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Publicamos uma recensão do mais recente livro de Fred Goldstein, colaborador assíduo de odiario.info. Toda a análise marxista é hoje necessária não apenas para compreender o desenvolvimento da crise geral do capitalismo actualmente em curso, mas também para formular as perspectivas de uma saída anticapitalista para este quadro. E ainda mais quando a reflexão de Goldstein incide em particular sobre a principal potência, os EUA.
O Capitalismo num Beco Sem Saída (*) é o expressivo título de um livro publicado este ano nos EUA que analisa a presente crise do capitalismo mundial de um ponto de vista marxista. Centrado sobretudo na situação dos EUA, o livro mostra o significado da destruição de emprego e da sobreprodução numa era de alta tecnologia e grande produtividade do trabalho. Uma obra que, a partir da actualidade, aborda não apenas os aspectos económicos da crise mas também os movimentos sociais e políticos que ela está a gerar.
O autor, o norte-americano Fred Goldstein, colabora no jornal Workers World e publicou em 2008 uma outra obra, Capitalismo de Baixos Salários (**), em que aponta os efeitos do novo imperialismo globalizado e de alta tecnologia na luta de classes nos EUA.
A exposição de O Capitalismo num Beco Sem Saída, ao qual se dedica esta recensão, assenta em três ou quatro dados decisivos para entender a actual crise, mas muito pouco falados pelas correntes de opinião dominantes. São eles, a nosso ver, os seguintes:
- Esta crise é de longa duração, estamos ainda nos seus primeiros estágios, e, pela sua natureza, não se compara aos normais altos e baixos da actividade económica.
- Na sua raiz está uma quebra na taxa de acumulação do capital, o que faz dos aspectos financeiros uma decorrência e não uma causa dos problemas presentes.
- A crise estalou depois de décadas de grande progresso tecnológico, de aumento da produtividade do trabalho e da concorrência, o que desmente a ideia espalhada de falta de produção e de competitividade, e mostra, pelo contrário, que o sistema rompe pelas costuras em resultado da sua própria capacidade de produzir em larga escala.
- Nos casos em que se pode falar de alguma retoma económica após o colapso de 2008 (como nos EUA), essa retoma faz-se sem recuperação do emprego entretanto destruído em números sem precedentes.
Daí, todo o sistema capitalista se encontrar num beco sem saída. Ou, como diz o autor, “O capitalismo chegou a um ponto em que nada de natureza económica, só por si, poderá fazer o sistema avançar e crescer mais”.
A partir destas constatações, e fazendo comparações com as grandes crises mundiais de 1873-96 e de 1929-39 – das quais o capitalismo saiu sob o impulso da guerra (guerra americana-espanhola de 1898, guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45), enveredando pela expansão imperialista – a resposta do capitalismo mundial à sua crise de hoje aponta igualmente para a “destruição maciça de meios de produção e de infraestruturas”.
Com os cataclismos verificados desde 2008, o panorama da luta de classes também se altera. A tendência para lucrar a taxas cada vez menores, a incapacidade de recuperar, mesmo parcialmente, os níveis de emprego – traduzem-se numa quebra generalizada dos salários (um “capitalismo de baixos salários”). E, portanto, no dizer de Fred Goldstein, “A era das concessões deu lugar à época das devoluções” – como é bem patente, dizemos nós, do lado de cá do Atlântico, não apenas na redução dos salários como nos cortes dos apoios sociais, na crescente insegurança do emprego, no ataque aos direitos laborais e sindicais. Tudo aquilo, enfim, que na Europa do pós-guerra e no Portugal pós 25 de Abril era apresentado como um “ganho civilizacional”, supostamente irreversível.
Esta crise mostra ainda ser diferente, sublinha Goldstein, por outra razão. “Todos os métodos tradicionais pelos quais o sistema foi estimulado [em situações anteriores] estão as ser aplicados, mas já não funcionam”. A prova está nos biliões de dólares (e de euros) injectados sobretudo no sistema financeiro com o único efeito de arrastar a crise, mas sem sinais de uma retoma económica.
Mais: o facto de os negócios nos EUA marcharem a passo de caracol e de a Europa e o Japão estarem à beira do declínio, faz aumentar, mesmo nos bastidores do poder, o temor de um novo retrocesso económico global.
Ora, uma crise de extensão mundial, que não se resume a uma quebra cíclica dos negócios nem tem à vista nenhuma verdadeira recuperação, assume então, parece-nos, um sentido histórico de fim de época.
Na verdade, afirma o autor, “O sistema do lucro entra num estádio no qual só consegue arrastar para trás a humanidade”. Então, “As massas da população hão-de chegar a um ponto em que não poderão continuar a seguir o mesmo caminho porque o capitalismo lhes bloqueia todas as vias de sobrevivência”. E, chegada a este ponto, “a humanidade só pode avançar limpando a estrada da sobrevivência, o que significa nada menos do que destruir o próprio capitalismo”.
As teses do livro de Fred Goldstein, conduzem-nos, com efeito, a uma questão a que os marxistas e o movimento comunista terão de prestar a maior atenção: com esta crise encerrou-se a época de expansão do capitalismo iniciada após a segunda grande guerra; e, consequentemente, estão a criar-se as condições para um novo ciclo de revoluções sociais à escala mundial.
Devem, portanto, em nossa opinião, ser lidas como sendo da maior actualidade as palavras de Karl Marx no balanço que fez à crise económica de 1847. Reflectindo sobre a recuperação do capitalismo nos anos de 1848 e 1849, uma vez vencidas as revoluções verificadas na Europa em 1848, dizia ele:
“Nesta prosperidade geral, em que as forças produtivas da sociedade burguesa se desenvolvem com toda a exuberância de que são capazes no quadro das relações burguesas, não se pode dar nenhuma verdadeira revolução. Uma tal revolução só é possível em períodos em que estes dois factores, as forças de produção modernas e as formas de produção burguesas, entram em conflito.”
E conclui Marx: “Uma nova revolução só será possível na sequência de uma nova crise. Mas aquela é tão certa como esta.”
