O mundo de Luis Fernando Veríssimo e Chico Buarque de Holanda

Deuses
O show do Chico no Rio tem sido uma apoteose depois da outra
Luis Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo
Candide, o otimista da obra de Voltaire, pergunta a seu amigo Martin “para que fim foi formado o mundo?”. Martin, um pessimista, responde: “Para nos enfurecer”. É uma teoria da Criação original, a de um deus que montou um universo inexplicável só para nos sacanear. Não faltam razões para nos desesperarmos não apenas com a impossibilidade de decifrar o cosmos como a de entender a miséria, a injustiça, a doença, as guerras, a morte, o Donald Trump e a má fase do Internacional. No Brasil, enfurecemo-nos diariamente com o que o deus sádico de Martin nos apronta. Com a mediocridade dos nossos políticos e das nossas elites e com a hipocrisia permeando tudo – sem falar no Gilmar Mendes.
E no entanto… Tem tanta coisa boa acontecendo no Brasil, principalmente na área das artes onde o talento determina tudo – apesar da pouca verba e de um claro descaso oficial pela cultura -, que dá para acreditar que haja um outro deus, este bem-intencionado, do nosso lado. Há semanas eu estava numa apresentação da maravilhosa Mônica Salmaso com uma orquestra de câmara formada por jovens da periferia de São Paulo, e pensei: tem que haver um jeito desse Brasil, o Brasil do talento e do engajamento social, impor-se no Brasil dos medíocres. Não vai ser fácil. (A orquestra de câmara dos jovens estava fazendo sua última apresentação, por falta de apoio.) Mas não nos enfureçamos. O show do Chico no Rio tem sido uma apoteose depois da outra. O público ovaciona o talento do Chico e o outro Brasil que ele representa.

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