Lerte e Arélio Peres (deputado do PCdoB eleito em plena ditadura militar) são homenageados no Dia da Luta Operária

Outras oito personalidades com papel na defesa da classe trabalhadora também receberão homenagens.

A cartunista Laerte e o ex-deputado federal Aurélio Peres vão receber o troféu José Martinez na celebração do Dia da Luta Operária, em 9 de julho. A escolha foi decidida pela organização do evento, que reúne as 10 centrais sindicais do Brasil.

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Laerte é uma das mais influentes cartunistas e quadrinistas brasileiras. Teve um papel fundamental na comunicação sindical entre 1977 e 1986, produzindo mais de mil charges políticas e materiais educativos pela Oboré Projetos Especiais para mobilizar a classe trabalhadora.

Aurélio Peres, metalúrgico, atuou na Pastoral Operária e liderou o Movimento do Custo de Vida, enfrentando a prisão e a tortura pelo DOI-CODI em 1974. Eleito deputado federal pelo MDB/PMDB duas vezes (1978 e 1982), ingressou no PCdoB em 1985 com a redemocratização. Ao deixar o parlamento, retomou a atividade operária até a aposentadoria.

Também serão homenageados nesta edição do Dia da Luta Operária: Waldemar Rossi, Celia Rossi, Nair Goulart, Idibal Pivetta e Paulo Frateschi, Rubens Romano (placas póstumas); Paulo Canabrava e José Maria de Almeida (placas de reconhecimento).

O ato deste ano será realizado na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (SindPD), na avenida Angélica, 35, na Santa Cecília, São Paulo.

O Dia da Luta Operária é celebrado em 9 de julho desde 2017, por lei municipal de autoria do então vereador Antonio Donato (PT), em memória da Greve Geral de 1917 . O troféu é um busto de José Martinez, concebido pelo artista plástico Enio Squeff. Sapateiro de 21 anos, Martinez foi morto a tiros por soldados da Força Pública em 9 de julho 1917, durante a greve geral que paralisou São Paulo por vários dias.

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Prefácio de Renato Rabelo na biografia de Aurélio Peres Vida, fé e luta

Um militante comunista desbravador

Voltei do exílio, onde vivia nos arredores de Paris, em 12 de outubro de 1979, logo depois de Diógenes Arruda e antes de João Amazonas, os quais voltavam também ao Brasil após anos de expatriamento. Era o começo, ainda atropelado, da anistia que manifestava os estertores do longo regime ditatorial, imposto desde começo de 1964, através de um golpe de Estado, conduzido pelos militares.

Tínhamos diante de nós mais uma gigantesca tarefa a realizar na extensa vida do Partido Comunista do Brasil, que exigia a sua reunificação e reestruturação, a sua continuidade.  Contudo contávamos com dirigentes experientes e abnegados, que conseguiram sobreviver à sanha do arbítrio e violência do regime militar, os quais se mantinham no país. A eles se juntaram os que estavam fora do país, destacando-se, sobretudo, João Amazonas, o mais experiente e destacado dirigente comunista e, ainda mais, em consequência da súbita morte de Arruda, que ampliava o vazio deixado pelos quadros mais distinguidos do Partido.  O terror da ditadura deixou um brutal rastro de sangue, ceivando a vida de inúmeros combatentes, entre eles, quadros muito relevantes à condução do Partido.

Além dessa tragédia para os comunistas, era preciso enfrentar ideias derrotistas e liquidacionistas, que brotam em momentos como estes. Por outro lado, podíamos contar, resultante do valioso papel combatente desses quadros heroicos e da coerência ideológica do PCdoB, uma contrapartida valiosa em situação tão adversa, que a luta nesse momento pôde conceder, como a integração dos quadros e contingentes da Ação Popular. Eles vieram por decisão lastreada em elevada consciência ideológica e politica ao PCdoB, em um momento decisivo. Na reestruturação levada a cabo comportava a importante tarefa de completar e assimilar a integração orgânica dessa importante corrente politica, que estava por concluir.

Em meio à situação que pontilhava tantos desafios foi um prémio dos céus já encontrar militando, na fase dos estertores do regime militar, como deputado federal, Aurélio Peres. Sim, atuando como Deputado Federal, eleito em 15 de novembro de 1978, compondo o bloco dos Autênticos do MDB. Aurélio vinha da Ação Católica, depois ingressou e militou na Ação Popular e, então, já fazia parte daqueles membros dessa Organização, que se integravam ao PCdoB, participando da sua “Estrutura 2” (Na integração da AP ao PCdoB, a incorporação foi feita inicialmente ao nível da Direção nacional, mantendo as estruturas estaduais sem junção organizativa entre PCdoB e AP. Isto por uma justa função de segurança, ainda na vigência da ordem ditatorial, sendo as vinculadas ao primeiro denominada de “Estrutura 1”, e  as relacionadas à  segunda de “Estrutura 2”).