Não é a crise que estamos a viver, afinal, a evidência do conflito entre as forças de produção modernas e as formas de produção burguesas?
(*) Capitalism at a dead end – Job destruction, overproduction and crisis in the high tech era. A marxist view. Fred Goldstein. World View Fórum, New York, 2012.
(**)Low-wage capitalism: colossus with feet of clay – what the new globalized, high-tech imperialism means for the class struggle in the US. Fred Goldstein. World View Fórum, New York, 2008.
O livro está no www.lowwagecapitalism.com/ em Inglês e está no www.rosa-blindada.info/b2-img/Capitalismo.pdf em espanhol.
Por quem dobram os sinos sírios
21/12/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/
Traduzido pela Vila Vudu
A maior tragédia geopolítica em 2012 está a um passo de ser também a maior tragédia geopolítica em 2013: o estupro da Síria.
Como algumas outras vezes volto à minha passagem de Hemingway, ultimamente tenho voltado a ver alguns vídeos que filmei há anos, no souk de Aleppo – o mais extraordinário de todos os mercados do Oriente Médio[1]. É como levar um tiro pelas costas; sempre gostei muito, muito, tanto da arquitetura do souk, quanto dos mercadores e da gente que anda por ali. Semana passada, quase todo o souk – a pulsação viva de Aleppo por séculos – foi incendiado e destruído pelos ‘rebeldes’ do chamado Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)].
Nessa tragédia síria, não há jovem herói de Hemingway, nada de Robert Jordan nas Brigadas Internacionais lutando ao lado e guerrilheiros republicanos contra os fascistas, na guerra civil espanhola. Na guerra civil síria, as brigadas internacionais são sobretudo mercenárias. Jihadistas-salafistas, do tipo que degola gente e explode carros. E os (poucos) jovens americanos que há por lá não passam de peões high-tech num jogo jogado pelo predatório clube CCGOTAN, dos fantoches árabes do Conselho de Cooperação do Golfe + a Organização do Tratado do Atlântico Norte.
A tragédia prossegue. O estado sírio e o aparato político e militar manterão as mini-blitzkriegs, sem se preocupar com “danos colaterais”. Na oposição, comandantes ‘rebeldes’ apostarão num novo Conselho Militar Supremo encorajado pelos sauditas-qataris.
Os salafistas e jihadis-salafistas da Frente al-Nusrah – fanáticos do século 7º, degoladores e agentes especializados em explosões, que fazem a maior parte dos combates – não foram convidados. Afinal de contas, Washington decretou que a Frente al-Nusrah é “organização terrorista”.
Verifiquem agora a reação de um dos chefões da Fraternidade Muçulmana, nascido em Hama, vice-general Mohammed Farouk Tayfour: disse que a decisão foi “muito apressada”. E verifiquem a reação do novo líder da oposição síria, Ahmed Moaz al-Khatib, numa reunião dos “Amigos da Síria” no Marrocos: disse que a decisão deve ser “reconsiderada”. De fato, todos os grupos ‘rebeldes’ declararam publicamente amor eterno e imorredouro aos linha-duríssima da Frente al-Nusrah.
Assim sendo, com os fanáticos da Frente al-Nusrah escondendo as barbas islamicamente corretas por baixo dos panos, deve-se esperar grandes avanços dos ‘rebeldes’ sobre Damasco – apesar de dois grandes revezes (em julho passado e, agora, nesse dezembro) impostos aos ‘rebeldes’ por cortesia da contraofensiva do governo sírio. Afinal de contas, algum resultado teria de dar tanto treinamento aprendido de Forças Especiais dos EUA, Grã-Bretanha e Jordânia, para nem falar dos carregamentos extras de armamento letal fornecidos por aqueles governantes das exemplares democracia do Golfo Persa. A Frente al-Nusrah controla partes da devastada cidade de Aleppo.
Regras do ódio sectário
E há também a orwelliana, recém inventada nova Coalizão Nacional de Forças Sírias Revolucionárias e de Oposição – co-produção Washington-Doha. Apresentamos o novo chefão, igualzinho ao velho chefão, que se chamava Conselho Nacional Sírio. Tudo, só retórica. A única coisa que interessa à nova “Coalizão Nacional” é arranjar mais e mais armas letais. E, ao contrário de Washington, adoram a Frente al-Nusrah.
Qatar despejou toneladas de armas “como doces” (nas palavras de um norte-americano comerciante de armas), na Líbia “libertada”. Só depois de atacados em Benghazi, o Pentágono e o Departamento de Estado acordaram para o fato de que armar os rebeldes sírios poderia ser, digamos, o mapa do caminho para novos contragolpes mortais. Tradução: o Qatar se encarregará de despejar toneladas de armas na Síria. Os EUA continuarão a “liderar da retaguarda”.
Esperem novos e mais horríveis massacres sectários como o que houve em Aqrab. O Channel4 (http://blogs.channel4.com/
Esperem mais e mais distorções de contexto, como quando o vice-ministro russo de Relações Exteriores Mikhail Bogdanov disse que “a luta será cada vez mais intensa, e [a Síria] perderá dezenas, talvez centenas de milhares de civis... Se esse preço para derrubar o presidente parece aceitável para vocês... o que poderemos fazer? Para nós, é preço absolutamente inaceitável.”
Então, a Rússia tenta fazer todo o possível para impedir que aconteça. E se os ‘rebeldes’ do CCGOTAN continuarem com as ameaças de atacar as embaixadas russa e ucraniana em Damasco, melhor que raspem a barba e tratem de esconder-se das Spetnatz – Forças Especiais Russas, que não são de conversa mole.
Esperem mais e mais ódio sectário, como o do xeique sunita e estrela da rede al-Jazeera Yusuf al-Qaradawi, o qual, como quem não quer nada, lançou uma fatwa que torna legítima a matança de milhões de sírios, militares ou civis, desde que sejam alawitas ou xiitas (&feature=player_embedded" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?
