Esquerdismo e direitismo na esquerda: faz sentido?

Osvaldo Bertolino, Portal Vermelho, 11/6/2003
Empresários de um lado, trabalhadores de outro. Os primeiros representados pelo patrão de cartola e charuto e os segundos representados pelo operário sujo de graxa empunhando um martelo ou uma foice. Esses símbolos não deixaram de expressar a relação entre capital e trabalho como engrenagem básica das sociedades capitalistas mas os conceitos de “esquerda” e “direita” têm servido também para caracterizar concepções no campo da esquerda. No recente 8º Congresso da Central Única dos Trabalhadores (CUT), por exemplo, por coincidência ou por capricho a ala esquerda do plenário foi ocupada pelos delegados que se auto-intitulavam de “esquerda” – os do MTS (Movimento por uma Tendência Socialista, com ascendência do trotsquista PSTU), da Alternativa Sindical Socialista (ASS), de correntes petistas minoritárias e de pequenos grupos que também reivindicam as concepções de Trótski. Conseqüentemente, do outro lado estava a “direita” – que seria basicamente a Articulação Sindical.

Esquerda e direita são conceitos que se formaram, possivelmente, como analogia às posições que os parlamentares ocupavam na Assembléia Nacional, em Paris, logo após a Revolução Francesa. Nas galerias à esquerda da mesa diretora ficavam os jacobinos, radicais quanto ao fim da monarquia e quanto aos rumos da Revolução. À direita ficavam os girondinos, que defendiam posições mais moderadas e não simpatizavam com a idéia da França transformada em república. Já no século XIX, quando a maioria dos países havia trocado a monarquia de base feudal pela república baseada no liberalismo, direita passou a representar a defesa dos valores conservadores, como a tradição familiar e a propriedade privada dos meios de produção, e esquerda a crítica a esses valores. Quando os projetos socialistas e capitalistas passaram a disputar a hegemonia política e econômica do planeta, no século XX, a denominação de esquerda coube aos marxistas e a de direita aos liberais.

Esquerda passou a significar o projeto de modificação da estrutura republicana arquitetada pela desigualdade social e do sistema econômico baseado na propriedade privada das forças produtivas. Seu ideário reivindica a precedência do trabalho em relação ao capital, da propriedade social em relação à propriedade privada dos meios de produção. E direita tomou o significado de manutenção do status quo do sistema econômico e político sustentado pela correlação de forças favorável aos capitalistas. Seu ideário advoga a primazia do capital em relação ao trabalho, da propriedade privada em relação à propriedade social dos meios de produção. É verdade que entre uma e outra apareceram tendências moderadas, que preconizam a conciliação, a construção de um modelo de sociedade capaz de trazer a relação entre capital e trabalho da truculência patronal para o acordo, da instabilidade litigiosa do capitalismo para o equilíbrio negociado social-democrata.

A tese “radicalmente reformista” de Genoíno

O problema é que essa conciliação contraria a natureza de um modelo de sociedade fundado num agudo conflito de classes expresso pelos interesses de quem vive do trabalho e de quem vive do lucro do capital. Desde que o homem deixou de ser nômade e passou a criar e acumular riqueza, esse conflito entre explorados e exploradores tem estado no âmago das relações econômicas, políticas e sociais. O capitalismo é apenas o capítulo mais recente dessa história. Já nos organizamos para produzir, depois do modelo de comunitarismo primitivo, principalmente em regimes escravista e feudal. Mas é no regime capitalista que esse conflito atinge seu ápice. Nele afloram todas as contradições das sociedades calcadas na divisão de classes e a clareza da dicotomia entre revolução e reação – que de certa forma estabelece o fio condutor entre os pensamentos estratégicos dos jacobinos e dos girondinos no pós-Revolução Francesa.

Sobre esse assunto, reina uma grande confusão na esquerda. O presidente do PT, José Genoíno, por exemplo, disse num seminário para explicar o governo Lula às delegações estrangeiras realizado durante o Congresso da CUT que seu partido é “radicalmente reformista”. Genoíno fez, evidentemente, uma alusão às “reformas” do Estado que tramitam em Brasília, mas fundamentada numa corruptela. Segundo o presidente do PT, seu partido pensa assim porque ele representa a “esquerda democrática” e se diferencia da esquerda “dogmática”, que defende a “revolução armada” – de onde ele veio. “O PT me mudou”, disse. Como se sabe, Genoíno pertenceu ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e participou da Guerrilha do Araguaia entre o final dos anos 60 e início dos anos 70. Ele confunde as coisas. Já na década de 50 o Partido Comunista debateu essa questão quando surgiu a idéia do “caminho pacífico” para a revolução.

Teoria da revolução a curto prazo

Carlos Danielli, dirigente do PCdoB assassinado pela reação em São Paulo quando exercia o papel de principal elo entre a direção do Partido que estava na capital paulista e no Rio de Janeiro e a Guerrilha do Araguaia, escreveu na “Tribuna de Debates” do 5º Congresso do Partido, que se realizou em 1960: “Esta questão (o caminho pacífico ou violento para a revolução) não depende só do proletariado, mas, principalmente, das forças que se opõem ao progresso (…). Aliás, a experiência do nosso povo é de que os grandes momentos históricos nacionais são precedidos de duras lutas, inclusive pelas armas, embora a solução final nem sempre tenha sido através da luta armada” (Testamento de Luta – A Vida de Carlos Danielli, página 81). O que Danielli estava dizendo, no fundo, é que a luta de classes ganha contornos diversificados conforme o momento histórico.

