
Por Osvaldo Bertolino
Uma falsa promessa. Essa é a primeira constatação da leitura do livro Cachorros – a história do maior espião dos serviços secretos militares e a repressão aos comunistas até a Nova República, escrito por Marcelo Godoy, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo, publicado pela Editora Alameda. Nas 550 páginas não fica comprovado que o personagem, o dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Severino Teodoro de Mello, teve a dimensão superlativa descrita no subtítulo.

Leia também:
Kruschev e a “história” do PCdoB repetida como farsa
A fênix comunista de João Amazonas
Motivos e fatos da reorganização do PCdoB em 1962
A vida de combates de Maurício Grabois
Cento e dez anos de Pedro Pomar: a história do Partido Comunista do Brasil
Cachorro era o termo usado pela repressão para designar espião cooptado nas organizações que combatiam a ditadura militar. Na versão de Godoy, conforme matéria de Julia Queiroz n’O Estado de S. Paulo em 31 de julho de 2024, Severino foi cooptado pelos militares e repassou informações até o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e responsável por ao menos uma dezena de dirigentes do PCB capturados, torturados e/ou assassinados pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE).
Godoy relata que a concepção do livro começou em meados de 2015, quando ele recebeu uma mensagem anônima, logo após lançar A casa da vovó – uma biografia do DOI-Codi (1969-1991), o centro de sequestro, tortura e morte da ditadura militar, vencedor do Prêmio Jabuti de livro do ano de não ficção.
Ilegalidade dos comunistas
A fonte era Antônio Pinto, conhecido como Doutor Pirilo, um ex-oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), controlador de Severino. Na matéria, Godoy afirma que “todas as pessoas que viveram aquele período podem te contar coisas que elas não vivenciaram em primeira pessoa”. “Algo que foi contado a elas, fatos notórios, entre os quais muita coisa que é lenda ou não se sustenta. Mas aquilo que o cara fala, em primeira pessoa, ‘eu fiz, e foi assim’, aí a coisa começa a mudar de figura.” A afirmação repete o método dos diálogos imaginados, ou o “imaginário”, usado em teses sem o valor do rigor histórico.
O próprio Severino teria confessado a cooptação ao atender Godoy com uma senha de Pirilo, o ex-oficial da FAB, num contato telefônico. “Fiz isso do lado de um integrante da Comissão de Mortes e Desaparecidos Políticos. Primeiro, porque eu acho que era importante que alguém testemunhasse isso. E segundo, porque era possível que o Mello tivesse conhecimento do destino de alguns dos desaparecidos do partido”, disse.
Em 1º de agosto de 2024, o livro foi lançado, segundo Godoy “um fio condutor para contar uma parte importante da história do nosso país”. “Contar um pouco dessa história de como a ilegalidade do Partido Comunista foi feita e de como essa agremiação foi reprimida em função da manutenção da sua ilegalidade é também contar a forma como a política pública nesse período foi envenenada por essa restrição”, afirmou.
O livro, na verdade, contém muito pouco sobre a ilegalidade dos comunistas, apresentados como integrantes de uma organização que atravessou diferentes fases descritas com a omissão de aspectos determinantes de sua trajetória. A história de Severino também não era inédita quando Godoy diz ter recebido a mensagem anônima de Pirilo, prática de remanescentes da chamada “comunidade de informações” da ditadura militar que se manifestavam na internet com meios como o site Terrorismo numa mais (Ternuma).
“Diário” de Grabois
Também recebi, anonimamente, por e-mail. fragmentos do que seria o “diário” de Maurício Grabois logo após a publicação da primeira versão de sua biografia, que escrevi em 2004, um documento de duvidosa procedência e com visíveis falsificações, mais tarde publicado pelo jornalista Lucas Figueiredo como “inédito” na revista CartaCapital, quando Sérgio Lírío estava assumindo a sua editoria. A versão da “comunidade” sobre os “cachorros” – inclusive Severino – também havia saído na revista Veja de 20 de maio de 1992.
O caso de Severino compareceu no relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) de 2014, relatado pelo ex-agente do Dops Roberto Artoni e por Marival Chaves, ex-sargento que atuou no DOI-Codi de São e no Centro de Informações do Exército (CIE). Eles disseram à CNV que Severino era controlado diretamente pelo chefe da Seção de Investigação do DOI-Codi, Ênio Pimentel da Silveira. Posteriormente, esse controle teria sido passado para Freddie Perdigão Pereira. Artoni revelou também que Severino colaborava enquanto estava no exterior.
As informações da CNV são omitidas no livro de Godoy, que optou por priorizar relatos de agentes da ditadura e versões deformadas sobre a história dos comunistas, ignorando fontes primárias e de fácil acesso. O resultado são afirmações descontextualizadas, falsas e deformadas, muitas originárias de obras infames, com versões dos porões da ditadura militar, como os livros Lei da selva e Borboletas e lobisomens, de Hugo Studart, e Camaradas, de Willian Waack, conforme indicado na bibliografia.
Vícios da mídia
Outra referência é o livro O retrato, de Osvaldo Peralva, escrito com ódio anticomunista no calor dos acontecimentos pós-XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em 1956, que deu origem à polêmica que resultou na preservação do Partido Comunista do Brasil fundado em 1922, com sua reorganização em 1962, e na criação do Partido Comunista Brasileiro, em 1961, episódios completamente ignorados por Godoy. Em O retrato, Peralva destilou ódio ao Partido Comunista do Brasil que seria amplamente utilizado pelo anticomunismo.
A versão de Peralva está no livro de Godoy, que em muitas passagens trata os principais dirigentes comunistas que não se alinharam ao PCB de1961 – João Amazonas, Maurício Grabois, Pedro Pomar e, mais tarde, Diógenes Arruda Câmara – de maneira falsa. Episódios da história dos comunistas em âmbito mundial também aparecem com versões manipuladas pela propaganda anticomunista, como o farsesco relatório “secreto” de Nikita Kruschev no XX Congresso do PCUS com acusações ao histórico líder soviético Josef Stálin.
A publicação de Cachorros revela que a história dos comunistas é uma fonte de pesquisa ainda pouco explorada. Mas já existem informações suficientes para se comprovar que as versões da direita, em grande medida baseadas em deformações de publicações sem a devida atualização – especialmente na academia –, não têm veracidade. É mais fácil, e conveniente, partir dessas versões, contaminadas pelos vícios da mídia e suas práticas antiéticas, para apresentar ao público uma obra que se utiliza da conhecida prática de propagar algumas verdades para contar uma grande inverdade.