Neste cuidadoso e minucioso trabalho biográfico sobre a trajetória de Aurélio Peres, Osvaldo Bertolino, já com rica experiência de pesquisa e elaboração biográfica nos oferece ricos relatos da vida, das ideias e do exemplo extraordinário de um filho de trabalhadores rurais, que surgiu como uma liderança expressiva, em um contexto histórico marcado pela transição que anunciava um novo tempo, que descortinava a superação do longo período de chumbo vivido pelo povo brasileiro. A redemocratização advinda, que Aurélio teve um papel protagonista na periferia da cidade de São Paulo, culminou com a promulgação da Constituição de 1988. Esta Constituição foi resultante de um Pacto politico-institucional, que representou saliente passo constitucional progressista, apesar dos limites ainda presentes, e que após 28 anos, esse Pacto é rompido por um golpe de Estado, em uma aventura reacionária e retrograda de um consórcio da classe conservadora-dominante.

Não imaginávamos que após 30 anos, passando por esse golpe parlamentar de 2016, se culminaria por via legal, por meio da vitória eleitoral, numa ocupação do poder central pela extrema-direita. Esta tomou o leme da direita para implantar na continuidade do governo Temer, o estabelecimento de um poder ultraliberal, entreguista e pró-hegemonia do imperialismo estadunidense, agressivamente ultraconservador, defensor de ideias aquém da modernidade, do final do século XVIII – se atentem para o que propõe para educação e os direitos civis – com um caráter autoritário, se espelhando na ditadura instituída em 1964.  A dramaticidade de 1964 volta como farsa em 2018.

A biografia de Aurélio Peres é atual, nos coloca em face do que foi a resistência desde 1964, e sua passagem para a redemocratização. Portanto é uma biografia de ricos ensinamentos, que através das jornadas de lutas do biografado, nos remete hoje à comparação histórica desse período do regime militar, com a ocupação do poder pelas forças extremistas de direita e o flagrante da volta da resistência pela democracia e liberdade na atualidade. Em apenas três décadas as forças democráticas, patrióticas e populares voltam ao cenário de nova resistência, desta feita contra a mesma reação conservadora interna subordinada à hegemonia imperialista. Aquela ansiedade que tomou conta de cada resistente pela democracia e pela salvação nacional no estrondo do golpe de1964 parece estar de volta como um fantasma que atormenta. Mas a resistência hoje tem que impedir as repetições das atrocidades do regime de 1964, e suas consequências desastrosas à Nação e ao povo, consciência que já cresce desde o final do segundo turno das eleições de 2018. Somos milhões.

Nesse sentido, a explanação biográfica primorosa de Aurélio Peres, escrita por Osvaldo Bertolino, põe o leitor diante da vida e da luta do simpatizante e da liderança que compunha a resistência nas condições de um regime de exceção, ditatorial, que atingiu fortes traços de fascistização, sobretudo após o Ato institucional número cinco. Traz a lume através da trajetória de Aurélio Peres, com grande riqueza analítica as formas de terror espalhadas pelo regime e seus asseclas, que neste momento, os vencedores do pleito presidencial de 2018 procuram emendar uma narrativa para justificar o rastro de sangue, o crime hediondo da tortura e redimir o golpe militar. No entanto, é ainda pior, parece querer abrir caminho para legitimar tais atos de selvageria nas condições atuais. Desse modo esta biografia é um anátema a hipocrisia e ao ardil que consiste em reinterpretar a história recente do Brasil. É uma obra de grande valor didático para a juventude e todos os amantes do avanço civilizacional.

Eu passei a conhecer Aurélio Peres e sua família a partir do início de 1980, após a minha volta do exilio na França.  A impressão primeira que me chamou à atenção era ser um operário com certo domínio teórico e considerável formação cultural.  Um hábil e destacado orador, autêntico, comunicativo, sereno e simples. Já era uma liderança que gozava de grande respeito entre os operários e a população simples dos bairros populares da zona sul da cidade de São Paulo; demonstração disso conseguiu se eleger a Câmara dos Deputados, ainda na vigência do regime militar.

Aurelio Peres é descendente de uma família de espanhóis, imigrantes, que se localizaram no interior de São Paulo. A sua origem é camponesa, trabalhava na roça em uma propriedade familiar dos seus pais. Era uma família de trabalhadores, 14 filhos, de camada média simples. Entre seus irmãos se destacou pela persistência em combinar o trabalho e a escola, sendo estas suas prioridades. Ademais, as famílias de classe médias simples, do interior, nesse período da década de 1950, não tendo meios de dar uma educação formal mais avançada a seus filhos, além do curso primário, e por sua vinculação católico-cristã se valiam da existência dos Seminários Menor e Maior (ensino básico e intermediário) localizados em algumas cidades de regiões do estado, para que o filho se tornasse um sacerdote, ou pudessem a partir desse engajamento seguir uma carreira superior. É através desse caminho e por dedicação ao estudo e ao conhecimento, que ele conseguiu sua formação, chegando à etapa superior de filosofia e de teologia, no Seminário Central do Ipiranga, na capital de São Paulo. Assim, Aurélio conseguiu galgar um curso superior. Sua dedicação, generosidade e consciência politica de classe levou-o mais adiante a ser um operário qualificado, ferramenteiro fresador.

