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Meu primeiro Dia das Mães sem mãe

Meu primeiro Dia das Mães sem mãe

Por Osvaldo Bertolino

Hoje, minha alegria é um pouco triste: pela primeira vez, em 54 anos de Dia das Mães, não ouvirei a voz da minha mãe. Voz que me acalentou, que me seguiu, que me orientou, que me chamou, que me alegrou. Voz que nunca se elevou, que nunca repreendeu gratuitamente, que nunca reprovou sem motivo, que nunca se prestou a palavrões. Voz que soava como um oboé, que não precisava das tagarelices das orquestras para ser doce e se espalhar com o vento como se a audição tivesse sabor. Voz de sabedoria, de sensatez, de maestria, de divindade.

Não saberei para quem ligar, porque não ouvirei em nenhum lugar que quem está falando é a Encarnação Sampaio Bertolino. Ficarei em silêncio, talvez quase o dia todo, porque me falta a voz com quem mais gostei de interagir na vida, que me entendia numa interlocução afinada até na respiração. Meditarei sobre o privilégio de ter ouvido aquela voz por tanto tempo, que muitas vezes me salvou de decisões erradas, que, na impossibilidade de me conduzir pelas mãos, me conduziu pela audição.

Pensarei na sua felicidade de ter vivido exclusivamente para a filharada, que para não demonstrar fraqueza muitas vezes sofreu calada. Recordarei que para nos ensinar a vida em certos momentos optou pelo silêncio professoral. Lembrarei que quando ela gritou foi por desespero, extravasando dores da alma, como quando soube da morte do pai ou para chamar algum dos filhos que se perdia nas distrações da vida. Rememorarei suas recordações e vigílias sofridas por não poder estar perto de todos os filhos em todos os momentos, uma mistura de angústia pela ausência e alegria pela presença.

Lamentarei os infortúnios da vida, que cedo me tirou do seu convívio cotidiano, trazendo amarguras para mim e para ela. Me alegrarei por ter tido a oportunidade de dizer várias vezes para ela o quanto eu era grato por sua presença na minha vida, mesmo depois de separados pelos nossos destinos. Recordarei de suas lágrimas na rodoviária, no aeroporto, na janela do carro sempre que eu era obrigado a lhe dizer “tchau” — uma situação que me fazia prometê-la que se ela não sorrisse eu não voltaria mais, e não sabíamos se ríamos ou se chorávamos.

Meditarei o quanto foi importante para a minha vida a forma como ela me tratou na infância, quando aprendi o valor de um abraço, de um beijo, de uma declaração de amor. Revisitarei os dias de tristeza profunda quando ela, em raras vezes, me deixou em casa para se ausentar por algum afazer durante poucos dias, mas compensarei a tristeza com a alegria de ter sido seu companheiro de viagem, como seu guarda costa mirim, durante praticamente toda a minha infância. Reafirmarei a lembrança de nossas últimas conversas, quando lhe agradeci pela milésima vez por seu carinho e atenção e ela respondeu que sua felicidade era ter cuidado bem “de todos vocês” (eu e meus irmãos).

Hoje, ouvirei mais a minha voz repassando o que disse para ela desde que lhe dei o primeiro presente do Dia das Mães. Talvez isso me traga felicidades. Afinal, ela viveu lúcida até os 93 anos de idade — faleceu em 25 de setembro de 2015. A minha maturidade prematura por ter de começar a viver só no mundo aos 17 anos de idade me fez compreender cedo que ela havia me preparado para aquela situação e lhe agradecer muito por isso. Hoje não poderei dizer-lhe isso novamente. Não poderei rir nem chorar com ela. Só poderei lembrar de tão longo e doce convívio e me alegrar por ter tido a felicidade de ver meus filhos conhecer um pouco da sua doçura. E poderei agradecer aos meus irmãos que foram fundamentais nessa convivência prazerosa. Em silêncio, reverencio, por um minuto, a memória da minha mãe.

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1 Comentário

  1. Sr. Bortolino,
    Desde 1992 nao ouço a voz de minha mae nos dias das maes.
    E, mesmo passados 24 anos, minha sensaçao e’ igual a sua. E sera’ ate’ nosso ultimo dia de vida.
    Resta-nos rezar pelas almas delas e nos conscientizar da vontade do Senhor.
    No monento certo Ele nos fara’ as reencontrarmos em outro plano.

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