No “Dia do Fotógrafo”, conheça a história de Augusto Malta

Durante mais de meio século, alagoano clicou obras do prefeito Pereira Passos e o cotidiano da cidade, tornando-se um de seus maiores cronistas visuais

Frima Santos – O Globo

O alagoano Augusto César Malta de Campos nasceu em 14 de maio de 1864, filho de pai escrivão, e aprendeu a ler e a escrever com o padre da paróquia local. Inquieto, foi para Recife ser militar, mas ainda não era isso que queria. Chegou ao Rio de Janeiro em 1888, com 24 anos e, até se descobrir fotógrafo, foi de tudo um pouco: soldado, auxiliar de escrita em um armazém, guarda-livros, comerciante de secos e molhados e comerciante de tecidos. Colecionou fracassos em todas essas tentativas. Naquela época, chegava uma novidade à cidade: a bicicleta. Para poder continuar a vender tecidos comprou uma. Um amigo que queria o veículo lhe propôs uma troca: a bicicleta por uma outra novidade — a máquina fotográfica. Pensou uns dias, e aceitou. Continuou vendendo os tecidos a pé, mas nos fins de semana saía pela cidade fotografando amadoramente.

A importância da fotografia tornou-se tamanha a ponto de merecer um dia em sua homenagem, comemorado em todo o mundo, à exceção do Brasil, em 19 de agosto, data da apresentação do dagarreótipo na Academia de Ciências da França, em Paris, em 1839. No Brasil, o Dia Nacional da Fotografia e o Dia do Fotógrafo são festejados em 8 de janeiro, quando a novidade foi trazida ao país por Louis Compte e mostrada no Rio a Dom Pedro II, em 1840. O imperador acabou se tornando um entusiasta da fotografia.

Em 1903, outro amigo o apresentou ao então prefeito do Distrito Federal, Pereira Passos. Este, nos mesmos moldes de Haussman em Paris, estava resoluto em colocar a cidade no século XX e precisava de um fotógrafo que registrasse a entrada do Rio na modernidade. Desse encontro saiu o fotógrafo oficial da cidade, encarregado de documentar logradouros, demolições, desabamentos, inaugurações, ressacas, alagamentos e o que mais estivesse por vir. Documentar em imagens uma prefeitura que queria entrar para a História. As fotos do desmonte do Morro do Castelo — atual Esplanada do Castelo, no Centro, são famosas. Suas fotos são uma verdadeira viagem por uma cidade em transformação.

Mas Malta foi além. Encantado pela nova profissão, fotografou prostitutas e prostíbulos, famílias e casamentos, carnavais, favelas, bêbados e bares. Em 1905, foi contratado pela The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Company Limited, a Light, onde trabalhou até 1930, produzindo imagens que vão da iluminação pública à implementação dos bondes elétricos.

Começou a ficar conhecido pela cidade, carregando sua máquina — um caixote pesado sobre um tripé de madeira que registrava os negativos em vidro. Magro, galanteador, sempre sem colete e com um enorme laço preto no lugar da gravata, óculos com armação de tartaruga e chapéu panamá, era uma figura peculiar. E lançou moda, ao usar óculos de armação de tartaruga, no lugar das hastes de metal, lançados pelas Casas Madureira. Em entrevista ao O GLOBO de 1 de agosto de 1936, Augusto Malta fala sobre obra:

— Eu era em photographia sómente um sofrível amador. Mas eu era um admirador da energia e dos planos desse homem unico (Pereira Passos) no Rio de Janeiro, (…) deixei-me seduzir por esse enthusiasmo, aceitando a funcção consolando-me de qualquer futuro fracasso com a reflexão de que entendia pouco de photographia, mas o velho Passos ainda entendia menos. (…) Enthusiasmado dediquei-me de corpo e alma a nova funcção. Deante do nada de photographia que eu sabia, esforcei-me por conquistar o muito que agora sei. Embora uma funcção secundária e lateral, eu me orgulhava de dar minha cooperação para a gloria de uma grande obra. Ella precisava de uma documentação fiel e indiscutível que só as boas photographias poderia proporcionar. Assim, o sofrível amador comprehendeu a sua responsabilidade, procurando ser o melhor photographo profissional possível. (…) bati mais de mil chapas, formando um archivo que julgo representar um magnífico documentário da história da cidade, numa época em que ella sofria as mais radicais e profundas tranformações.

Malta foi casado duas vezes e teve oito filhos, dos quais quatro morreram de tuberculose e quatro sobreviveram: Dirce, Amalthea, Ariel e Aristógiton Malta. O último foi o único a seguir o ofício do pai e tornou-se mestre na fotografia panorâmica. Embora tenha se aposentado em 1936, ele continuou a fotografar, só parando pouco antes de morrer, em 30 de junho de 1957, aos 93 anos. Seu acervo está em sua maior parte no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, no Centro Cultural da Light e no Instituto Moreira Salles, e pode ser pesquisado gratuitamente.

Augusto Malta fotografou tanto que há hoje quem diga que ele fez bem mais que 30 mil imagens em toda a sua vida. O escritor e fotógrafo Pedro Karp Vasquez disse ao jornal, na edição de 17 de maio de 2009, que “ele foi, com certeza, o primeiro cronista visual da cidade, além de um dos precursores da visão jornalística”:

— Teve uma produção gigantesca sobre a vida cotidiana e, para preservar a qualidade, foi fiel à chapa de vidro enquanto todos já tinham passado para o suporte flexível da gelatina.

Muito além da reforma de uma cidade ou do cotidiano dela, Malta retratou a modernização numa época em que isso era o futuro. Um novo século, uma República recém chegada — a proclamação não tinha nem dez anos de vida quando ele começou a fotografar. Isso tudo através de uma profissão realmente nova. Sem ele, se saberia muito menos sobre as primeiras décadas do Rio do início no século XX. Para além da evolução urbana é difícil ficar indiferente à cidade olhando as fotos de Malta. Mesmo que tão distantes desse tempo, todo carioca de alma tem um imenso saudosismo de um Rio que não conheceu. O maior feito de Malta está em transformar imagem em poesia. De mostrar uma cidade resiliente. Uma cidade que insiste em ser bonita.

* com edição de Matilde Silveira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *