O lugar de Lula na história

Osvaldo Bertolino

Como nos tempos de Getúlio Vargas, nunca se vira tanta ignomínia, tamanha crueldade no aviltamento, tão grande sanha para ferir um homem

Desde que o mundo é mundo, prever o futuro tem sido um desafio constante. Da cigana que lê a mão aos videntes e futurólogos de todos os matizes, ainda não se conheceu ninguém que fosse capaz de predizê-lo regularmente e com precisão. Seria demasia, portanto, esperar que os “analistas” políticos desses tempos golpistas formassem um gênero diferenciado e mais eficaz de pitonisas. Eles sempre erram, e isso qualquer observador do mundo político que se preze sabe. Mas, convenhamos, suas bolas de cristal talvez poucas vezes estiveram tão turvas quanto agora. Em sua esmagadora maioria, as previsões feitas para o comportamento das pesquisas eleitorais mostraram-se disparatadas e são desmentidas dia a dia pela realidade.

Desde que Lula entrou em cena com chances reais de ser presidente da República, nas eleições de 1989, ele se mantém no topo das pesquisas de popularidade. E só não venceu três disputas que enteceram sua vitória em 2002 porque prevaleceu o jogo sujo da direita. Contra Fernando Collor de Mello foram as baixaria da Rede Globo de Televisão e contra FHC, em 1994 e 1998 foram, além dos ataques midiáticos, as fraudes do caixa dois. Depois, quando ele assumiu a Presidência da República, a direita passou a usar a tática “sangrá-lo”. Mantiveram o impeachment sempre à vista — como uma bomba atômica para assolar e não para matar, segundo FHC — e regularam o fogo do denuncismo de acordo com suas conveniências, montando a farsa do “mensalão”.

Regras do jogo democrático

Era uma nítida contenda  entre a ética e a picaretagem, o debate político e o proselitismo, um espetáculo circense de atores com papéis bem definidos que levaria o Brasil para frente ou para trás. Foi para trás. A farsa do “mensalão” evoluiu para uma farsa muito maior, gigantesca, a Operação Lava Jato, e o país chegou ao trágico golpe de 2016, talvez o mais sujo da história brasileira.  Foi um ato em que os líderes da oposição nem precisaram aparecer — os ataques ficaram a cargo dos prelados da mídia, de economistas de direita e de adivinhos profissionais que vendem seus serviços como “analistas”. Conseguiram imobilizar o governo da presidenta Dilma Roussef e tomaram o Estado de assalto.

Formalmente, tínhamos uma democracia robusta. A questão é que o conceito de democracia baseia-se, em poucas palavras, na aceitação das regras do jogo tidas como razoáveis para todos. Num país onde um número muito grande de cidadãos acha que os ganhos econômicos não estão sendo compensadores, essas regras serão constantemente questionadas. Sempre haverá, por conseguinte, uma crise latente no sistema. De um lado, os trabalhadores, com as conquistas sociais, habituaram-se à busca do ganho na proporção do trabalho realizado e da produtividade. De outro, a direita não deixou de entender o Brasil como a extensão de seu umbigo. Esse pano de fundo da luta de classes no Brasil começou a ser tecido quando Getúlio Vargas tomou o poder por meio da revolução de 1930.

Sujeito, predicado e objeto direto

Daquele ano até 1980 — apesar da violenta interrupção do projeto desenvolvimentista com o golpe militar de 1964 — o Brasil destacou-se pelo extraordinário dinamismo de sua economia, passando da categoria de exportador periférico de produtos primários à de país industrial médio. Mas a partir de 1981, principalmente em decorrência das políticas implementadas pelo regime militar, perdemos o fôlego. Por que o Brasil parou desde então é questão que merece ser analisada em primeiro lugar politicamente. Entre 1930 e 1964 o Brasil experimentou um modelo de desenvolvimento que envolvia forte intervenção do Estado na economia. Os militares tentaram mudar esse rumo mas o êxito dos liberais só chegaria efetivamente quando Fernando Henrique Cardoso (FHC) assumiu o poder em 1995.

