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O “nós” do povo e o “nós” dos golpistas

O “nós” do povo e o “nós” dos golpistas

Por Osvaldo Bertolino

O que mais se tem ouvido dos líderes golpistas é que eles são contra o governo porque são a favor do Brasil. “Queremos sim que os governantes nos representem bem e lutem para a construção de um país melhor para todos nós”, diz um manifesto de um grupo fascista, porta-voz do golpe. Nós quem, cara-pálida? Em meio à crise política instalada no país, este personagem — o “nós” — emerge com ares de mistério. É a elite, que se julga senhora dos destinos de todos os brasileiros. Quem é, de fato, ela?

Quando se fala de elite, “comentaristas” que se julgam juízes do universo tentam ridicularizar o assunto. Dirigentes políticos conservadores procuram desqualificar este conceito que pode ser chamado de sociológico. E editoriais de jornais fingem desconhecer o seu DNA. Este “sujeito histórico”, no entanto, só é obscuro para quem quer que ele seja. São mais do que óbvios os motivos pelos quais a elite brasileira considera esse assunto um tapete que ninguém pode levantar. Debaixo dele só há corrupção, desmandos e roubalheiras.

O Brasil é um país em que 15 desbravadores chegaram há mais de 500 anos com uma Capitania Hereditária à sua disposição. São eles os ascendentes da elite. Desde então, ela impõe a visão de que a riqueza como fruto de algo escuso é natural. Não é por outro motivo que os ricos brasileiros são vistos como usurpadores, ou gente de mau caráter. Porque — e isso está no imaginário brasileiro — são pessoas que não precisaram trabalhar para chegar lá, que têm ligações escusas com o poder, que não precisam cumprir as leis e jogar pelas regras como todos os outros. Se acham, como na idade das trevas, enviados pela divindade.

Alergia à plena liberdade de expressão

Eles querem fazer os brasileiros acreditar que está tudo normal nas suas relações com o chamado povão. Não está. Na verdade, a situação entre uns e outro talvez esteja em seu pior momento — e, pelo rumo que a coisa vem tomando, parece destinada a piorar ainda mais. São evidentes os laços que unem esse movimento golpista da elite com a plataforma política da direita. Essa gente está tendo uma conduta de caráter golpista por não aceitar os resultados das eleições.

É por isso, e por nenhuma outra razão, que o golpismo mostra um panorama tão negativo do Brasil. Tal cenário é a construção do braço forte da direita, a mídia, que aproveita eventuais equívocos ou desvios isolados de um ou outro agente do governo — às vezes inadmissíveis — para criar a impressão de que existe corrupção sistêmica, desordem e incompetência incuráveis no governo.

Em lugar da crítica construtiva, o que se vê é um panorama de ruínas, baseado em mentiras, falsificações e proselitismos. E quando há contestações a essa toada cínica, a reação é raivosa — uma conduta que comprova a alergia dessa gente à plena liberdade de expressão. Eles não toleram a democracia quando ela é exercida pelos setores populares da sociedade.

Movimento infestado de corruptos

Para os ideólogos elitistas, qualquer um que defenda idéias contrárias ao pensamento democrático e progressista recebe uma espécie de certidão negativa em relação à suspeita de conduta governista. Venha do degrau que vier na escala social, o cidadão que entra na esfera da ideologia da elite deixa imediatamente de ser integrante do “sistema de apoio” do governo — e, portanto, do mal. Assim como a Igreja oferece com o batismo o pronto remédio para o pecado original, na política, no caso do Brasil de hoje, para quem nasceu fora do seu mundo a salvação vem por meio da pronta aceitação das idéias conservadoras. E para os que não querem, ou não conseguem, juntar-se ao movimento e assim ficarem livres do pecado original? Há uma saída bem simples: basta falar mal do governo.

Fica difícil entender, é verdade, como os líderes golpistas conseguem, ao mesmo tempo, denunciar a malvadeza dos “corruptos e incompetentes” e dirigir um movimento infestado de corruptos e incompetentes. Mas e daí? Não é mesmo para entender. O problema é outro. O discurso conservador não é aberto porque ele causaria arrepios. As palavras não estariam muito distantes da pregação ultradireitista na Europa, que defende o que lá se chama de “limpeza social”: o extermínio dos pobres, principalmente se eles forem imigrantes.

