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Indústria petroleira escondeu aquecimento global

Indústria petroleira escondeu aquecimento global

A indústria do petróleo sabe que há alterações climáticas com certeza há mais de 30 anos. Sabiam de tudo e nunca pararam de carregar no acelerador.

A 20 de julho de 1969 Neil Armstrong tornou-se o primeiro ser humano a pisar a lua. A Apollo 11 tornava-se a primeira nave especial terrestre a aterrar noutro planeta. Minutos depois, Buzz Aldrin tornava-se a segunda pessoa a pisar a lua. Apenas três anos mais tarde seria tirada a mais famosa fotografia da Terra a partir do espaço, na missão Apollo 17. Esta foto da Terra, isolada, azul e branca no meio de um imenso negro, com nuvens a cobrirem o continente africano e Madagáscar, ficou conhecida como “Mármore Azul” e ilustrava na perfeição a noção de “nave espacial Terra”, sistema praticamente fechado, sem trocas com o exterior. Viviam-se os “anos de ouro” do capitalismo ocidental, antes da crise do petróleo de 1973 que iniciaria o desmantelamento dos controlos financeiros, a reversão da noção de Estado Social e a preparação para a recessão económica intermitento-permanente em que vivemos hoje. Mas preparava-se ainda algo muito mais grave: a explosão de emissões de gases com efeito de estufa que levaria ao fenómeno das alterações climáticas e do aquecimento global.

As grandes empresas responsáveis pela expansão da hegemonia petrolífera hoje escudam-se no desconhecimento que existia na altura relativamente ao sistema climático e às emissões de gases pela combustão dos combustíveis fósseis (as que reconhecem a existência de alterações climáticas, que são a maioria).

Recuemos. Um ano antes da Apollo 11 chegar à Lua, o Instituto Americano do Petróleo (American Petroleum Institute – API), organização que aglomerava a indústria americana do petróleo, recebeu de dois cientistas de Stanford um relatório chamado “Fontes, abundância e destino dos poluentes gasosos atmosféricos“. Este documento identificava o dióxido de carbono como “o único poluente aéreo de importância comprovadamente global para o ambiente humano, na base de um longo período de investigação científica”. Um dos autores, Elmer Robinson, destacou que as emissões de CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis estavam a ultrapassar os processos naturais de remoção natural de CO2 e que a velocidade de acumulação deste gás dependeria do consumo e exploração de combustíveis fósseis. Como consequências da subida crescente de CO2 na atmosfera, os autores evidenciaram os aumentos de temperatura, o derretimento do gelo do Ártico, a subida do nível médio do mar e impactos ambientais globais. Estamos portanto a falar de um relatório de 1968, entregue às maiores petrolíferas americanas, descrevendo-lhes as alterações climáticas provocadas pela utilização dos combustíveis fósseis. Há 48 anos atrás.

Já em 1957 Roger Revelle e Hans Suess tinham publicado um alarmante artigo, revelando que as emissões de dióxido de carbono dos combustíveis fósseis não estavam a ser totalmente absorvidas pelo oceano. Este previa que o dióxido de carbono se continuasse a acumular na atmosfera, considerando que “os seres humanos estão agora a fazer uma experiência geofísica de grande escala” ao “devolver à atmosfera e aos oceanos o carbono concentrado que estava armazenado nas rochas sedimentares há centenas de milhões de anos”. A Humble Oil, empresa que viria a dar origem à ExxonMobil, publicaria no mesmo ano um artigo no mesmo sentido, da autoria de H. Brannon. Há 59 anos atrás.

As empresas petrolíferas decidiram levar este assunto a sério e investigar o tema. Em 1977 James Black, cientista de topo da Exxon dirigiu-se nos seguintes termos a uma plateia de acionistas: “há um acordo científico geral de que a maneira mais provável com que a Humanidade está a influenciar o clima global é através da libertação de dióxido de carbono da queima de combustíveis fósseis”. Um ano mais tarde, o mesmo Black avisava os restantes cientistas e os gestores da Exxon que se estimava que a duplicação da concentração de CO2 na atmosfera poderia fazer aumentar a temperatura média global entre 2 e 3 graus Celsius, que a precipitação aumentaria em algumas regiões, e que outros locais se tornariam desertos. Seguiu-se mais de uma década em que a Exxon teve um departamento dedicado ao estudo das alterações climáticas.

O Instituto Americano do Petróleo (API) montou uma equipa de investigação chamada Task Force de CO2 e Clima, que começou a operar em 1979. Entre 79 e 83 cientistas de topo e engenheiros da Exxon, Mobil, Amoco, Phillips, Texaco, Shell, Sunoco, Sohio, Standard Oil e Gulf Oil estudaram a fundo a emergente Ciência do Clima, analisando o impacto da ação das emissões de CO2 na atmosfera. A equipa concluiria, durante os seus anos de atividade, que a indústria petrolífera teria que arcar com responsabilidade por reduzir as emissões e identificava como potencial área de negócio a investigação de novas fontes energéticas para utilização global.

No fim dos anos 80, o API deixou de ser um órgão com cientistas para passar a ser uma estrutura de lobbying. A indústria petrolífera já sabia o suficiente acerca de alterações climáticas para saber que a sua divulgação lhe era prejudicial em termos de lucros. A ExxonMobil fundou a Global Climate Coalition, juntando as maiores empresas petrolíferas e consumidoras de combustíveis fósseis do mundo para travar quaisquer esforços no sentido de reduzir as emissões dos combustíveis fósseis. E conseguiu.

A indústria do petróleo patrocinou gigantescas campanhas para desacreditar a ciência das alterações climáticas. Apoiou e estimulou guerras por todo o mundo para poder expandir as suas fontes de matéria-prima. Adquiriu patentes de energias alternativas para suprimi-las. Investiu contra a ideia de energia pública renovável. Quando se tornou inevitável a expansão das energias renováveis, colocou-se em primeiro lugar para adquiri-las, mas nunca deixando de capturar os investimentos públicos para as fósseis, impedindo a sua substituição. Aposta fortemente na exploração não convencional de combustíveis fósseis, no fracking e nas areias e xistos betuminosos. E sabe que há alterações climáticas com certeza há mais de 30 anos.

Sabiam de tudo e nunca pararam de carregar no acelerador. Nos Estados Unidos, procuradores-gerais em quatro estados diferentes lançaram investigações sobre a ExxonMobil e outras petrolíferas por saberem da existência das alterações e terem não só escondido a informação mas promovido campanhas de difamação a cientistas climáticos e escondido os riscos catastróficos da sua atividade durante décadas.

O capitalismo psicopata faz caminho e já pouco nos choca. Precisamos no entanto equipar-nos desta e de mais informações para perceber o quê e quem estamos a defrontar. As empresas que pretendem explorar combustíveis fósseis em Portugal, assim como aqueles que as defendem, por ignorância, por desinformação ou por demência, devem ser travadas. Todas sabem que há alterações climáticas, agora, há 40 ou há 50 anos. E devem ser travadas não só porque os seus contratos são leoninos, porque podem resultar de tráfico de interesses, corrupção ou o que valha. Isso é a mesma coisa que acusar um genocida de ter o carro mal estacionado. Caminhamos para um combate em que, se não acabarmos com as empresas de combustíveis fósseis, elas acabarão, literalmente, connosco e com as gerações futuras. E não se pode exterminá-las? Pode pois. Tem de.

Artigo publicado em sabado.pt a 22 de abril de 2016

Esquerda.net

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