Com vocês, Tina e Themba — ou, o PT “moderno” e o PT antigo

Por Osvaldo Bertolino

Tina e Themba não é dupla sertaneja. É uma tirada que li em algum lugar. São os dois partidos que teriam sobrado à medida que a “globalização” foi estreitando a margem de manobra dos governos nacionais. Tina (There Is No Alternative — não há alternativa) seria o partido da situação — o dos resignados, dos que se imaginam “realistas” e dos que já se sentem à vontade neste admirável mundo novo “global”. Themba (There Must Be an Alternative — deve haver uma alternativa) seria a oposição: o partido dos que insistem em que há outro caminho, embora por enquanto não saibam nem por onde devam começar a procurá-lo. O confronto entre “tinistas” e “thembistas” se manifesta com intensidade no Partido dos Trabalhadores (PT).

Os “thembista” abriram largos sorrisos com a vitória de Lula em 2002. Mas logo entraram em atrito com os “tinistas”. Desse confronto, o que chama a atenção é a debilidade, não o vigor desse partido. Como ainda estamos a pouco tempo da eleição presidencial de 2018, é claro que esse quadro pode se alterar. Mas parece inegável que o PT chega manifestamente dividido a este acontecimento importante na vida nacional. Esse quadro de debilidade petista sugere importantes indagações. Será o PT uma combinação aleatória de tendências políticas sem correspondência com a estrutura de classes do país? Este partido estará fora de combate em 2018? Bastam cinco minutos de reflexão para ver que essas não são hipóteses convincentes.

Choque de interesses internos

O PT vive um dilema, é certo. Uma prova disso é a atuação petista nas renhidas polêmicas a respeito da política econômica e da política exterior do governo Lula. Este partido ainda tenta definir claramente uma posição a favor das forças interessadas no desenvolvimento do país. Há uma nítida divisão nesse sentido, luta que existiu também dentro do aparelho do Estado — os governos Lula e Dilma realizaram uma política econômica híbrida, que refletiu o conflito entre as necessidades de desenvolvimento e as concessões ao capital especulativo. Dadas as condições políticas existentes, essa contradição foi até compreensível, mas o PT, para manter o papel de principal força política do campo progressista, será forçado a definir melhor o rumo.

O Brasil já está em pleno choque de interesses internos. Recrudesce a luta das correntes progressistas por soluções patrióticas para os problemas políticos, econômicos e financeiros do país e, de outro lado, as forças direitistas dão sinais evidentes de que fazem do golpismo a sua principal bandeira. Ou seja: entramos numa fase de acentuação dos obstáculos ao desenvolvimento do país, fato que forçará as correntes políticas a se definirem por um ou por outro campo. Embora cresça e se firme a luta progressista, ela ainda não se traduziu, efetivamente, num grande movimento capaz de unificar no plano político as diversas correntes que a exprimem.

Sacrifícios aos trabalhadores

Em face da diversidade das correntes e tendências progressistas, que se identificam por certos objetivos comuns mas se distinguem por posições ideológicas e políticas, quaisquer tentativas de adotar formas rígidas de organização e direção poderiam estreitar o alcance do movimento. Amadurece, no entanto, a coordenação das diversas correntes progressistas em função de objetivos comuns, respeitadas as características e a autonomia de cada uma. A realidade parece indicar que o primeiro passo seria definir um conteúdo programático capaz de construir um fator de unidade e aglutinação de diferentes tendências.

O próprio aprofundamento da contradição entre a nação e a dependência ao imperialismo suscita a necessidade de soluções capazes de unificar a ação política das correntes patrióticas. A indefinição de uma política progressista — ou a sua formulação apenas em termos de slogans gerais — pode conduzir a equívocos como o de identificar a luta pelo desenvolvimento do país sem antes romper as linhas golpistas para a volta da democracia. Em certa medida, tal equívoco verifica-se agora em um setor do PT, identificado com a sectária tese de candidatura única da esquerda. Antes disso, a realidade impõe um movimento que vá além das eleições. A candidatura — ou candidaturas — deve servir a esse propósito. Aí está uma grande questão a ser resolvida.

O PT parece parece ter ultrapassado aquela tentativa retardatária de aggiornamento (modernização), que levou partidos de esquerda, sobretudo europeus, a apresentar resultados catastróficos. Seria uma adaptação ao conservadorismo macroeconômico, que se auto-define como a única via capaz de modernizar o país. Mas não pode, agora, cair no outro extremo. No Brasil, há um movimento de intolerância à “esquerda atrasada”. É uma marcha forçada do pensamento único neoliberal, para quem só existe liberdade e democracia dentro de seus modelos de sociedade — o que lembra as passeatas de 1964, as Marchas com Deus pela Família e Liberdade que saudavam o enterro do comunismo e purgavam temores na doação de alianças de ouro para salvar as finanças da nação.

Projeto de união nacional

É o canto da sereia. Na verdade, a direita rancorosa sabe que a união das forças progressistas ameaça o staus quo. O que é aceitável seria uma “esquerda democrática”, que expresse um movimento no sentido de se adequar a um mundo que não é mais aquele do Estado desempenhando papel importante na economia e garantindo os direitos da Constituição de 1988. Por isso, a esquerda tem urgência em diagnosticar corretamente os seus próprios problemas e fazer, com eficiência e justeza, o que deve ser feito. Só assim se avança de verdade.

Não existem freiras no mundo da disputa política. A renovação que os governos Lula e Dilma trouxeram produziu o milagre da incorporação de uma esquerda combativa à direção do Estado, coisa jamais vista por estas bandas da Terra. Essa construção política assumiu a iniciativa dos debates e ganhou o direito de ser tratada como um protagonista entre iguais. Daí a intolerância da direita. O problema, para os golpistas, não é apenas que o ex-presidente Lula continua desfrutando de bons índices de popularidade. É que, para apresentar-se como alternativa programática consistente, ela precisa redefinir todo o campo do debate. Como fará isso? O confronto entre “tinistas” e “thembistas” no PT deveria convergir rapidamente para a formação de um projeto de união nacional, uma frente ampla, contra o golpe.

1 thought on “Com vocês, Tina e Themba — ou, o PT “moderno” e o PT antigo”

  1. E no momento , a principal base de sustentação sócio-politica que sustentava as bandeiras do PT hoje se acha enfraquecida , fruto de um longo período de dormência , acalentada em passado recente com os dois governos petistas, Lula e Dilma. Isto é o que hoje fragiliza a demanda anti-golpe pois o PT sozinho sem seus antigos aparados fica um tanto enfraquecido para acompanhar a ascendência de Lula . Haveria saídas com a maciça participação dos filiados e simpatizantes atendendo é claro a conclamação do partido que até agora não se manifestou.

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