O ódio sectário reinará, com o Qatar no comando, seguido pelos sauditas com bolsos cheios e legiões de islamistas linha duríssima. Agenda: guerra contra os xiitas, contra os alawitas, contra os secularistas e até contra os moderados, não só na Síria, mas em todo o Oriente Médio.
Cara a cara: Patriot vs Iskander
A nova estratégia do Exército Sírio resume-se a sair do interior do país e das bases remotas, concentrando tropas nas vilas e cidades.
Esperem que a estratégia geral do CCGOTAN permaneça mais ou menos sem alteração: atacar o Exército Sírio no maior número possível de pontos; desmoralizá-lo; e continuar lubrificando o terreno para uma possível intervenção pela OTAN (todos os boatos inventados sobre armas químicas e a repetição incansável do mote da “catástrofe humanitária” são itens do vasto pacote de recursos dos especialistas em guerra psicológica).
É possível que o Exército Sírio tenha armamento mais pesado; mas, confrontado com um tsunami de mercenários e jihadistas-salafistas bem treinados e armados pelo clube CCGOTAN, a guerra pode durar anos, ao estilo da guerra civil no Líbano. Assim chegamos a “melhor” opção que resta: de fato, é opção derivada – matar o estado sírio, com mil, digamos logo, com um milhão, de cortes.
O que é certo é que a “coalizão de vontades” contra a Síria deixará de existir no instante em que vencer o jogo. Washington aposta em governo chefiado pela Fraternidade Muçulmana, para a Síria pós-Assad. Não surpreende que o Reizinho de Playstation na Jordânia esteja em pânico; ele sabe que a FM também tomará a Jordânia, o expulsará e o condenará a consumir os dias comprando na Harrods.
Aqueles monumentos exemplares de democracia – as petromonarquias medievais do Golfo Persa – também estão em pânico; temem o apelo popular dos Irmãos, como temem a peste. O Curdistão sírio – agora já definitivamente a caminho da total autonomia e eventualmente da independência – já deixa Ankara sem ar, de medo. Para nem falar da possibilidade de aquele tsunami de salafistas-jihadistas desempregados saltarem sobre a fronteira sírio-turca, para criar o inferno dos dois lados.
E há o relacionamento complexo entre Turquia e Irã. Teerã já preveniu Ankara em termos claros sobre o sistema de mísseis de defesa da OTAN (http://www.todayszaman.com/
Trata-se da obra-prima de novilíngua do final de 2012. O porta-voz do Pentágono George Little enunciou, firme e claramente, que “os EUA estão apoiando a Turquia em seus esforços de autoproteção [contra a Síria].”
Quer dizer que o deslocamento de 400 soldados norte-americanos para a Turquia para operar duas baterias de mísseis Patriot, aconteceu para a Turquia se “autoproteger” contra “ameaças potenciais que emanam da Síria.”
Tradução: nada disso tem algo a ver com Turquia; trata-se, exclusivamente, dos militares russos na Síria. Moscou deu a Damasco não só os muito efetivos mísseis supersônicos terra-terra Iskander (virtualmente imunes a sistemas de mísseis de defesa), mas também o sistema terra-ar, de defesa contra alvos múltiplos Pechora 2M, um pesadelo para o Pentágono, no caso de, algum dia, vir a ser imposta uma zona aérea de exclusão sobre a Síria.
Bem-vindos ao encontro, cara a cara, Patriot vs Iskander. E bem na linha de fogo, lá está ele, o primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan – ególatra tamanho-gigante, que padece de profundo complexo de inferioridade em relação ao europeus – deixado na chuva, no plano máster da OTAN.
O calcanhar de Aquiles da Turquia (além dos curdos) é o papel que os próprios curdos promovem, de estarem localizados numa encruzilhada de energia entre leste e oeste. O problema é que a Turquia depende de suprimento de energia que recebe de ambos, Irã e Rússia. Pouco espertamente, a Turquia antagoniza esses dois lados ao mesmo tempo, com sua confusa política para a Síria.
“Só ouço destruição e trevas”*
Como resolver essa tragédia? Ninguém parece estar ouvindo o vice-presidente da Síria Farouk Al-Sharaa. Em entrevista ao jornal libanês Al-Akhbar (http://english.al-akhbar.com/
Al- Sharaa não tem “resposta clara sobre qual possa ser a solução”. Mas tem um mapa do caminho:
Acordo algum, comece com conversações ou acordos entre capitais árabes regionais ou estrangeiras, jamais existirá sem uma base síria sólida. A base tem de ser síria, para um acordo histórico, que terá de incluir os principais países da região e os países-membros do Conselho de Segurança da ONU. Esse acordo deve incluir o fim de todos os tipos de violência, e a criação de um governo de unidade nacional com amplos poderes. E terá de vir acompanhado da resolução de dossiês sensíveis relacionados à vida das pessoas e suas legítimas demandas.
Não é o que os membros do clube CCGOTAN querem – com EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia, Qatar e Arábia Saudita engajados, cada um, em sua própria agenda, mesmo se divergente das demais. Mas a guerra do CCGOTAN já alcançou um dos seus objetivos – muito semelhante, sim, ao que se viu no Iraque em 2003: já reduziram a farrapos o frágil tecido social sírio.
É capitalismo de desastre em plena ação, fase I; o terreno já está preparado para uma lucrativa “reconstrução” da Síria, depois de instalado lá um governo servil, maleável, pró-turbo-capitalismo ocidental.
Mas... a volta do cipó de aroeira no lombo de quem chicoteia é fenômeno que opera por vias misteriosas: milhões de sírios que, de início, apoiaram a ideia de um movimento pró-democrático – dos empresários em Damasco aos mercadores em Aleppo – já mudaram de lado e hoje incham a base de apoio ao governo sírio, como uma espécie de contragolpe contra a horrenda limpeza étnico-religiosa que está sendo promovida pelos ‘rebeldes’ do tipo al-Nusrah.
