A morte de Papai Noel

Por Osvaldo Bertolino

O Natal se escondeu no desvão da vida. As luzes continuaram acesas, mas sem brilho. As músicas continuaram sendo tocadas, mas sem melodia. A vida seguiu em frente, mas sem o colorido de antes. A vida se renovou, se revigorou com os amores, a prole, as letras e as ideias, mas há o vazio. Ele foi criado, cavado e imposto pela brutalidade do imponderável, justamente quando as circunstâncias nos enchem de alegrias, nesta época do ano em que as almas derramam ternura.

A ternura se foi, a vida morreu, o tempo se tornou arrastado. Era preciso buscar outros tempos, criar novas perspectivas, andar… viver, numa definição. E sem vida. Faltava a fome, o sono, a sede, a gana de viver. Havia uma ravina que precisava ser transposta. Onde buscar forças, energia, motivos? Na metafísica não havia a mais remota possiblidade; nunca me passou pela cabeça a possibilidade de que algo surgisse de uma ideia que para mim não existe. O cinza do cotidiano avançava e eu no meio, caminhando a esmo.

A alternativa seria parar, voltar, sumir. Mas para onde? Para quê? Que fazer? Quem estava comigo? Ninguém! Naquele mundo com um mundo de gente não existia uma alma sequer que pudesse me dar um bálsamo. Teria de recomeçar do zero, refazer o trajeto dos afetos, da sociabilidade. Reaprender os caminhos da vida e o cadenciar dos passos para não cair em abismos. Seria uma nova percepção das sensações do tato, do olfato, da audição e do paladar. Do viver.

Reiniciei a caminhada recorrendo às convicções filosóficas, às reservas de forças interiores e ao acumulo de fraternidade que angariara. Em pouco tempo estava revigorado, retomando o ritmo de um andante destemido e mais consciente de que o mundo precisa mudar. As cores voltaram parcialmente, a alegria se reinstalou timidamente. Mas o vazio do meu irmão Cláudio, morto brutalmente aos 27 anos de idade, em 7 de janeiro de 1995, segue comigo. Desde então, Papai Noel nunca mais existiu.

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