A Maringá fictícia de Sérgio Moro e do professor Marcos Danhoni, no DCM

Por Osvaldo Bertolino

Marcos Danhoni, professor-titular da Universidade Estadual de Maringá, onde nasceu (também nasci na Cidade Canção), em artigo no Diário do Centro do Mundo (DCM), intitulado “A vida é bela e estranha em Maringá, a cidade do Paraná onde nasceu Moro”, faz um estranho diagnóstico sobre o comportamento da população local. A primeira controvérsia aparece quando ele diz que a cidade, “de inspiração inglesa, tem largas ruas e avenidas, grandes praças e ampla arborização (perdendo em área verde somente para a cidade de João Pessoa, na Paraíba)”. As evidências são de que a arborização maringaense supera à da capital paraibana. Veja aqui.

A segunda controvérsia é de que, após a dizimação dos cafezais nas “geadas negras de 1975 e 1979  a cidade também se beneficiou do arroz e, mais tarde, da cultura da soja”. Na verdade, depois da primeira geada não sobrou um pé de café na região e a produção de arroz sempre foi restrita a pequenas plantações basicamente de subsistência; predominou, após a geada de 1975, além da soja, o trigo e o milho. Diz ele ainda que a cidade “cresceu rapidamente e, hoje, é a terceira maior cidade do Estado (perde para a capital, Curitiba e Londrina)”, o que é verdade.

E seguem as controvérsias! Fala ainda que “Maringá tem uma história política interessante, sempre aliada de poderosos, incluindo um arcebispo, hoje falecido, muito próximo dos militares que destruíram a democracia brasileira no pós-1964”. Sim, dom Jaime Luiz Coelho, o primeiro arcebispo de Maringá, falecido em 2013 aos 97 anos de idade, era conservador e foi o idealizador da belíssima Catedral Nossa Senhora da Glória, inspirada no foguete soviético Sputnik II, maior ícone de Maringá e um dos maiores templos da América Latina. Também criou a Faculdade Estadual de Ciências Econômicas, que mais tarde se tornaria a Universidade Estadual de Maringá (UEM). E fundou uma TV e um jornal.

Marcos Danhoni afirma que o arcebispo vendeu seus veículos de comunicação “para os barões da elite local, que hoje monopolizam a informação: o jornal para um ‘repórter’ de coluna social e a TV para uma grande retransmissora da Globo”. O ponto é: isso é uma particularidade maringaense? Ele dá a entender que sim. Diz também que “a cidade é sede de família de coronéis, especialmente uma família com sobrenome de hebdomadário (não entendi) e outra da matéria original da Criação (mas no plural…) — os Barros, que tiveram no patriarca Silvio Barros prefeito pelo MDB em meados da década de 1970, no atual ministro da Saúde Ricardo Barros prefeito na onda Collor de Mello (sua esposa, Cida Borghetti, é vice-governadora) e no seu irmão Silvio Barros II prefeito nesta década.

A questão principal no artigo de Marcos Danhoni é que o juiz da Operação Lava Jato Sérgio Moro também nasceu na cidade e induz o leitor a acreditar que ele é um típico produto local. “Maringá tornou-se um curral eleitoral e município propagador do ódio que hoje campeia no país. Transformou-se numa cidadela como a do filme ‘A Vila’, dirigido por M. Night Shyamalan e estrelado por Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt e Sigourney Weaver. Tal como na fita, os maringaenses vivem a ilusão de habitar num lugar exclusivo, imiscível do resto do país (um de seus prefeitos, por dois mandatos, chegou a compará-la, na Veja, a Dallas, nos EUA…)”, escreve ele.

O autor não explica o que teria feito de Maringá esse singular antro de lavajatistas. Parece algo sobrenatural, uma maldição do além ou alguma misteriosa predestinação. Também não aponta em qual base se fundamentou para dizer que os maringaenses são diferentes dos curitibanos, portoalegrenses, paulistanos, belorizontinos etc. “A população é mantida sob o domínio extremo do temor ao comunismo, das leis do consumo exacerbado, da música sertaneja, e da ilusão de que aqui todos são ricos e de ‘primeiro-mundo’”, diz ele, revelando uma face exclusiva da cidade tão recôndita que eu, com 55 anos de andanças por lá, nunca vi.

Claro, tem tudo isso, mas não há o menor indício de que seja algo diferente de São Paulo, por exemplo. Cá como lá, ou lá como cá, há “o domínio extremo do temor ao comunismo, das leis do consumo exacerbado, da música sertaneja” (a noite maringaense, como a paulistana e outras, tem também samba, MPB, choro…). Outra: quem comparou Maringá a Dallas foi a Veja, uma matéria de maio de 1999 que até hoje é motivo de polêmica na cidade. Essa citação “de um de seus prefeitos” não consta.

Matéria da revista Veja, edição de maio de 1999

Também há por lá, segundo Marcos Danhoni, uma “única coisa que embaça essa ‘visão’”, que “são os inúmeros negócios fechados (cerca de 30%), os imóveis de aluguel às moscas, a mendicância nos faróis, os indígenas vendendo seus artesanatos na rua, o grau crescente de criminalidade”. Bom, quando vou de São Paulo para lá — e faço isso constantemente — e vejo essa situação fico imaginando como a crise atinge muito mais os paulistanos do que os maringaenses.