Mas, com o CCGOTAN de um lado, e Irã-Rússia de outro, os sírios comuns, apanhados no centro do fogo cruzado, não têm para onde ir. Nada deterá o CCGOTAN até ter esculpido – em sangue – qualquer tipo de entidade, seja um emirado pró-EUA, seja uma ‘democracia’ pró-EUA comandada pelos Irmãos da Fraternidade Muçulmana. Não é difícil ver por quem os sinos dobram na Síria: não dobram por ti, como em John Donne; dobram pela catástrofe, pelas trevas, por mais mortos e mais destruição.
[1] Veem-se imagens (turísticas) do souk de Allepo, em http://www.tripadvisor.com.br/
* Orig. All I hear is doom and gloom. Dos Rolling Stones. Pode ser ouvida em http://www.vagalume.com.br/
Palabras pronunciadas en la sede de la Organización de Solidaridad de los Pueblos de África, Asia y América Latina (OSPAAAL) en la presentación del número 176 de la revista Tricontinental, dedicada al tema del colonialismo
La mayor parte de este número está dedicada a un tema de enorme importancia actual: el colonialismo. La nota inicial, “Al lector”, que es de una calidad singular, expone lo esencial en cuanto a las colonias que existen en el mundo actual, su distribución geográfica y las funciones que desempeñan para los poderes coloniales. Destaca los casos de Palestina, Puerto Rico, Sahara Occidental y Malvinas, por la atención internacional que reciben. Y explica muy bien y de manera sintética el contenido del número.
He tenido la satisfacción de revisar con cuidado los artículos, lo que me permitió constatar los valores de cada uno y del conjunto que forman, un número 176 que está a la altura de la tradición de esta revista, combatiente y hermosa, hija consecuente e intransigente de aquellos trabajos y aquellos ideales que reunieron en La Habana hace casi cuarenta y siete años a representantes de los luchadores de nuestro mundo, el que los enemigos de la Humanidad habían oprimido, expoliado y aplastado siempre, y al que en aquellos años los medios de comunicación le habían dado el tercer lugar en una clasificación de tres.
Estimo que hay dos procedimientos igualmente válidos en estas presentaciones: describir y comentar cada uno de los textos de la publicación; o hacer comentarios referidos al asunto principal que ha sido abordado y expuesto a lo largo del número. Inspirado por esos textos, escojo la segunda fórmula para estas palabras, por lo que acabo de decir y porque los presentes tendrán a su alcance de inmediato la revista. Añado solamente una cálida felicitación a los aspectos formales del número, que le aportan gran belleza y capacidad comunicativa.
El colonialismo ha sido la forma fundamental y decisiva de la universalización de las relaciones mercantiles, de la individualización de las personas y la oposición de todos contra todos –forzada por el poder del dinero y por las violencias del poder–, de la homogeneización de los patrones de consumo y la generalización de determinadas relaciones sociales fundamentales y sus valores correspondientes, a escala planetaria. En dos palabras, ha sido la forma principal de universalización del capitalismo. En el caso del continente americano, es en estos años que se está cumpliendo realmente el llamado Quinto Centenario, que en su momento fue tan publicitado y manipulado como rechazado, y no en aquellas fechas de 1492 en que un explorador llegó a unas islas del Caribe. Aquel fue el inicio de un colosal genocidio, de un gigantesco ecocidio, de la destrucción de culturas maravillosas, condicionante de la elaboración material e ideal de una civilización egoísta, explotadora, criminal, excluyente, racista y depredadora, que le impuso al planeta entero su título pretencioso de modernidad.
José Martí, el primer gran pensador anticolonial que comprendió el imperialismo, escribió en 1884: “¡Robaron los conquistadores una página al universo!”. Pero no olvidemos nunca que desde el inicio se trataba de un negocio, el más despiadado y abarcador, el más opuesto al bienestar, la dignidad y el despliegue de la condición humana y la convivencia social que se ha inventado: el capitalismo. El jefe de los conquistadores de las sociedades existentes en el actual México, que eran superiores a ellos en muchos aspectos, le había escrito en 1524 a su emperador pidiéndole que ordenara la detención del saqueo indiscriminado y que se comenzara la colonización del país.
Los años que siguieron al final de la Segunda Guerra Mundial fueron los de la independencia para la gran mayoría de las colonias que existían en África y Asia. Varios factores principales concurrieron en aquellos eventos históricos. Un nuevo orden capitalista de posguerra, en el cual predominó abiertamente Estados Unidos, que tenía dentro de su estrategia mundial la disolución del dominio colonial europeo y que actuó en consecuencia. Una Europa colonialista, que aunque ya carecía de poder suficiente para alternar conEstados Unidos, pudo lanzarse a una rápida reconstrucción y ampliación económica; establecer relaciones de tipo neocolonial con sus antiguas posesiones podía serle muy provechoso en esa hora de reubicarse. Pero hay que recordar que no por eso propiciaron las independencias. Siglo y medio después de la Revolución francesa no querían aceptar la autodeterminación de los pueblos. Los mismos colonialistas que aprobaron en 1952 un plan para conceder autogestiones o independencias después de 1972 ejecutaron matanzas terribles y represiones por doquier, y pusieron obstáculos de todo tipo a los procesos de independencia de las colonias.
Pero no pudieron evitar aquellos procesos. Lo que sucedió fue que los pueblos protagonizaron el ocaso efectivo del colonialismo. Por todas partes se movilizaron, se organizaron, presionaron, negociaron o exigieron la independencia, en muchos países como culminación de procesos políticos y sociales nacionalistas previos. En numerosos lugares se combatió con las armas en la mano a los colonialistas. El triunfo de la Revolución china en 1949 y las revoluciones victoriosas de Vietnam y Argelia fueron jalones muy importantes de un avance extraordinario de la cultura mundial: la conversión de la independencia en liberación nacional. Activistas y pueblos muy diferentes y que estaban en situaciones muy disímiles se aproximaron, motivados por la afinidad de sus problemas, la identidad de sus enemigos y la necesidad de aumentar sus fuerzas y auxiliarse. La Conferencia de Solidaridad Afroasiática de Bandung en 1955, la fundación del Movimiento de los Países No Alineados en 1961 y la Conferencia Tricontinental de 1966 fueron hitos de un movimiento internacional cuyo logro principal estuvo en formarse y desarrollarse fuera y lejos de la égida de los imperialistas, en ser una forma más de las identidades que reclamaban su lugar en el mundo.
Las nuevas realidades autóctonas de África, Asia y América Latina y el Caribe tenían que enfrentarse al mismo tiempo con el imperialismo y con la búsqueda de la justicia social, con el “subdesarrollo” –mal nombre dado al lugar en que fueron puestos dentro del sistema mundial capitalista–, con la mentalidad colonizada -la herencia maldita del colonialismo–, con la necesidad de modernizaciones y la de hacer la crítica del signo burgués de la modernidad. A diferencia de la primera ola revolucionaria del siglo XX, que tuvo su centro en Europa, una segunda ola revolucionaria que recorría el planeta en los años sesenta-setenta tenía su centro en ese mundo tercero.
Aquellos eventos cambiaron el mapa del mundo y la composición y el manejo de las relaciones internacionales, e hicieron grandes aportes a la cultura de los pueblos, al convertir lo que hubiera sido un paso de avance o una coincidencia de intereses diferentes en unos procesos políticos, sociales, económicos y de pensamiento que tuvieron un alcance extraordinario. Pero en las últimas décadas hemos padecido una transformación hipercentralizadora y parasitaria del imperialismo, reforzado por un período de grave disminución de las luchas de clases y de liberación. El capitalismo actual está librando una formidable guerra cultural a escala universal, mediante la cual pretende compensar la desaparición de su gran promesa abstracta de progreso, desarrollo y buen gobierno; ocultar la pérdida de los rasgos de competencia, iniciativa y libertades económicas, y un campo y seguridad para sectores medios, que poseía su régimen; forzar a aceptar el despojo que se ha hecho en tantos países de la mayoría de las conquistas sociales y políticas logradas durante el pasado siglo; y prevenir o desmontar todas las resistencias y protestas.
Esta guerra cultural se propone que todos en todas partes acepten el orden que impone el capitalismo como la única manera en que es posible vivir la vida cotidiana, la vida ciudadana y las relaciones internacionales. Uno de sus objetivos cardinales es que olvidemos la gran herencia que nos brinda precisamente la acumulación cultural constituida por la historia horrorosa del colonialismo y la historia de las resistencias y las rebeldías de los pueblos. Reprimidos o tolerados, aplaudidos o condenados por ser diferentes, pero siempre explotados, discriminados y avasallados, pretenden que renunciemos al pasado y el futuro y asumamos una homogeneización de conductas, ideas, gustos y sentimientos dictada por ellos
La guerra del lenguaje forma parte de esa contienda. Como bien apunta WilmaReverón, llamar a los colonialistas actuales “potencias administradoras”, y a las colonias “territorios no autónomos” o “en fideicomiso” es un escamoteo de la realidad. Existe toda una lengua para lograr que las mayorías piensen como conviene a los dominadores o, en muchos casos, que no piensen. El principio de soberanía nacional ha sido sumamente debilitado en el mundo actual, pero esto es ocultado mediante expresiones como “lucha contra el terrorismo”, “intervención humanitaria”, “tratados de libre comercio”, “defensa de los derechos humanos”, “países fracasados” y otras. En el siglo XXI, los imperialistas vuelven a ocupar militarmente países, pero a los ocupantes se les llama de cualquier manera menos invasores. Tratan de convertir en naturales las relaciones de vasallaje, el intervencionismo, el pago de tributos, el saqueo de los recursos. Lo que pretenden, en general, es desinformar, confundir, manipular, crear una opinión pública obediente –y, si es posible, entusiasta en su obediencia–, y convertir a las personas en público. Danny Glover denuncia ese trabajo imperialista en un párrafo muy esclarecedor de su entrevista acerca de los Cinco.
La generalización del neocolonialismo como forma de dominación imperialista en su expansión mundial a mediados del siglo XX fue un indicador de madurez del capitalismo como formación social: el funcionamiento mismo de su modo de producción se convertía en su principal mecanismo de explotación y de obtención de ganancias procedentes de los países subalternos, aunque ventajas extraeconómicas y medios políticos, militares e ideológicos siguieran desempeñando papeles importantes en la relación neocolonial. Al mismo tiempo, esa relación marcaba los límites de aquella dominación. El país neocolonizado debía ser independiente y poseer soberanía nacional, aunque en la práctica lo fuera con limitaciones; disponer de grados relativamente notables de desarrollo de su formación social nacional; tener instituciones, intereses, representaciones y proyectos, capaces de ser integrados en la hegemonía de su clase dominante-dominada nativa, que los proclamaba como los nacionales, o de ser lugar de reclamaciones, conflictos y elaboraciones de sectores más o menos opuestos a ellas que también se reclamaban como nacionales.
Ese neocolonialismo formaba parte entonces de una época de muy agudas pugnas entre conservatismos y reformismos, entre revoluciones de liberación nacional y socialistas y contrarrevoluciones, entre modificaciones de muchos tipos de las estructuras y funciones del capitalismo a escala mundial, que negociaban o chocaban con estrategias, esfuerzos y proyectos de desarrollo nacional más o menos autónomo de numerosos países del llamado Tercer Mundo. El desarrollo, las políticas sociales a favor de mayorías, el socialismo, el nacionalismo de clases dominantes, la democratización de las formas de gobierno y otras dinámicas estaban a la orden del día, y el movimiento y la discusión de ideas acerca de todos estos temas era muy fuerte y constante.
En 1981, la revista Tricontinental reprodujo en sus números 74 y 75 mi ensayo “Neocolonialismo e imperialismo. Las relaciones neocolonialistas de Europa en África”. Ayer lo revisé, sobre todo el acápite en que trataba la relación en su aspecto conceptual, y se me hizo claro que aquella situación ha cambiado mucho, y que ha sido sobre todo en perjuicio de los pueblos y países de la mayor parte del planeta. El neocolonialismo se ha deteriorado en cuanto a sus aspectos menos negativos, y lo mismo ha sucedido con la forma de gobierno democrática que se generalizó en la esa época. Estas dos instituciones notables de la segunda mitad del siglo pasado se han ido vaciando de su contenido, y en el nuevo siglo el retroceso se ha hecho evidente.
