Ela saiu por aí… E daí?

Por Osvaldo Bertolino

De cabeça erguida, espinha ereta, a mente quieta e o coração tranquilo, andou por 20 minutos. Por onde passava chamava a atenção. Os homens olhavam-na com aquele semblante de quem viu um extraterrestre, com a boca semiaberta, as sobrancelhas ligeiramente erguidas e os movimentos de braços e pernas em câmera lenta. Mas nenhum ousou um “fiu-fiu”, um gracejo, uma ousadia qualquer. As mulheres, por conseguinte, olhavam-na com um misto de inveja e admiração.

Não era aquele “mulherão”, dessas que dizem por aí ser um “monumento”. Tampouco estava vestida com a elegância que as revistas ditas femininas impõe como modelo único — que, sinceramente, considero uma feiura. Não desfilava em cima de saltos elevadíssimos, desses que fazem a mulher ter uma bunda que nem sempre corresponde à aparência. Também não estava maquiada com essas máscaras que a gente vê por aí, que fazem o favor de esconder a deliciosa originalidade do rosto feminino.

Os olhares eram uma espécie de fila; o olhar de um despertava o olhar do outro, de outro, de outro… de outra, de outra… E ela marchava, impávida, com o colosso que a natureza lhe brindou, espalhado em seus um metro e sessenta e pouco de altura. Parava, olhava as vitrines, se distraía com alguma sinalização, observava os transeuntes, um ou outro carro lhe chamava a atenção… Mas nada que lhe tirasse a concentração. Todos olhavam-na com a interrogação: quem é e o que quer essa dama? Havia algo que magnetizava os que punham os olhos nela. O que seria?

Nada além do que sempre deveria ser. Ela estava consciente e convicta do seu direito de ser mulher, de olhar para quem quisesse, de ir na direção que bem entendesse. Depois de andar por 20 minutos, se deu conta de que era observada não como um objeto, um ser como tantos outros da natureza cuja destino é servir sem ser servido. Foram 20 minutos em que ela reinou como todas as mulheres deveriam reinar: desfilando seu charme, seu delicioso perfume, sua gostosura sem as incômodas perturbações deste cruel mundo machista.

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