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Os golpistas falam pelo povo? Não, mil vezes não!

Os golpistas falam pelo povo? Não, mil vezes não!

Por Osvaldo Bertolino

A palavra “povo” poucas vezes na história foi tão pronunciada como nesses dias de intensas discussões entre golpistas e defensores da democracia. Falar de seus interesses, de suas aspirações e de suas esperanças, contudo, não é fácil. Fazer discursos e proclamações ao vento é fácil; difícil é interpretá-los em palavras e atos. Falar coisas que não se ligam, de uma forma ou de outra, à dimensão micro da sociedade é fazer demagogia, se utilizar de jogo semântico com segundas intenções, mentir pura e simplesmente. É nessa dimensão que a vida das pessoas acontece. É lá que comemos, trabalhamos, perdemos o emprego, votamos neste ou naquele candidato. Essa é a diferença entre os que defendem a democracia e os que falam pelo golpe. Basta prestar atenção não mais do que cinco minutos em algum discurso na Câmara dos Deputados a favor do impeachment fraudulento, onde os representantes da direita são obrigados a falar sem as maquiagens da mídia.

O ponto mais relevante dessa questão, hoje, é que todas as constituições democráticas, inclusive a do Brasil, dizem que o povo é soberano. Isso quer dizer que o fundamento da democracia é o voto individual de cada um dos milhões de cidadãos legalmente habilitados a votar. Fora disso é golpe, assalto à democracia, crime perante a história e contra o país e seu povo. O problema é que o binômio democracia-povo, não combina com concepções políticas que expressam visões da elite — ou seja, o elitismo. Daí as constantes crises, que se agravam quando as forças progressistas ascendem à condição de principais protagonistas do cenário político.  Por tudo isso, a vida política brasileira não tem tradição de ”pactos” ou de governos de ”união”. Trata-se de uma contradição em si. Ninguém do campo democrático e progressista acha sinceramente que será possível uma “união” da situação com a oposição em torno dos “interesses do país”.

Sociologia culturalesca

Anos atrás, quando o regime militar de 1964 começava a transitar do apogeu para o declínio, o então presidente, general Ernesto Geisel, proclamou sem reservas a tese da “imaturidade” do eleitorado brasileiro — opinião reafirmada por seu sucessor, o general João Batista Figueiredo. Mas o que levou Geisel a manifestar esse pensamento não foi aquele elitismo rombudo que sempre caracterizou os que se imaginam os bem-nascidos do Brasil. Foi um elitismo mais sofisticado.

Justiça seja feita, ele não encampou em sua fala os termos estáticos, quase essencialistas, dos anos 1920 e 1930, tempos áureos do pensamento autoritário e da sociologia culturalesca, distante da realidade do povo, muito presentes nos discursos da direita hoje em dia. Um exemplo disso foi a proposta feita pelo apresentador da TV Globo, Alexandre Garcia, ex-porta-voz de Figueiredo, que na semana anterior ao segundo turno das eleições que reconduziu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República defendeu a tese da aptidão para se obter o título eleitoral.

Também nisto Geisel fez questão de se mostrar olímpico e pedagógico: deu ao elitismo de outrora uma formulação intelectual mais elaborada, postulando que em primeiro lugar deve vir o crescimento econômico, depois o bem-estar social, sendo este, segundo ele, a precondição de um regime democrático sadio. Em vez de vituperar pura e simplesmente a vida político-partidária, via-a como desejável, e até a exaltava, ressalvando porém que ela não poderia ser autêntica enquanto não houvermos alcançado elevados índices de desenvolvimento, e enquanto não tivermos um eleitorado composto de “cidadãos conscientes, racionais, sociabilizados e educados”.

O povo é soberano porque é

Anos depois, esse tema voltou à baila, trazido por ninguém menos que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Contestar a afirmação que lhe foi atribuída tornou-se durante um bom período o esporte predileto de pessoas como eu, pouco afeitas a outros esportes além de torcer para o Santos Futebol Clube, e a discussão parece ter colocado na defensiva os que gostavam de menosprezar a capacidade intelectual do cidadão comum. Mas nem por isso a velha concepção elitista deixou de se pronunciar. É comum ouvir dos golpistas que os baixos índices educacionais do povo são os responsáveis pelas vitórias de Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

A própria expressão “povo”, quando usada para esse fim, soa elitista — reflete a pretensão de alguém que olha de cima para baixo, como se lhe fosse dado o direito de aprovar ou não aprovar o que o ”povo” decide. Querendo dizer que ele, que se imagina soberano, precisa aprovar a decisão soberana. Na democracia, o povo não é soberano porque sabe ou deixa de saber algo. É porque é. Ele é a fonte da soberania, contra o pensamento autoritário tradicional, que invoca algo sobrenatural, metafísico, como fonte do seu poder. É porque encarna o direito de voto, porque vota como entende que deve votar e porque o voto é o único caminho legítimo para quem queira ser investido nas mais altas funções decisórias — regra que deveria valer também para o Poder Judiciário, como ocorre onde imperam democracias mais populares.

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