Siguen existiendo colonias remanentes de la época en que esa era la relación principal de dominación, y debemos seguir combatiendo hasta lograr que dejen de serlo, pero cada vez están menos solas. En la práctica, la recolonización selectiva es una de las características actuales del imperialismo, que escoge las regiones y países que considera apropiados para saquear sus recursos naturales, esquilmar su fuerza de trabajo, cobrar tributos, obtener ganancias directas y establecer posiciones militares. Las demás áreas del que fue Tercer Mundo son abandonadas a una suerte de miseria y exclusión. Los imperialistas operan con impunidad, por eso ocupan militarmente países, alardean de sus asesinatos mediante drones, sus esbirros toman presos a ciudadanos de otras naciones y sus jueces ordenan a otros países que paguen lo que ellos dispongan a partir de litigios privados.
Aparte de otros defectos, tengo que revisar aquel ensayo para que los conceptos de colonialismo y neocolonialismo que exponen puedan seguir siendo útiles, y los análisis acerca de su alcance y sus procedimientos se enriquezcan o cambien sus resultados a partir de los nuevos datos. Considero necesario que todos los que analizamos estas cuestiones cruciales del mundo actual trabajemos con los eventos y los procesos que están en curso y las tendencias que puedan deducirse de ellos, pero sin limitarnos a ellos, en busca de un pensamiento crítico que llegue a aportarnos conceptos e interpretaciones de las características fundamentales del sistema que oprime a los pueblos y amenaza al planeta, de las claves de su funcionamiento y los rasgos y las reglas de sus modos de operar. Y que nos aporte, a la vez, conocimientos ciertos y crecientes acerca de los pueblos dominados y de nuestro propio campo; de los modos como se reformulan el consenso, la indiferencia o la resignación de los abajo, y no solo sus protestas y resistencias; de las raíces de nuestras insuficiencias, divisiones y debilidades.
En los años recientes se han levantando en diferentes lugares del mundo acciones y banderas de rebeldía, sentimientos profundos de inconformidad y esperanzas de que pueda pretenderse un mundo y una vida nuevos. La región de América Latina y el Caribe está en la vanguardia entre estos movimientos. Al enfrentar las tareas ciclópeas que esto demanda y los desafíos casi insondables que pone ante nosotros, se hace clara la necesidad de ideas, elaboraciones intelectuales, divulgaciones, debates, capacidad de influir, hacer conciencia, sumar, aprender de los demás, conducir. La nueva vida y el mundo nuevo solo nacerán y serán fuertes a partir actividades intencionales, organizadas y concientes. A nuestro favor tenemos una acumulación cultural excepcional, herencia yacente que hay que aprovechar y superar. Los trabajos como este que presentamos hoy son modestos pasos en el largo camino, pero son los que nos llevarán a vencer al colonialismo actual y a sus padres.
Ojalá que este número de Tricontinental trascienda la lectura por especialistas, pueda llegar a profesores y comunicadores y los induzca a ofrecerle a nuestra población informaciones y criterios que tanta falta nos hacen, para que los problemas, las tareas y la cultura de nuestro mundo, el mundo tricontinental, ocupen un espacio mayor y más calificado en nuestro país. La OSPAAAL y su revista Tricontinental tienen una historia que nos invita a recuperar un legado de luchas y de ideas, pero nos ofrecen sobre todo una lección para el futuro, para el camino indispensable que debemos recorrer. Es obvia la necesidad de unirnos y avanzar juntos, en este momento histórico en que está en marcha la recolonización selectiva del mundo y el imperialismo norteamericano intenta convertirse en el imperio mundial, pero, al mismo tiempo, los seres humanos y los pueblos vuelven a actuar y a representarse la liberación de todas las dominaciones y la creación de nuevas relaciones entre las personas y con la naturaleza, y nuevas instituciones que estén realmente al servicio de todos y permitan el despliegue de todos. Termino con mis palabras en otra publicación cubana, con motivo del 45º aniversario de aquel congreso celebrado en La Habana: este tiene que ser, entre otras cosas, otra vez el tiempo de la Tricontinental.
(Tomado de Tricontinental)
‘Zero Dark Thirty’, la película de 160 minutos de duración que presuntamente se basa en un material secreto filtrado a los autores por la CIA y cuyo título es un código de las operaciones especiales de los Navy Seal empleado cuando la acción transcurre en plena noche, describe en detalle todo el proceso que condujo hasta la muerte de Osama Bin Laden en la ciudad paquistaní de Abotabad. 46 minutos del filme son un interrogatorio mediante ‘waterboarding’, la técnica de ahogamiento simulado defendida por la Administracion Bush como un modo eficaz de conseguir información secreta.
Desde el punto de vista del analista político Wilfredo Amr Ruiz, la cinta es “una glorificación de la violencia”. Insiste en que legitimizar las torturas y los secuestros, y proyectar que puede haber un tipo de excepción para violentar la integridad y los derechos humanos de cualquier persona en una sociedad extremadamente violenta como es la estadounidense es muy peligroso, ya que desemboca luego en brotes de violencia social y doméstica en la población.
Tras el preestreno de ‘Zero Dark Thirty’, celebrado el pasado 18 de diciembre (la cinta estará en los cines el próximo 4 de enero), un grupo de senadores de EE.UU. envió una misiva oficial a la productora de la película, Sony Pictures Entertainment. En la carta hecha pública este jueves dismienten que las torturas a prisioneros fueran la base de la investigación sobre el paradero del fallecido terrorista. Desde el punto de vista de la presidenta del Comité de Inteligencia del Senado, la senadora demócrata Dianne Feinstein; el presidente del Comité de las Fuerzas Armadas del Senado, el también demócrata Carl Levin, y el senador republicano John McCain, el filme es una obra “extremadamente inexacta y engañosa”.
