missão que apreendeu documentos altamente comprometedores para os golpistas na filial brasileira da Mossack & Fonseca, a banca de advocacia panamenha que opera internacionalmente como assessora de foras da lei.

Herdeiros do Grupo Globo

A intenção era buscar algo que pudesse ser associado ao apartamento que a mídia atribuiu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o famoso triplex no Edifício Solaris, em Guarujá, litoral paulista — a partir de outro apartamento sem nenhuma ligação com o caso registrado em nome da offshore Murray Holdings LCC. Mas, como diz o povo, foram buscar lã e voltaram tosquiados: além de não encontrar absolutamente nada do que procuravam, descobriram pelo menos quarenta pessoas que fizeram negócios com a Mossack & Fonseca.

A lista sumiu da “Lava Jato” e da mídia. Não houve prisão preventiva de ninguém, tampouco delação premiada. O próprio Ademir Auada foi logo liberado, apesar de ter confessado a destruição de papéis do escritório. Mas o pior, e talvez o principal motivo da ocultação das provas descobertas pelo juiz Sérgio Moro, é a aparição na lista do nome de Alexandre Chiapetta de Azevedo, empresário que foi casado até recentemente com Paula Marinho Azevedo, filha de João Roberto Marinho, um dos herdeiros do Grupo Globo.

Emaranhado de empresas

A revista CartaCpaital apurou que a offshore integra uma complexa estrutura patrimonial: é sócia da Agropecuária Veine Patrimonial, que por sua vez é dona de uma imponente e moderna casa em uma praia exclusiva de Paraty, litoral do Rio de Janeiro, que pertenceria à família Marinho. A propriedade é alvo de uma ação do Ministério Púbico Federal por crime ambiental. Na mesma lista apreendida no escritório da Mossack & Fonseca, ao lado do registro a respeito da Vaincre LLC aparece o nome de outra empresa, a Glem Participações.

Segundo o blog Vi o Mundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, a Glem pertence a Azevedo, ex-marido de Paula Marinho. A neta de Roberto Marinho aparece ainda como fiadora do contrato entre o governo fluminense e a Glem. O emaranhado de empresas e gambiarras do grupo surgiu na documentação apreendida, sem que Moro se desse ao trabalho de sequer apresentá-las ao distinto público.

Pilha de documentos

Na documentação ocultada na “Lava Jato” aparecem outras histórias tenebrosas, como a denunciada pelo jornal holandês Verdieping Trouw, com base em documentos vazados, de que a Globo usou empresas de fachada para pagar intermediários na compra de direitos de transmissão da Copa Libertadores da América. O diário argentino La Nación trouxe outras revelações: “Por razões fiscais, em 2012, a T&T transferiu os seus direitos à empresa Torneios&Traffic Sports Marketing BV, com sede nos Países Baixos. Por trás dessa offshore holandesa, a Mossack & Fonseca criou a Medak Holding Ltd., registrada em Chipre, que, por sua vez, era controlada pela uruguaia Henlets Grupo”.

A reportagem prossegue: “A empresa holandesa, com licença de televisão concedida pela T&T, intermediava a venda dos direitos. A offshore negociou aportes milionários com a TV Globo do Brasil, que eram depositados no ING Bank, em Amsterdã. A empresa holandesa e a TV Globo tiveram contratos negociados de 2004 a 2019, a uma quantia estimada de 10 milhões de dólares”. Além dos Marinho, os proprietários de offshore até agora flagrados na enorme pilha de documentos incluem políticos brasileiros de sete partidos: PSDB, PDT, PMDB, PP, PSB, PSD e PTB, a maioria deles biombos de golpistas.

Quartel de Abrantes

Num país onde há o hábito de respeitar as leis e as regras do jogo existem para serem cumpridas, como estaria se sentindo o povo vítima de tamanha vigarice? O que acharia esse povo ao constatar, como é de conhecimento público, que grande parte das perdas pavorosas da economia nos últimos anos se devem não às circunstâncias e aos riscos próprios do mercado afetado por uma profunda crise global, mas a patifarias como essa para forçar o impeachment fraudulento da presidenta Dilma Rousseff? Iria considerar normal que um grupelho de foras da lei determinasse o destino da nação levando em conta exclusivamente seus interesses? Ficaria olhando, passivamente ou com conivência e apoio irresponsável, para esse cenário de calamidades?

Não, certamente. Trataria, é óbvio, de defender seus direitos e de responsabilizar os responsáveis pelos prejuízos que lhe causaram. Mas isso, como foi dito, nos tais países onde se respeitam as leis. E isso inclui o Brasil do trabalho, da decência e da democracia. Já no Brasil dessa gente golpista não só pode acontecer todas as indecências descritas acima como acontece. Para eles, nada mais normal do que suas condutas à margem da lei, como se estivessem investidos de algum poder sobrenatural delegado sabe-se lá por quem. Os foras da lei, que sempre reinaram nesse país da impunidade, pensam e agem como se por aqui tudo continuasse como dantes no quartel de Abrantes. Podem estar enganados desta vez.

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