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O golpismo e a simbiose democracia-comunismo

O golpismo e a simbiose democracia-comunismo

Por Osvaldo Bertolino

O atual pico de golpismo é a repetição de uma prática política contumaz no Brasil. A direita, impossibilitada de ganhar eleições honestamente por seu programa de governo, sempre recorreu a esse método e encontrou nos comunistas a mais decidida resistência. Estamos, mais uma vez, presenciando esse embate.

O governo do general Eurico Gaspar Dutra, eleito presidente da República em 1945, representou outro grande desafio para os comunistas. Eles perderam o registro eleitoral e os mandatos, mas deixaram sua marca de abnegados lutadores. Com a derrota da democracia em 1964, que estava sob ameaça pela direita desde Dutra, mais uma vez a luta por liberdade exigiu ações enérgicas, como foi a Guerrilha do Araguaia. Na Constituinte de 1988, quando mais uma vez a democracia foi restaurada, novamente as ideias democráticas dos comunistas estiveram presentes, assim como no combate ao neoliberalismo na década de 1990. E chegamos ao ciclo Lula-Dilma, do qual o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) é um dos esteios.

Clássico e vago lugar-comum

Esse combate recorrente às forças obscurantistas e retrógadas, apoiadas por camadas politicamente informes e obtusas, atualmente atinge mais um pico, sem que se possa dizer quais serão suas sequências e consequências. O que se pode reafirmar com certeza é que a nação — a parte mais viva e consciente do povo deste país — pode estar perto de sofrer um golpe portentoso. Os golpistas, a pretexto de tirar o Brasil da “beira do abismo”, se utilizam do moralismo, clássico e vago lugar-comum, que no caso concreto tomou a denominação mais precisa e mais terrificante de iminente perigo de uma “ditadura petista” — uma derivação grosseira do histórico anticomunismo da direita —, calculada mistificação insuflada pela máquina midiática como manobra política inconfessável, aterrorizando e ludibriando a parcela menos consciente da sociedade.

Esse clássico lugar-comum ganhou força como falsa imagem de uma situação na realidade nada imaginária. O Brasil não está à beira de nenhum abismo; pelo contrário, marcha para frente, um pouco aos trancos e barrancos, à boa moda brasileira, buscando seu próprio caminho de desenvolvimento progressista e independente. Somente os completamente analfabetos políticos e sociológicos podem acreditar nesse perigo. E o golpe, inspirado, ditado, determinado, teleguiado por forças também nada imaginárias, adquiriu a feição de verdadeiro golpe de mágica, se convertendo, ele sim, em perigo real e muito presente. A maneira como essa fantasia se ramificou mostra que a mágica foi montada por especialistas e peritos em prestidigitações.

Obsessão “anti-petista” empesteia o ar

Há boas razões para supor que a sua preparação psicológica decorre de paciente e meticulosa ação conspirativa, ensaiada desde que as primeiras ondas de denúncias de “corrupção” irromperam ainda no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio da Silva. A técnica da mistificação meticulosamente planejada explorou o ódio “anti-petista”, rentável negócio para alguns, arraigado preconceito para milhões. Epíteto agitado na mídia sem cessar, acabou incutido nas cabeças desprevenidas e politicamente vazias. Ataram-no à bandeira brasileira e levaram-no em chacrinhas que desfilaram pelo país, protagonizando espetáculos de grosseria e fascismo escancarado.

Essas manifestações, lubrificadas com fartos recursos dos que transitam na contramão do país e do seu povo, adquiriram um tom furioso, de ódio, para pespegar o rótulo de “petista” em tudo que cheira, de longe ou de perto, a ideias, opiniões, proposições, projetos, programas, reivindicações, em tudo que de alguma forma toca, mesmo de leve, nos aspectos mais atrasados e nos conteúdos mais obsoletos das estruturas econômicas e sociais do país. A obsessão “anti-petista” empesteia o ar, contaminando a opinião pública, desequilibrando as mentes amedrontadas e desavisadas por uma campanha midiática sem escrúpulos, levando pavor aos lares, deixando os nervos em trapos até de pessoas seguras de si.

Passeatas incendiárias

A boataria calculadamente dosada, aliada à denunciamania circense da mídia, forma um espetáculo medonho. Os conspiradores e golpistas, friamente, dão os últimos retoques à mágica para apresentar como nova a receita que vem da campanha abolicionista. Já em 1871, durante os debates do Projeto de Lei do ventre-livre, o gabinete conservador do Visconde do Rio Branco foi acusado, em pleno parlamento, de “governo comunista, governo do morticínio e do roubo”. Em 1884, o governo Souza Dantas, que apresentara à Câmara dos Deputados o Projeto de Lei dos sexagenários, elaborado pelo então deputado Rui Barbosa, foi também chamado de “comunista”.

