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Waldir Maranhão e os assaltantes do poder

Waldir Maranhão e os assaltantes do poder

Por Osvaldo Bertolino

A pancadaria violenta da mídia no atual presidente da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão (PP-MA), mesmo depois da revogação da sua decisão de anular a sessão de admissibilidade do processo de impeachment golpista contra a presidenta Dilma Rousseff, é uma prova de que possivelmente o Brasil nunca tenha visto um debate tão raso e tão farisaico quanto este que se estabeleceu em torno desta crise política. Abandonaram a essência da questão — a legalidade ou a ilegalidade do ato de Maranhão — para atacá-lo pessoalmente. Foram revirar até a sua vida famíliar para desmoralizá-lo e jogá-lo à matilha adestrada com as mais requintadas técnicas do exercício da raiva e do ódio.

Na verdade, essa tática de pé no peito e faca no pescoço tem como meta outro alvo. Como no ditado popular, a mídia bate na canga para fazer o boi andar. Mais uma vez, os inimigos do governo empilham razões que escondem o essencial: eles não são contrários aos fatos, mas sim ao que representa a presidenta. São, portanto, adversários, mais do que de uma pessoa, de uma ideia. Em torno dessa premissa, os golpistas formaram um condomínio de direita — nele, os partidos direitistas PSDB, DEM e PPS são os mais agressivos —, com o PMDB, a grande e tradicional frente centrista, indo majoritariamente para a direita, tendo a mídia como síndica.

Tudo isso sob a máscara de “questões éticas”, que não passa de sórdida tática politiqueira. Antiético mesmo é empregar a palavra “ética” marotamente. A campanha desencadeada contra o governo, contudo, tem o mérito de escancarar à nação a extraordinária capacidade da direita de reinventar a realidade para impor seus interesses. Quando se vê Renan Calheiros, o peemedebista presidente do Senado Federal, por meras questões pessoais unindo-se aos tucanos Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e José Serra para desfazer o nó tático dado por Waldir Maranhão, pode-se ter a certeza de que daqui para a frente não haverá limite para a ação golpista.

Duas ficções

O episódio constrói duas ficções. A primeira é que Waldir Maranhão agiu como cúmplice do governo ao se reunir previamente com o advogado-geral da União, José Eduardo Cardoso, um procedimento absolutamente necessário para fundamentar sua decisão, mas apresentado como se fosse um crime inafiançável. Por isso ele teve a vida revirada e está na capa dos jornais e no incessante “noticiário” — melhor seria dizer bagunçário — do rádio, da televisão e da internet como suspeito número um de corrupção. A intenção é fazê-lo assumir esse papel, na forma de renúncia outra atitude parecida qualquer, para desmoralizá-lo ainda mais e jogar mais gasolina na já explosiva crise política para ver se incendeiam de vez a reputação de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva.

A segunda ficção é que se Waldir Maranhão se afastar do cargo ou do seu mandato ele teria melhores condições para fazer sua defesa. Isso é uma falácia. Ele já está julgado e condenado pela mídia. O que realmente importa é usar o espaço político que se abre para fazer o golpe avançar e se consolidar. A estridência da direita responde a uma necessidade de sua ação golpista: diante das evidências do golpe, ela vinha conseguido mobilizar no máximo algumas dezenas de raivosos na mídia e alguns gatos pingados em praças públicas, que serviam de palco para líderes políticos geralmente sem plateia e sem votos, que devem seus mandatos — quando os tem — a manobras sem princípios.

O que se vê na mídia é que o seu panorama de ruínas ganhou ares de Armagedom. Os prognósticos mais tenebrosos continuam sendo atirados ao público de todas as formas possíveis — pela televisão, pelas rádios, pelos jornais, pelas revistas, pela internet. (Quem haverá, por exemplo, de esquecer as expressões faciais de pânico indignado de William Wack ontem no Jornal da Globo?) Há nisso tudo um prejuízo não contabilizado até agora na falência econômica múltipla produzida no Brasil pelo conjunto da obra dos golpistas; é difícil fazer as contas dessa perda no momento, e continuará sendo difícil mesmo depois que o país, em algum dia no futuro, sair da recuperação extrajudicial em que está atolado.

Assaltantes do poder

O prejuízo em questão é o atraso que o Brasil está contratando hoje para seu desenvolvimento de amanhã. A dificuldade em identificar um número capaz de medir com precisão quanto isso vai custar está no nevoeiro que necessariamente envolve cálculos a respeito do que poderia ter acontecido e não aconteceu por obra e graça (mais por graça) dessa gente irresponsável, que só pensa em seus bolsos. E isso vai se traduzir, na prática, em perda de oportunidades, de energia, de mercados, de competência tecnológica, de lugar na fila. O Brasil voltará a funcionar, mais cedo ou mais tarde — mas verá, com frustração, que seu motor não estará rendendo o suficiente para girar na velocidade necessária, como vinha girando.

Por culpa exclusiva dos golpistas, verá à sua frente competidores que ainda há pouco tempo estavam lá para trás e, pior que isso, descobrirá que ficou difícil emparelhar com eles. Vai constatar que outros estarão ocupando os espaços que conquistou no ciclo Lula-Dilma, e aqueles em que precisaria entrar. Vai verificar que perdeu escala. Vai se surpreender com a descoberta de que é um país que deu uma freada brusca apenas porque um grupo de assaltantes do poder ergueu barricadas a fim de impedir a marcha do progresso. Verá que, sob a mira desses assaltantes, arrasta-se como um carro de boi, como foi no passado de subserviência externa, quando a sua missão era pregar o evangelho dos espertos — os mesmos que agora preparam o bote final de sua aventura criminosa.

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