O papel do trabalho nas revoluções industriais

Por Osvaldo Bertolino

As três fases de desenvolvimento industrial da história produziram complexidades crescentes nas relações de trabalho e de produção, acirrando as contradições entre as classes fundamentais do modo de produção capitalista. Atualmente, uma onda regressiva impõe desregulação, desemprego e redução salarial, a par de um gigantesco salto de produtividade.

O historiador Eric Hobsbawm diz que, entre as décadas de 1980 e 1990, uma era se encerrou e outra começou, impulsionada pela onda batizada de “Terceira Revolução Industrial”. Ao analisar o mesmo fenômeno com a invenção da máquina a vapor dos séculos XVII e XVIII, Karl Marx afirmou que o homem não suspeitava que estava criando um instrumento mais poderoso do que qualquer outro, que iria subverter as condições sociais em todo o mundo. “Quando James Watt anuncia em 1735 sua máquina de fiar, e com ela a Revolução Industrial do século XVIII, ele nada fala disso, mas simplesmente de uma máquina para ‘fiar sem dedos’”, disse Marx.

No caso mais recente, houve uma reconfiguração do mapa geopolítico com o fim da “era soviética”, no curso de uma reestruturação produtiva que interferiu nos dois polos do modo de produção capitalista — o capital e o trabalho — e fez países do elo mais fraco da “globalização neoliberal”, como o Brasil, entregar as chaves de muitos símbolos históricos do seu capitalismo para ícones do mercado mundial. Cunhou-se até a denominação “nova economia”, que seria a utilização maciça de softwares e da virtualidade. Mas não havia mocinhos nesse terreno dominado por atiradores profissionais.

Com o projeto neoliberal, os Estados nacionais da geografia econômica e política do elo mais fraco foram reduzidos a meros figurantes ou a reles gerentes do entreguismo, sem condições sequer de estender a mão aos que foram para o olho da rua, formando um exército de desempregados superior ao da crise de 1929. Na outra faixa, igualmente castigada pelo desemprego, muros e xenofobia foram erguidos contra aspirantes a trabalhador clandestino. Em toda parte, a propaganda ideológica passou a difundir a falsa tese de que que a oposição trabalho e capital ganhara novo sentido com o fim da dicotomia Washington-Moscou.

A resposta neoliberal à crise do fordismo keynesiano, considerado incapaz de levar o sistema adiante, na verdade representou uma regressão civilizatória em grande escala. O monstruoso desemprego talvez seja a face mais visível dessa constatação, um dilema dos saltos produtivos que, até onde se sabe, vem de quando o imperador Vespasiano ordenou a reconstrução do Capitólio romano no século I. Conta o historiador Selônio que um artesão propôs a ele a utilização de máquinas que levariam de forma rápida e barata as colunas de pedra até o alto da colina e o imperador teria recusado a oferta, respondendo: “Que me seja permitido dar de comer aos mais pobres.”

De certa forma, a trajetória do pensamento capitalista está dividida entre os que raciocinam como o artesão romano e os que pensam como Vespasino. Entre os dois há, evidentemente, a história proletária e suas teorias. Na Inglaterra do início do século XIX, que emergia como a grande potência econômica do planeta, os trabalhadores — inclusive crianças — eram acorrentados às máquinas e trabalhavam 14, 16 horas por dia. Essa realidade mudou com da organização dos trabalhadores. Contribuíram para isso, em grande medida, as teses de Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lênin.

Contribuíram também os ludistas, os socialistas utópicos — e mesmo Frederick Taylor, Jules Henri Fayol e Henry Ford. Estabeleceu-se a tríade “8 horas de trabalho, 8 horas de sono e 8 horas de lazer” como padrão para os trabalhadores do século XX. Entre 1950 e 1970, diz o historiador Eric Hobsbawn, o mundo viveu seus anos de ouro: o desemprego manteve-se em níveis relativamente baixos, a expectativa de vida aumentou no mundo todo, a produção de alimentos e bens manufaturados quadruplicou. Foi também o período em que os trabalhadores obtiveram suas maiores conquistas no mundo capitalista — em grande parte, embaladas pelos ventos que sopravam de Moscou —, inimagináveis pelo proletariado europeu descrito por Marx e Engels no século XIX. No Brasil mesmo pode-se dizer que a brisa moscovita contribuiu para a moderna legislação trabalhista da Revolução de 1930, agora destruída pelo golpe de 2016.