O deputado Souza Carvalho, defensor radical dos interesses escravistas, disse que o governo era cúmplice de “manifestações subversivas”. O Projeto, segundo ele, não passava de “pretexto para agitação, revolução e subversão social” e para “lisonjear os anarquistas e gritadores das ruas”, favorecendo “as passeatas incendiárias e demonstrações estrondosas”, permitindo “certa associação comunista” que promovia “ruidosa agitação contra uma propriedade legal, em edifícios públicos, no seio de uma escola superior”. Referia-se às manifestações organizadas pela Confederação Abolicionista e pelo Centro Abolicionista da Escola Politécnica.

Os déspotas são ilusionistas

Esses exemplos demonstram que a direita tem pouca imaginação, repetindo sempre as mesmas táticas e práticas. Foi assim também no golpe do Estado Novo em 1937, desfechado sob a alegação da ameaça “comunista” do forjado “Plano Cohen”, e se repetiu no governo do general Eurico Gaspar Dutra com a cassação do registro e dos mandatos do Partido Comunista do Brasil, no segundo governo de Getúlio Vargas, na conspiração fascista contra o governo João Goulart que resultou no golpe militar de 1964. Os golpistas, impossibilitados de ganhar eleições honestamente por seu programa de governo anti-povo, repetem sempre as mesmas acusações e a monotonia enraivecida contra os que lutam por um Brasil independente, progressista e democrático.

Atualmente, toda essa malta de golpistas entoa na mídia e nas ruas o coro infernal, acompanhado por papalvos: petismo, petismo, petismo! É a guerra ideológica em ação, fria e calculada, infiltrando-se violentamente nos cérebros lavados pela repetição de mentiras como se fossem verdades, ludibriados para que aceitem o golpe como algo que vai lhes beneficiar. Não compreendem, fingem não compreender, não querem compreender que os fariseus da politicagem estão usando sua passividade para impor, mais adiante, a política do bico calado, da opinião domesticada, do sim-senhor. Ou seja: precisamente o oposto de qualquer regime medianamente democrático.

Basta ver como o “anti-petismo” é apresentado ao público — tudo sem pé nem cabeça, estórias de bicho-papão, lobisomem, assombração e outras tenebrosas patranhas colocadas nas cabeças de incautos, que ainda são muitos neste país. Enquanto isso, o programa do golpe continua guardado a sete chaves. “Os déspotas sempre foram ilusionistas”, disse o escritor russo Anton Pavlovitch Tchekhov. Os golpistas demonstram isso à sociedade. Certamente, não poucos patriotas, sinceros democratas, sem uma exata compreensão dos processos sociais, se deixam impressionar e influenciar por essa campanha reacionária. O crescimento dessa onda alimentou-se dessas confusões.

Grau de consciência democrática

Nem precisava dizer, pelo que já foi dito, que o golpismo é o exemplo acabado das mais agudas contradições entre a palavra e o ato. Falar uma coisa e fazer outra é a sua regra. Se não fosse assim, não arregimentaria ninguém. Ele desfila com a máscara da moralidade para ocultar a violação de muitas franquias constitucionais e democráticas e sonha em fazer deste país novamente uma terra de mudos, na qual seja crime, como diz o povo, o tugir e o mugir. Não tem outro sentido o terrorismo organizado contra a inteligência brasileira, sob a máscara do “anti-petismo”.

Entre os golpistas, já é regra o horror à cultura, ao estudo, ao livro, às universidades, às bibliotecas, às artes e às ciências. O que tudo isso significa? Medo do debate, da controvérsia, da palavra de discordância aos seus métodos. Medo da opinião pública esclarecida, em resumo. Eles sabem que o povo brasileiro atingiu certo grau de consciência democrática e de apego à liberdade. Por isso, confundir e enganar a opinião pública, apresentando a situação do país como o caos e a degeneração, tem sido o seu método desde as campanhas contra os abolicionistas.

Defesa intransigente da democracia

A essência de tudo está em que as ideias, quando se apoderam das massas, se transformam em força, segundo o pensamento de Karl Marx. Com suas manobras e mistificações midiáticas, os golpistas, sem querer e mesmo sem saber, reconhecem na prática o acerto desse pensamento marxista: a força das suas armas não é suficiente para enfrentar e derrubar a força das ideias ancoradas na consciência popular. Daí a tática da tergiversação, da mistificação, da confusão, da mentira, que tem sido a sua tônica ideológica. Sem ela, o que eles têm é força de ilusão e ilusão de força. A força pela força não resolve nada, é mero instrumento de opressão e despotismo, que só se mantém mediante a mentira e a hipocrisia, ingredientes fatais a qualquer sistema de governo.

Com as coisas postas nestes termos, o reverso da medalha torna-se claro: ao combater o governo da presidenta Dilma Rousseff os golpistas na verdade combatem o desenvolvimento do país, a democracia e o crescente progresso que toma impulso — apesar de ser em meio a hesitações e contradições, o que é natural em movimentos históricos de avanços e transformações sociais. O fato de os comunistas apoiarem resolutamente esse processo prova mais uma vez seu compromisso com a tática marxista, de apoiar, por toda parte e sempre, os movimentos democráticos e progressistas. Eis a chave de sua posição política em qualquer país nos tempos modernos. Eis a base teórica e a explicação prática da sua posição de defesa intransigente da democracia e de luta decidida contra o golpismo.

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