Marcos Danhoni descreve cenas do “maringaense” que comemorou a queda de Dilma, as decisões de Moro, a condenação de Lula, mas não cita que recentemente, em 13 de janeiro de 2018, o lançamento do Comitê de Defesa de Lula e da Democracia na Câmara Municipal reuniu muito mais gente do que o ato da direita, na Praça da Catedral, no mesmo dia e horário, organizado pelo MBL e a Associação Comercial e Industrial de Maringá (além da Maçonaria, o Rotary, o Lions e outras entidades conservadoras), uma polarização que ganhou dimensão nacional.

Há outras afirmações com o mesmo teor (como a de que “por trás do lustro, Maringá é uma cidade que abriga uma classe média que se caracteriza pela alta sonegação fiscal, pela audiência de repórteres policiais sempre mancomunados em programas televisivos e radiofônicos com os políticos de plantão” — sem citar que essa é uma característica de todas as cidades — e que são encontrados “muitos veículos com adesivos de mensagens xenófobas como ‘O SUL É O MEU PAÍS’” — cena presente em muitas cidades sulistas), descrições de comportamentos fúteis de “bacanas” e ironias ocas, como a “genial ideia de se usar um caminhão do Exército como ônibus turístico”, o que a rigor não é verdade.

Segundo ele, “os maringaenses” (assim mesmo, todos nós que somos de lá) têm uma seleção natural quando se trata de indignação com os episódios do mundo político, com uma categórica predileção pela direita, ao mesmo tempo que nos divertimos nos “belos parques muito arborizados”. “Na Praça da Catedral se reúnem para protestar contra as coisas de sempre. Aos sábados e domingos, templos evangélicos ficam em festa exorcizando o diabo e arrancando dízimos dos fiéis. Assim são os dias em Maringá, a desilusão da humanidade”, conclui, talvez atestando que desconhece outras cidades do país.

Minha visão de Maringá

Nasci no que hoje é a Região Metropolitana de Maringá, na zona rural da simpática cidade de Marialva, num distrito chamado São Luis. Meu pai e sua numerosa filharada tocaram lavoura de café até a fatídica geada de 1975, quando nos mudamos para a cidade (primeiro Sarandi, depois Maringá). Fui pisador de “geada fria”, como dizíamos, e puxador de enxada até os 13 anos de idade. Além do conhecimento da vivência, estudei muito a história maringaense e descobri coisas impressionantes sobre o povo local. Uma delas é a vigorosa luta dos trabalhadores.

O sindicalismo rural ganhou impulso em Maringá com a chegada de José Rodrigues dos Santos, em 1956, para dirigir a União Geral dos Trabalhadores (UGT) local, que logo se transformou no primeiro sindicato do Norte e Noroeste paranaense. A entidade nasceu sob a orientação do Partido Comunista do Brasil (PCB), que comandava uma guerra de guerrilha em Porecatu, quando camponeses se levantaram em armas contra os latifundiários da região e as forças governistas.

Em 1961, o sindicato de Maringá já era a organização rural mais forte do Paraná. Em agosto, a cidade recebeu o 2º Congresso dos Lavradores e dos Trabalhadores Rurais do Paraná, que reuniu mais de dois mil delegados e várias autoridades — entre elas Nestor Duarte, representante do presidente da República, Jânio Quadros, e Francisco Julião, liderança nacional das Ligas Camponesas. Para contrapor-se ao evento progressista, a Igreja Católica organizou outro, de caráter conservador. A confrontação transpôs o terreno político e descambou para o conflito de rua, com cenas de pugilato e quebra-quebra.

Os operários de Maringá também têm uma bela história de lutas, iniciada no segundo semestre de 1967, quando chegou o advogado trabalhista Edesio Passos e sua esposa, a socióloga Zélia Passos, militantes da Ação Popular (AP). O plano era reanimar as lutas camponesas, seguindo a tendência de guerra popular no campo que a organização havia assumido, a partir do movimento operário. A cidade, então com mais de 120 mil habitantes, cercada de uma grande quantidade de municípios com populosas áreas rurais, oferecia as condições perfeitas para a tática da AP.

Um ano depois, em outubro de 1968, estourou a greve operária que agitou Maringá. A paralisação fazia parte de um plano nacional da AP, cumprido com sucesso na cidade. Edesio e Zélia trabalharam intensamente para organizar sindicatos e entidades estudantis.

Após o Ato Institucional nº 5, decretado pela ditadura militar em 13 de dezembro de 1968, a AP se reorganizou no Paraná. Tendo como centro o Comando Regional, a organização criou dois Comandos Seccionais: o denominado Canudo, com atuação no Sul do estado, e o Roseira, abrangendo o Norte e o Noroeste, com as subdivisões Ouro (Maringá), Prata (Londrina) e Melado (Goioerê).

Além desse histórico, a cidade, como tantas outras, têm um perfil social que traduz a realidade brasileira, evidentemente com traços locais. Não há dúvidas de que há singularidades — Maringá tem sido eleita a melhor cidade grande do país para se viver (veja aqui) —, mas não se pode pôr todos seus habitantes no mesmo balaio. Há uma forte organização sindical, existem partidos de esquerda organizados, elegeu, na década de 1990, um prefeito do PT (o popular José Cláudio Pereira Neto) e possui uma grande classe trabalhadora.

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