Ao virar a moeda do modo de produção capitalista, contudo, compreende-se melhor as causas dessa regressão civilizatória. “Como legislador privado, o capitalista formula seu código de fábrica, caricatura da regulação social, um sistema de punições sobre os salários com o qual o contramestre faz o papel do antigo condutor de escravos”, escreveu Marx. O problema tem origem no próprio conceito de trabalho. Em O Capital, ele diz: “O trabalho é, antes de tudo, um ato que se passa entre o homem e a natureza.”

Seu significado histórico foi brilhantemente analisado por Engels no seu artigo O papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, de 1876. “A natureza proporciona os materiais que o trabalho transforma em riquezas”, escreveu. “Mas o trabalho é muito mais do que isso: é o fundamento da vida humana.” Engels diz que a formação do homem e da comunidade primitiva aconteceu na medida em que se formava o próprio trabalho humano como processo que gasta uma quantidade de energia física, nervosa e mental para se criar os produtos necessários à sua existência.

Para satisfazer as necessidades vitais, o homem foi obrigado a aperfeiçoar constantemente os instrumentos e os hábitos de trabalho. “O próprio trabalho foi se diversificando, aperfeiçoando-se a cada geração e estendendo-se a novas atividades”, disse Engels. “A agricultura surgiu como alternativa à caça e à pesca, e mais tarde apareceram a fiação e a tecelagem, a manipulação de metais, a olaria e a navegação.” Com o desenvolvimento do trabalho, emergiram novas relações sociais, o comércio, as profissões, as artes e as ciências.

Vieram depois o direito, a política e a religião. “Porém, se o homem levou milhares de anos para aprender, de certa forma, a prever as remotas consequências naturais relativas aos processos produtivos, mais tempo levou para aprender a calcular as longínquas consequências sociais desses mesmos atos”, disse Engels. “Os árabes, quando descobriram a forma de destilar o álcool, não poderiam nem de longe imaginar que estavam forjando uma das principais armas de extermínio da população indígena no continente americano. Mal sabia Colombo, ao descobrir a América, que estava fazendo ressurgir a escravidão, extinta há muito na Europa, além de estar estabelecendo novamente as bases para o tráfico de negros.”

Chegaram também as alterações nas relações de produção. Antes o artesão produzia as mercadorias e o consumidor vinha ao seu local de trabalho fazer a encomenda. Leo Huberman, na obra História da riqueza do homem, relata que Willian Petty, famoso economista do século XVII, pôs em palavras aquilo que já estava ocorrendo nas relações sociais. “A fabricação da roupa deve ficar mais barata quando um compõe as fibras, outro fia, outro tece, outro puxa, outro alinha, outro passa e empacota, do que quando todas as operações mencionadas são canhestramente executadas por uma só mão”, teria dito Petty.

Do século XVI ao século XVIII, os artesãos independentes da Idade Média desapareceram e em seu lugar surgiram os assalariados, cada vez mais dependente do capitalista. Deixaram de existir, assim, as fases primitivas da organização industrial, que começaram com o sistema familiar, no qual seus membros produziam artigos para consumo próprio, e não para o mercado. Era o princípio da Idade Média. Mais tarde surgiu o sistema de corporações, com os trabalhadores donos tanto da matéria-prima quanto dos instrumentos de trabalho, que se transformou em produção destinada a um mercado maior — com a diferença de que o artesão, embora ainda proprietário dos instrumentos de trabalho, dependia de um empreendedor que surgiu entre ele e o consumidor.

