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O pai e suas duas premissas fundamentais

O pai e suas duas premissas fundamentais

Por Osvaldo Bertolino

Sempre hesitei em ser pai. Tanto que comecei a minha produção tarde, com 35 anos. E acho que foi a melhor coisa que fiz. Por mais madura que a pessoa seja, uma responsabilidade desse porte exige muita preparação. Admiro os que têm a coragem de enfrentar essa missão ainda na juventude, mas sempre imaginei que a melhor idade para ser pai é depois dos trinta. Digo isso porque acho a decisão de ter filhos meio egoísta, um desejo de ter alguém para dedicar toda nossa energia, toda a razão da nossa existência, todo nosso amor, toda a nossa vida. No fundo, é isso mesmo.

Pôr alguém nesse mundo estúpido apenas com esse pensamento não é uma decisão correta, na minha avaliação. Ao fazê-lo, devemos ter em mente duas grandes premissas: cumprir o que nos levou a ser pai e lutar contra as injustiças sociais, ajudando a humanidade a ser mais civilizada, consciente e solidária. Conjugar essas duas premissas é o grande desafio de ser pai de verdade. No sentido familiar – não necessariamente biológico – e social do termo.

Mercado global

Infelizmente, nesse mundo estúpido regido pelos instintos mais selvagens do capitalismo, de regressões civilizatórias em larga escala, essas duas premissas enfrentam grandes dificuldades. A regra que vem prevalecendo – e o Brasil do golpe é um exemplo evidente disso – é a de que a felicidade dos filhos depende do valor monetário legado a eles. E assim vai se formando uma grande parcela da juventude como alvo preferido da enorme engrenagem consumista – sobretudo consumista de informações –, um polo oposto à civilização. A cultura, o natural meio de manifestação de rebeldia jovem, parece estar totalmente controlada pela ideia do mercado global.

Tomemos o exemplo da música. Aqui na América Latina, historicamente a música nativa representou uma forma de capital cultural, um veículo para a comunicação de valores e legados históricos de um povo. No Brasil, a geração que amou os Beatles e os Rolings Stones também curtiu Chico Buarque, Elis Regina, Geraldo Vandré e companhia limitada. Hoje, o estilo da música nativa é combinado com letras fúteis para criar o que a indústria chama de “fusion” – a “world music”.

Estupidez explícita

Nas décadas de 1960 e 1970, os anos rebeldes, todo o sistema de valores até então estabelecidos foi posto abaixo. O jovem pacato e seguidor da lei – aliás, lei, dura lei – e da ordem era o retrato do pequeno-burguês alienado, um cidadão politicamente reacionário e culturalmente conservador.

Aquela pessoa de valores contestáveis foi substituída, em grande parte, pelo cidadão ou cidadã que se move sem valor algum, que pauta suas atitudes como uma palmeira ao vento, pelo individualismo sem escrúpulos e conduzido ao sabor das conveniências. Na condição de seguidor do pensamento hegemônico da sociedade, ele ataca a urbanidade e todo esforço de coexistência sem canibalismo social. Ou seja: é um protótipo do ser neoliberal em sua plenitude, como vemos nas manifestações de estupidez explícita nas arruaças dessa gente nas ruas e nas redes sociais.

Felizmente, essa geração que está sendo formada por uma estupenda gama de informações advindas das novas tecnologias de canais de comunicação não absorve somente coisas descartáveis e venenosas – apesar de ser meios com conteúdo majoritariamente comercial, conservador e anti-democrático. Ou seja: o protótipo neoliberal não reina absoluto. As ideias que moldam esse ser podem até se manifestar aqui e ali, mas são combatidas e é assim que deve ser.

Estamos indo bem

Essa geração digital, podemos chamar assim, vai tomar as rédeas dos povos e, muito provavelmente, chacoalhar regras e certezas estabelecidas. Para ficar ainda no exemplo da música, há muita coisa boa circulando entre a juventude. Mesmo com enormes dificuldades de divulgação, jovens produzem cultura de alto padrão e conquistam simpatizantes para as ideias de fraternidade e de luta por uma sociedade avançada e progressista.

Às vezes, essas ideias aparecem até em grupos de boa inserção na mídia, como é o caso desse trecho de uma música do Jota Quest, um porta-voz dessa geração no Brasil: “Macacada reunida/Galera pelejando e dançando/Procurando uma saída (…) que tá faltando emprego no planeta dos macacos”. Ou seja: a ideia da pessoa que não conseguiu um emprego, mas mantém o bom humor, a alta ironia e o bom astral. Esse jovem só pode ser combativo. Acho que, apesar dos pesares, estamos indo bem.

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