“La película da a entender claramente que las técnicas coercitivas de interrogatorio de la CIA fueron efectivas en la obtención de información importante relacionada con el escondite de Osama Bin Laden. Hemos revisado los registros de la CIA y sabemos que esto es incorrecto”, afirman los senadores. Insisten en que el detenido que dio más información “lo hizo antes de ser sometido a técnicas de interrogación coercitiva”.
Osama bin Laden es considerado el responsable de los atentados del 11 de septiembre de 2001 en Nueva York y Washington, que causaron la muerte de cerca de 3.000 personas. Fue abatido por tropas estadounidenses en el marco de una operación secreta en Pakistán en mayo de 2011.
(Tomado de Russia Today)
Como es habitual cada vez que se acerca el fin de año, las agencias noticiosas se apresuran en seleccionar sus mejores fotografías. En este caso, la británica Reuters nos entrega un grupo de imágenes de gran variedad temática pero con la calidad como denominador común. Hay aquí para todos -o casi todos- los gustos. Desde la foto conmovedora o la curiosa, hasta que aquella que, de tan impactante, hace mirar hacia otra parte.
(Fotos tomadas de la recopilación de Yahoo)
Surgieron como nación bajo el signo del expansionismo y el exterminio inmisericorde de los nativos. Glorificaron a los cowboys. Plantaron en la Constitución, en su Segunda Enmienda, el libre albedrío en la tenencia de armas. A base de cañones, misiles, y hasta armas nucleares, conquistaron territorios, derrocaron gobiernos y sometieron naciones. Los Estados Unidos están enfermos de violencia.
La reciente matanza en una escuela de Connecticut, que se llevó la inocencia de tantas vidas infantiles, ha vuelto a develar los gérmenes corruptos de una sociedad en decadencia, capaz de alcanzar los más altos niveles de desarrollo y riqueza (a costa de otros) y también, de cometer los crímenes más atroces.
Cultura de las armas
La cultura de las armas que ha contaminado profundamente a esa nación y se ha hecho parte de sus estandartes, devela hoy a un país de 315 millones de habitantes con más de 280 millones de armas en su poder: una relación de 89 armas cada 100 ciudadanos.
El individualismo per se, que asienta y cataliza el sistema, simboliza en la tenencia de armas el poderío, la autodefensa, la justicia propia. Tener armas, para muchos, es parte del ser estadounidense.
La industria de las armas se erige en un superlucrativo negocio. EE.UU es el mayor productor y exportador de armas del mundo. Pese a la crisis mundial, las exportaciones estadounidenses de armas se triplicaron en el 2011 y alcanzaron los 66 300 millones de dólares, según un reporte del Servicio de Investigación del Congreso el pasado mes de agosto.
El mercado interno también crece sin freno. Este 2012, el National Instant Check System ha registrado 16 millones 800 mil compraventas en EE.UU de pistolas, fusiles y rifles, el doble de lo ejecutado una década atrás. Sólo el día de rebajas, conocido como “Viernes Negro”, se vendieron 154 000 armas de fuego, reportó Russia Today.
Las Ferias y exposiciones de armamento, donde se compra de todo sin restricciones, se han multiplicado en cantidad y ventas. La mayor la organiza la Asociación Nacional del Rifle (NRA), uno de los más poderosos lobbys empresariales y políticos del país, vinculado a los sectores más reaccionarios de la nación.

Estela de muerte
Tantas armas en tantas manos dejan su secuela trágica. Desde 1982 han ocurrido por lo menos 62 asesinatos masivos en EE.UU. Algunos han estremecido el país como la matanza de Columbine en 1999 y la del Politécnico Virginia Tech en el 2007. Este año se han protagonizado tres; el ocurrido en julio en el Cine Teatro Aurora, en Colorado, durante la función de estreno de la nueva saga de Batman; el que tuvo lugar en agosto en un templo Shik en Wisconsin y este de diciembre en el centro escolar de Newtown, Connecticut.
Según cifras oficiales, el pasado año se sucedieron 14 mil asesinatos en EE.UU de los cuales 10 mil fueron por armas de fuego. Cada día mueren por esa causa en el país del Norte un promedio de 34 personas.
Tras la reciente matanza, el documentalista Michael Moore, quien reflejó en unas de obras los sucesos de Columbine, escribió: “… ¿demasiado temprano para hablar sobre una nación enloquecida de armas? No, demasiado tarde.”
Violencia, Sexo y Lenguaje de adultos
Científicos afirman que videojuegos violentos afectan el cerebro
Los medios de comunicación y entretenimiento hacen lo suyo en este espiral de violencia. Noticieros televisivos que se regodean en titulares con crímenes diversos; series y películas que glorifican al matón o conminan a la justicia por manu propia (armas mediante); guerras transmitidas en vivo como show estelar del sábado por la noche. La mentalidad de Rambo multiplicada desde las diversas pantallas.
A la confirmación de la psiquis agresiva de la sociedad norteamericana se han sumado los videos juegos, buena parte de los cuales tienen a las armas, la violencia gratuita y el justiciero solitario como componentes esenciales. Son entretenidas bombas de tiempo en las mentes infantiles.
No pocos especialistas apuntan también a las fallas de la educación norteamericana y al endeble sistema de salud mental de un país donde sus ciudadanos y la nación se desquician por prevalecer.
Más muertes, más armas.
Las multiplicadas matanzas, lejos de alejar a los norteamericanos de las armas, les acercan. El sentido de indefensión personal, la necesidad de autoprotección ante una situación de violencia social funcionan como estímulo por la adquisición de más armas de fuego.
Tras el tiroteo de Tucson, Arizona, en el 2011, donde murieron varias personas y fue herida gravemente la congresista demócrata Grabielle Giffords, la venta de armas en ese estado creció un 60%. Después de la masacre el cine de Denver, en julio pasado, aumento la venta en Colorado un 41%. Según The Huffington Post, en una tienda cercana a la escuela donde se ejecutó la matanza del pasado 14 de diciembre el arma mas demandada a la fecha es el fusil AR-15, como el que utilizó el asesino Lanza. Otra tiendas de Connecticut y el resto del país también reportan un aumento de la demanda de armas.