Nascia o sistema fabril, cuja produção para um mercado cada vez maior era realizada fora de casa, nos edifícios do capitalista e sob sua rigorosa supervisão. “Um número de operários bastante considerável sob o comando de um mesmo capitalista, esse é o ponto de partida natural da produção capitalista”, disse Marx. “Quando o capital se apropriou da máquina, sua conclamação foi: ao trabalho, mulheres e crianças”, escreveu. “O operário agora vende mulher e filhos: transformou-se em mercador de escravos.” Na fábrica, nas palavras de Marx, “o esqueleto da produção é constituído pela cooperação das máquinas”. Assim nasceu e se desenvolveu a Primeira Revolução Industrial.

A substituição das máquinas a vapor por outras movidas a eletricidade e à combustão interna fóssil, denominada Segunda Revolução Industrial, na virada do século XIX para o século XX, impulsionou outro salto espetacular da produtividade — a produção de mais valor com menor tempo. Associada à uma reestruturação fundamental dos processos de trabalho, seguindo uma avalanche de novas tecnologias de racionalização produtiva, promoveu alterações profundas no cenário econômico. O taylorismo na linha de montagem da Ford mudou radicalmente o modo como as empresas produziam bens e serviços. O transporte foi acelerado. A eletricidade forneceu energia barata e abundante para impulsionar o processo produtivo.

Segundo o escritor americano Jeremy Rifkin, no livro O fim dos empregos, a produtividade aumentou continuamente desde a virada do século. Em 1904, eram necessárias 1.300 horas/homem para construir um carro. Em 1932 era possível construí-lo com menos de 19 horas. Entre 1920 e 1927, a produtividade na indústria americana aumentou em 40%. Ao mesmo tempo, mais de 2,5 milhões de empregos desapareceram.

As vendas caíram dramaticamente e, para tentar recuperá-las, os empresários organizaram o “Departamento da Prosperidade”, para exortar o consumo. A cruzada para transformar os trabalhadores americanos em consumidores de “massa” ficou conhecida como “evangelho do consumo”. O marketing, que até então havia desempenhado papel secundário nos negócios, assumiu nova importância. Embalagens e marcas foram adotadas; até então, a maioria dos armazéns vendia gêneros de primeira necessidade em barris e a granel.

Em 1929, com a quebra do mercado de ações — o crash da Bolsa de Nova Iorque —, o mundo mergulhou na mais sinistra depressão da era moderna. Mesmo diante dos sinais da crise, contudo, os capitalistas preferiram embolsar o lucro extra total obtido com o aumento da produtividade a transferir uma parte na forma de aumentos salariais. Henry Ford sugeriu que os trabalhadores fossem melhores pagos para que pudessem comprar os produtos, mas seus pares preferiram ignorar o conselho. O sistema estava preso a uma contradição: sem saída para a crise que se agravava, muitas empresas continuaram reduzindo custos com a substituição de trabalhadores por máquinas.

Em plena depressão, o economista britânico John Maynard Keynes publicou o livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, que iria alterar o modo como os governos regulariam a política econômica. Numa passagem, ele advertiu para um novo e perigoso fenômeno cujo impacto poderia ser aprofundado nos anos seguintes: “Estamos sendo acometidos de uma nova doença da qual alguns leitores talvez ainda não tenham ouvido falar, mas sobre a qual ouvirão falar muito nos próximos anos: o ‘desemprego tecnológico’. Isso significa desemprego como resultado da nossa descoberta de meios de economizar mão-de-obra, superando a velocidade com que podemos encontrar novos usos para ela.”

Em O Capital, Marx também comentou o desenvolvimento industrial por esse viés. “Sob sua forma máquina (…), o meio de trabalho se torna imediatamente o concorrente do trabalhador. A máquina cria uma população supérflua, isto é, útil para as necessidades momentâneas da exploração capitalista”, escreveu. Engels fez o mesmo na obra Do socialismo utópico ao socialismo científico. “É a força da anarquia social da produção que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano (…). A expansão dos mercados não pode desenvolver-se ao mesmo ritmo que a produção. A colisão torna-se inevitável”, escreveu.