Dose considerável de violência

Sua pregação não guarda grande distância das idéias fascistas. A diferença é que na Europa o discurso é aberto e ainda causa indignação. No Brasil, ele é velado. Sabemos que a elite brasileira não adota, desde sempre, a democracia como mola mestra da sociedade. E também não assume ou honra compromissos entre os participantes do jogo democrático. Pobre é pobre, rico é rico — cada qual em seu universo. A zona Sul carioca ignora a zona Norte. Paulistanos dos Jardins não se sentem conterrâneos dos habitantes das periferias da cidade.

Esse fator faz com que as relações de classes sejam permeadas por uma dose considerável de violência. A elite brasileira acredita só ter direitos. Daí o fato de o Brasil ter um longo histórico de instabilidade política. Ao longo do último século, apenas um presidente recebeu o poder de outro teoricamente diretamente eleito e o entregou a outro presidente regularmente eleito: Artur Bernardes, em 1922.

Luta pela verdadeira liberdade da nação

O conceito de democracia como governo do povo ganhou significado de resistência à corrupção e às deformações sociais da direita. As virtudes da igualdade apenas no plano jurídico e da economia guiada pela “mão invisível” do mercado, limites do “país justo” defendido pelos liberais, no Brasil sempre foram palavras ocas. A direita ainda pensa como Hipólito da Costa, que em 1808 fundou o primeiro jornal brasileiro, o Correio Brasiliense — mesmo ano da criação da imprensa no Brasil —, que dizia: “Ninguém deseja mais do que nós (a elite) as reformas úteis, mas ninguém se aborrece mais do que nós que essas reformas sejam feitas pelo povo.”

Ou como o principal líder civil da “revolução constitucionalista” de 1932, o então dono do jornal O Estado S. Paulo, Júlio de Mesquita Filho, para quem “o império da lei e da justiça” só poderia ser restabelecido no dia em que São Paulo voltasse “à sua condição de líder insubstituível da nação”. Mesquita Filho, evidentemente, estava falando de um setor de São Paulo: a elite, representada pelo Partido Democrático (o bisavô do DEM e do PSDB). Fora desse mundo microscópio, para ele tudo o mais era irrelevante e atrasado. “Anulada a autonomia de São Paulo (por meio da revolução liderada por Getúlio Vargas, em 1930), o Brasil se transformou num vasto deserto de homens e de idéias”, disse Mesquita Filho da sacada da redação do seu jornal durante um ato contra a revolução de 1930.

Racistas do Sul dos Estados Unidos

Mesquita Filho estava, na verdade, estimulando o sentimento bairrista da elite paulistana, que se mantêm ainda hoje, como se este “ser paulista” que ele proclamou fosse algo superior aos demais brasileiros. Principalmente aqueles que tomaram resolutamente o partido do povo e pagaram um alto preço pela opção que fizeram. De passagem, dá para lembrar alguns precursores deste partido, como Frei Caneca — que terminou seus dias à frente de um pelotão de fuzilamento —, de Tiradentes — enforcado por defender a independência do Brasil — e de Cipriano Barata — que passou doze anos no cárcere pelo “crime” de criticar os desmandos daqueles que controlavam o Estado.

A lei e a ordem, para essa elite, são os seus preconceitos antidemocráticos sustentados pela ideologia dominante — cuja nascente é o regime das capitanias hereditárias. “Na lei, os burgueses precisam dar-se uma expressão universal precisamente enquanto dominam como classe”, escreveu Karl Marx. A lei universal dos conservadores brasileiros, traduzida pelo pronome “nós”, ainda trata o povo como os racistas do Sul dos Estados Unidos tratavam os negros — segundo a fina ironia do escritor George Bernard Shaw. Primeiro, reduziam os negros, no mercado de trabalho, à condição de engraxates; depois, concluíam que “negro só serve mesmo para engraxar sapatos”.

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