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O neoliberalismo e a tragédia grega

O neoliberalismo e a tragédia grega

Fernando Teixeira dos Santos – Jornal de Notícias

A Grécia voltou a ocupar o centro das atenções europeias. Está em curso o seu terceiro resgate e chegou a altura de avaliar se está ou não a cumprir os objetivos definidos para que possa receber a primeira tranche do apoio financeiro previsto. Várias declarações políticas proferidas no início da semana reconheceram que se registaram progressos. Não surpreende. A retórica do sucesso é a que mais convém pois ninguém está interessado em reabrir mais uma frente de tensão na UE. Já chega a tensão política e financeira provocada pelo afluxo de refugiados e pelos receios de um Brexit. Mas apesar desta retórica do sucesso, os gregos vão continuar a sentir o garrote a apertar. Para receber aquela primeira tranche, os gregos terão que atingir, em 2018, um excedente primário (sem contar com a despesa dos juros) de 3,5% do seu PIB. Novas medidas de austeridade foram decididas cortando pensões e agravando impostos diretos e indiretos. Ao todo 5,4 mil milhões de euros (cerca de 3% do PIB grego). E como há o risco de as medidas não chegarem, os parceiros europeus exigem um plano B com mais medidas. Em suma, o Syriza foi incapaz de pôr termo à austeridade na Grécia.

Nos 17 anos de existência do euro, para o conjunto dos atuais 19 estados-membros, só ocorreu um excedente primário igual ou superior a 3% do PIB em 38 ocasiões das 323 possíveis (12% do total). Nenhuma destas 38 ocasiões se verificou após 2008. Estes números revelam bem que se está a pedir à Grécia que atinja um desempenho orçamental que nunca teve e que poucos países só esporadicamente atingiram. Desde que a crise começou em 2007, o PIB grego caiu 26% e o desemprego atinge 24% da população ativa. Faz sentido continuar a empurrar este país na mesma rota que o conduziu a tal desastre económico?

Perante o desenrolar desta tragédia, e a falta de bom senso a nível europeu, temo o que possa vir de Bruxelas para Portugal. Na próxima semana a Comissão recomendará ao Conselho Europeu o que fazer quanto ao nosso país. O PIB português “só” caiu 5,5% e o desemprego “só” está nos 12%. Receio bem que considerem que, em comparação com a Grécia, isto seja pouco sofrimento e avancem com exigências adicionais que nada terão de razoável. Não precisamos de uma tragédia lusitana. Paul Krugman dizia há dias que “as coisas estão terríveis aqui em Portugal, mas não como há um par de anos”. A situação do país tem ainda que melhorar muito. Mas de forma sustentada. Querer imprimir rapidez excessiva poderá causar um cenário de instabilidade política que acabará por atrasar o ajustamento necessário para pôr fim a tais coisas terríveis.

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