El AR-15 es un rifle de asalto. Lo utilizan los soldados norteamericanos en sus combates en Afganistán. En 1994 una ley congresional firmada por el presidente Clinton prohibió la venta a civiles de 19 tipos de pistolas, rifles y fusiles automáticos como el AR-15, diseñados para el combate. La ley espiró en el 2004 ante la inacción predeterminada del congreso con mayoría republicana y el presidente George W. Bush.
En mano de ciudadanos norteamericanos ya hoy más de 190 millones de rifles y fusiles listos para ser usados.
Y nada ha detenido la espiral hasta ahora. Ningún avance se dio en el control de armas después de la matanza de Columbine, la de Virginia o la de Colorado. Después de este ultimo acontecimiento, cuyo impacto en la opinión publica revivió como ahora el debate sobre las armas, la Asociación Nacional del Rifle envió una carta a sus afiliados solicitando donaciones para enfrentar una posible campaña adversa. Su llamado era inflamatorio: “El futuro de la Segunda Enmienda estará en juego. Y el futuro de nuestro país y nuestra libertad estará también en juego”.
El pasado 17 de diciembre al director ejecutivo Guns Owners of América, asociación defensora de la libertad de compra y posesión de armas en EE.UU, propuso de manera insólita que los maestros, administradores de escuelas y padres deberían tener permiso de portar armas en los centros docentes para poder actuar ante un agresor y defender así a los niños a su cargo.
Peor acaba de pronunciarse el Vicepresidente de la NRA, Wayne LaPierre, en una conferencia de prensa este 21 de diciembre. Su filosófica solución a la violencia es poner las armas en manos de los niños: “Lo único que detiene a un chico malo con un arma es un chico bueno con un arma”
Ante el dolor dejado por la masacre de Connecticut la respuesta de muchos ha sido comprar más armas
Políticos Desarmados (¿Desalmados?)
En todo lo que va de siglo XXI ni el Congreso ni la Casa Blanca, ni W Bush ni Obama, movieron un dedo par aumentar el control sobre las armas.
Los jugosos fondos que la Asociación Nacional del Rifle proporciona a las campañas congresionales y por la Casa Blanca y el respaldo de la corte Suprema ala llamado derecho constitucional de portar armas son valladares para cualquier paso en esa dirección.
Pese a que en medio de la más reciente contienda electoral ocurrieron grandes hechos violentos en EE.UU ninguno de los dos candidatos pronunció una sola palabra sobre el tema de las armas. Romney no quería espantar a la NRA y las bases extremistas de su partido. Obama no quería perder votos en estados sureños claves, donde la tenencia de armas es ley de vida y las medidas regulatorias son demasiado laxas.
Reclamos de Actuar
Las cándidas imágenes de los 20 niños de 6 y 7 años brutalmente asesinados en la escuela de Newtown, constantemente presentadas en las cadenas de televisión, han sacudido al parecer la conciencia colectiva de la sociedad norteamericana.
Por vez primera una encuesta nacional, realizada por la televisora CBS, muestra una mayoría a favor del control de armas en el país (57%). Casi 200 mil personas firmaron una petición en el sitio de la Casa Blanca para que se actúe con firmeza sobre el tema. Varias manifestaciones populares en pro del control de armas se han sucedido en diferentes ciudades.
Varios legisladores, incluso algunos respaldados por la NRA, han llamado a discutir el tema en el Congreso. También se han pronunciado alcaldes, gobernadores y otras personalidades.
The New York Times, The Washington Post y otros importantes medios de prensa reflejan la inquietud social y la necesidad de acción.
El hasta ahora calculador Obama ha salido a plantar cara ante la tragedia: “¿Estamos dispuestos a asumir que nos sentimos impotentes ante una carnicería de esta naturaleza? ¿Qué la política no nos permite actuar? ¿Estamos dispuestos a decir que la violencia que ataca a nuestros niños año tras año es solo el precio que pagamos por la libertad?”
Por lo pronto, ha nombrado una Comisión encabezada por el Vicepresidente Biden para que presente propuestas antes de fines de enero sobre la prohibición de fusiles de asalto, la revisión de los antecedentes de todos los compradores de armas, la reducción del número de balas y otras medidas de controla de armamento, así como reforma en la atención de salud mental y la educación, entre otras medidas.
La NRA y la extrema derecha republicana están a la defensiva por el momento. Pero, incluso, si prosperara la iniciativa presidencial, se encontrará con el hándicap de que las legislaciones sobre las armas son en su mayoría potestad de los estados y no del gobierno federal.
Ojala, como ya pasó, el transcurrir de los días y las fiestas navideñas no enfríen en los propósitos de hacer algo frente a este cáncer social.

De eso no se habla
La actual mirada del stablishment imperial hacia la violencia casera es inevitable ante el impacto social de la tragedia. Pero el mundo se pregunta si EE.UU seguirá exportando la violencia y la muerte con sus drones, sus bombas “inteligentes” y otras armas sofisticadas. Si continuará azuzando guerras, asesinando civiles, contratando mercenarios, aplicando degradantes torturas.
El mismo día de la masacre en Conecticut, una fuente de la ONU informaba que la guerra en Afganistán había costado la vida de más de100 mil personas, entre ellas numerosos menores de edad.
Esta semana, el periódico alemán Der Spiegel revelaba un estudio de Boletín de Contaminación Ambiental y Toxicología que culpa a las municiones norteamericanas con uranio empobrecido del crecimiento de los nacimientos de niños deforme en la localidad iraquí de Basora. Algunos han nacido con dos cabezas o con un solo ojo. Una tragedia bastante silenciada.
Si valiosa es la vida de los niños norteamericanos, también lo es la de los afganos iraquíes, paquistaníes, sirios, o de cualquier parte del mundo, que ahora mismo pueden estar muriendo por el disparo de un arma Made in USA.
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