Pela primeira vez, desde 1930, o projeto da direita no Brasil passou a ter sujeito, predicado e objeto direto. FHC foi eleito no vácuo da reviravolta no cenário mundial, quando a experiência socialista soviético se esfarinhou e o projeto social-democrata deu seus primeiros sinais de fraqueza. E, para ajudar, existiam os trilhos políticos adequados, construídos no regime militar. Aí foi só encaixar a figura de FHC, cuidadosamente esculpida para assumir a direção daquele processo depois do fiasco de Collor de Mello. Mas a luta política — reflexo da luta de classes — é incessante. E ela se agudiza quando o povo se aproxima dos canais de manifestação cívica, as urnas eleitorais.

Torpezas são moeda corrente

Os que encaram as campanhas eleitorais — não as eleições, que são um mero episódio final das campanhas — como algo que não opera transformações enganam-se profundamente. Sempre existe saldo positivo no debate político, na participação do povo nos destinos do país. Os defensores do status quo sabem disso e tudo fazem para que as eleições ocorram sem campanhas eleitorais. Preferem os pleitos às campanhas; preferem atos eleitorais simbólicos, espaçados, indiretos e eleitorado despolitizado ao exercício pleno da democracia. Desprezar o valor das campanhas eleitorais, portanto, é uma posição politicamente ingênua. E numa sucessão presidencial o combate ganha satus de vida ou morte — nela estará em jogo nada mais do que a decisão sobre se seguiremos ou não pelo caminho iniciado por Vargas em 1930 e interditado pela era militar-FHC-impeachment fraudulento (a eleição de Lula em 2002 foi, inegavelmente, um sinal de retorno a esse caminho).

Há, no entanto, um fato decisivo a se considerar: em uma campanha eleitoral, as torpezas são moeda corrente. As primeiras manchetes do que viria a ser a sórdida onda de ataques ao governo Lula, por exemplo, representou uma espécie de ordem unida para o avanço da direita com a farsa do “mensalão”. Ou seja: soou a voz do dono. Desde então, o que se viu foi a repetição da sordidez outrora usada contra Vargas — que o levou ao suicídio. Como naqueles idos, nunca se vira tanta ignomínia, tamanha crueldade no aviltamento, tão grande sanha para ferir um homem a quem seus acusadores, sem autoridade para sê-lo, só podem imputar o “crime” de pretender encurtar as distâncias sociais existentes em nosso país. Desde a sanha contra Vargas, nunca se viu tanto ódio, tanta torpeza, tantos insultos contra uma pessoa que nada fez para merecer isso tudo.

Viseiras dogmáticas

O que está se passando com Lula é ignóbil. Dia a dia, ultrajam-no mais. Nem a sua família lhe poupam. A mídia e seu agrupamento de fascistas da Lava Jato já cometeram todos os desmandos, ultrapassaram todos os limites, romperam todas as convenções. Nada ficou de pé. E a cada um dos desatinos parece que a única preocupação é superar os anteriores. Seus “analistas” têm o único objetivo de criar um coro alucinado na toada fria e implacável das invectivas, atacando aquele que merece todo o respeito da nação. O objetivo confesso é fazer Lula parecer uma criança órfã, desamparada de pai e mãe. Para tanto, se aproveitam de suas próprias criações, como é o caso da corrupção, para vender a ideia de que o país precisa de um salvador da pátria. E assim criam dificuldade para o eleitorado definir o voto.

O que alguns representantes do povo — falo dos verdadeiros, dos que o são de fato — aparentemente ainda não entenderam é que a sucessão presidencial não pode ser medida apenas segundo o candidato (seus traços biográficos, suas características, seus pendores). O mais importante é levar em conta a composição de forças que o lançam ou apoiam, o programa com o qual se compromete, seus laços com o regime democrático — ainda que no nível a que esse regime atingiu em nosso país. Um candidato honesto em suas convicções. A honestidade é ponte segura para as mudanças. E é essa ponte que dá a Lula o direito de pleitear mais quatro anos na Presidência da República. Só não enxerga isso quem, de um lado, está munido de viseiras dogmáticas.

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