Em outras passagens do acirrado debate no Partido que varou quase toda a segunda metade da década de 50, ele tratou desse assunto com muita sagacidade. Danielli criticou muito o “abstencionismo eleitoral” e “a teoria da revolução a curto prazo”. “As eleições não eram consideradas (pelo Partido) como uma importante forma de luta”, escreveu ele (página 74 do mesmo livro). Danielli estava criticando a passagem desse “esquerdismo” para o adesismo eleitoral “direitista”. “(…) Quando tentamos corrigir os erros de direita, caímos em posição esquerdista. E ao combater esta, incorremos em desvios oportunistas de direita (…). É difícil localizar o oportunismo, seja ele de direita ou de esquerda. O primeiro se esconde sob a máscara da amplitude e o segundo sob a fraseologia revolucionária. Mas um exame atento pode nos levar à essência dos fenômenos que aparecem na superfície”, disse (páginas 73, 75 e 76).

Diálogo e incentivo à produção

Para Danielli, a questão da frente democrática encerra uma contradição que precisa ser bem compreendida. “A pretexto de defender a unidade da frente única, há camaradas que temem levantar as reivindicações populares ou dar-lhes conseqüências nas lutas. Vêem só o aspecto da unidade (…) e esquecem da luta. Há outros que só vêem a luta e esquecem a unidade. Unidade e luta são dois momentos de um só processo dialético que deve ser levado com vistas a fortalecer a frente única, processo inconcebível se não visar dar base de massas à aliança estabelecida”, escreveu (página 77). Ainda sobre a tática eleitoral para acumular forças, Danielli disse: “Ao mesmo tempo em que se alia com a burguesia nacional (…), o proletariado luta contra ela em defesa de seus interesses. Aliança com a burguesia e luta ideológica contra a burguesia (…)” (página 68).

Essa é uma contradição presente entre as forças e correntes políticas que apóiam o governo Lula e pode ser traduzida em duas questões básicas. Primeira: quem são e o que querem os empresários que apóiam este governo? É preciso lembrar que Lula não era, inicialmente, o candidato dos sonhos da maior parte do empresariado. Em julho de 2002, a revista Exame consultou os presidentes de 100 das 500 maiores empresas do Brasil e obteve o seguinte resultado: 71% apoiavam o tucano José Serra e, como segunda escolha, aparecia Ciro Gomes. Lula tinha apenas 1%. Os meses passaram, Serra não decolou, a candidatura Ciro Gomes inflou e murchou e Lula foi se aproximando dos empresários. Estabeleceu-se, então, a aliança com o centro político e a interlocução com os empresários brasileiros resultou no seguinte pacto: como o governo FHC não deu atenção ao setor produtivo, privilegiou o mercado financeiro e arrefeceu o crescimento econômico, Lula deu a eles a esperança de diálogo com o Planalto e incentivo à produção.

Desenvolvimento com valorização do trabalho

Segunda questão: ao apoiar um governo assim a esquerda revolucionária assume que onde existia a chama da revolução haverá a partir de agora um desejo sereno de mudanças? De início, é preciso dizer que a dicotomia entre revolução e reação não desapareceu. Como vimos acima, ela é intrínseca ao capitalismo. Mas, como disse Danielli, não é correto ter uma teoria transformadora estática, que enxerga só o curto prazo. Ninguém que advoga a teoria marxista e leva em conta toda a sua experiência do século XX pode imaginar que o desenvolvimento econômico não é benéfico aos trabalhadores. Essa é uma bandeira que une um largo apoio no espectro das forças que apóiam o governo. O apoio dos empresários a esse desenvolvimento pode, por exemplo, até implicar em defesa de mudanças radicais – como é o caso da grita contra os juros altos, expressa principalmente pelo vice-presidente José Alencar. É que na outra ponta da corda estão as forças da reação, tendendo a defender a manutenção do cenário estabelecido pelo neoliberalismo.

Eis a configuração política deste governo: centro-esquerda. Essa convergência pontual de interesses entre empresários e trabalhadores, entre o centro e a esquerda, possibilita, em conseqüência, o diálogo para, por exemplo, dar combate unitário a uma tendência neoliberal que perdura na política monetária do país. Há, evidentemente, entre as forças políticas que apóiam Lula uma boa dose de enfrentamento. Nesse ambiente, a conceituação de esquerda e direita renova seu significado. Faz sentido, portanto, as denominações de “esquerdismo” e “direitismo” na esquerda. Os primeiros só vêem a luta e esquecem a unidade. E os segundos só vêem a unidade e esquecem a luta. A posição mais conseqüente da esquerda é a que advoga um pensamento que considera o todo e busca na unidade e na luta as condições para aumentar e distribuir a riqueza, que eleva a qualidade de vida à condição de prioridade econômica – sintetizada na formulação “desenvolvimento econômico com valorização do trabalho”.

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