Entra, nesse diagnóstico, o sistema taylorista, complementado pelo fordismo, como grande impulsionador da produção, sistematizado pelo engenheiro americano Frederick Taylor em seu livro Princípios da administração científica. Usando um cronômetro, ele dividiu a tarefa de cada trabalhador nos menores componentes operacionais e mediu cada um para formular técnicas de economizar segundos preciosos no processo de trabalho. Herry Ford complementou a ideia com a linha de montagem movida a volante magnético.

Vladimir Lênin, o líder da Revolução Russa de 1917, considerou o taylorismo uma aquisição científica. “Deve ser colocada na ordem do dia o aproveitamento do muito que há de científico e progressista no sistema taylorista, observando a proporção entre o salário e o resultado geral da produção”, escreveu ele na obra As Tarefas Imediatas do Poder Soviético.

A proporcionalidade entre salário e lucro, na produção capitalista, a busca desregulada da produtividade, é o motivo central das críticas a esse sistema, mais conhecido como “fordismo”. Charles Chaplin, no filme “Tempos modernos”, retratou o homenzinho esmagado pela linha de montagem. Aldous Huxley, no livro O Admirável Mundo Novo, imaginou um futuro no qual os homens seriam tolhidos pela coerção e desnorteados por uma nova religião. Assim como Antônio Gramsci, no seu conhecido trabalho O Americanismo e o Fordismo. “Será que o tipo Ford de indústria e a organização fordista do trabalho e da produção são ‘racionais’?”, indagou.

Esse sistema é considerado superado por outras modalidades de organização do trabalho, apesar da corrida produtivista permanecer inalterada. Muito disso se deve à Terceira Revolução Industrial, considerada iniciada imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento de rudimentos automatizados que vinham da primeira máquina de calcular automática inventada por Blaise Pascal, em 1642.

O primeiro computador digital programável foi inventado em 1941 pelo engenheiro civil alemão Konrad Zuse. Em 1944, cientistas americanos inventaram um computador programável, o Mark-I. A máquina tinha mais de 15 metros de comprimento por 2,5 de altura. Foi apelidada de “o monstro”. Victor Del Harder, vice-presidente da Ford, criou, em abril de1947, o “Departamento de Automação” (pela primeira se ouviu falar em “automação) para aumentar o uso das tecnologias como a hidráulica, a eletromecânica e a pneumática. Começava-se a falar da “fábrica automática”. A revista Fortune anunciou que a “ameaça de máquinas operadas sem trabalhadores está mais próxima do que nunca”. A “ameaça” tornou-se realidade no início da década de 1960, com a introdução do computador na fábrica.

Enquanto o sistema taylorista-fordista desfrutava de um sucesso irrestrito, a empresa automobilística japonesa Toyota, lutando para recuperar-se dos efeitos da Segunda Guerra Mundial, experimentava uma nova organização da produção, baseada em grupos de trabalhadores que se autocontrolam, logo expandida pelo mundo. De acordo com o livro A máquina que mudou o mundo — uma publicação que explica o estudo “Programa Internacional de Veículos Automotores” sobre a indústria automobilística mundial, do Massachusetts Institute of Technology, que durou cinco anos e abrangeu 14 países — o “toyotismo” fez o mundo ingressar numa nova era.

A dualidade do desenvolvimento industrial — o lucro e o salário — é o grande dilema da produtividade. Na inclinação natural do capitalismo, a tendência é a eliminação de empregos, a desregulação das relações de trabalho e a redução salarial. Não é um fenômeno cíclico, a curva subindo ou descendo, como os índices das bolsas de valores. Tampouco conjuntural, ou passageiro. É estrutural. Enfrentá-lo é o grande desafio. Nas palavras de Marx: “As transformações sociais nunca se realizam graças à fraqueza dos fortes, mas com a força dos fracos.”

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