Mas essa trajetória que levou Aurélio a percorrer, visando sua formação, conduziu-o a conviver com a efervescência de novos tempos da década de 1960. Dentro da própria Igreja católica, a sua modernização por iniciativa do papa João XXIII, surgimento da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base e ganham impulso os movimentos de Ação Católica, originando principalmente, por sua maior atuação a JUC, JEC e JOC (Juventudes universitária, secundarista e operária católicas). Em meados da década de 1960, estudantes do Seminário Central começam a participar das manifestações juvenis de protestos contra a ditadura. É nesse momento que Aurélio passa a conhecer lideres estudantis da época e mantém contatos com dirigentes da AP (Ação Popular), fundada em 1963, em Salvador, surgida da ação da tendência de esquerda da JUC, padres progressistas e de grupos da JOC, Esse foi o início do caminho da formação da consciência politica de Aurélio e da sua organização e participação crescente na resistência à ditadura militar.

Ele seguiu com sua participação nos trabalhos sociais da igreja católica, sua desistência do sacerdócio para ingressar no trabalho fabril, se voltou mais para a atividade ente os operários, se filiou ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo; por sua capacidade de liderança foi um dos representantes da Oposição Sindical; passou a ter elevado protagonismo nos movimentos sociais que cresciam na fase declinante do regime ditatorial, como o Clube de Mães e Movimento Contra o Custo de Vida.

A proeminência da liderança de Aurélio na atividade sindical e nos movimentos sociais, sua participação na AP, levou-o a estar na mira dos carrascos da repressão do regime, quando enfim foi preso em setembro de 1974, interrogado e torturado pelos esbirros do temido DOI-Codi e do DOPS. Deixou sua esposa Conceição Peres – até hoje sua permanente e dedicada companheira – companheiros, colegas e amigos apavorados, sem saber nem mesmo onde tinham levado Aurélio, procedimento comum nesse período, para facilitar o que pretendiam fazer com o prisioneiro – até o seu assassinato. Ele só teve sua prisão oficializada muitos dias depois, em virtude do trabalho de ampla mobilização e de setores da Igreja, sob a corajosa dedicação do cardeal D. Evaristo Arns. Aurélio teve julgamento militar, contou com a ajuda dos destemidos advogados, como Luiz Eduardo Greenhalgh, defensores dos direitos humanos, e teve que recomeçar mais uma vez sua vida.

O regime militar começa a viver seu ocaso quando já estava na presidência o General Ernest Geisel, no transcurso de 1974; as dificuldades econômicas recrudescem, aumenta o custo de vida para maioria, que começa a sentir pesadamente o arrocho salarial. Aurélio depois de sua absolvição pela Justiça Militar intensifica sua atividade sindical, assume a coordenação do movimento contra o custo de vida, a resistência cresce e se amplia desde o final de 1975; e ele se aproxima do “Grupo Autêntico do MDB”. Setores desse partido ligados aos movimentos sociais articulam uma “frente de candidaturas democráticas e populares”, através da qual, Aurélio já vinculado ao PCdoB, lançou sua candidatura pelo MDB, realizando sua campanha integrada aos movimentos sociais de bairros das regiões sul e leste de São Paulo.

Aurélio é eleito deputado federal, em 15 de novembro de 1978, ainda na vigência do regime militar; e reeleito deputado federal, segundo mandato, em 1982. Isso se passa no período que compreende o curso de declínio da ditadura, com o começo da transição à democracia. É ai que Aurélio desponta como uma liderança expressiva, distinguindo-se no descortinar de novo ciclo histórico, iniciado com a superação do regime militar. Ele na Câmara dos Deputados se situa na “ala esquerda” do Grupo Autêntico do MDB. É defensor destacado das bandeiras da resistência, indicadas pelo PCdoB e correntes democráticas: Eleições diretas em todos os níveis; Abolição dos Atos e Leis de exceção; Anistia ampla, geral e irrestrita; Convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. E as reivindicações fundamentais dos trabalhadores, tais como, Fim do arrocho salarial; Pelas liberdades sindicais e fim das intervenções nos sindicatos; Pelo direito de greve. Aurélio Peres junto com Teotônio Vilella percorre o Brasil, defendendo a anistia, manifestando-se no parlamento e realizando atos, impulsionando o movimento pela resistência em conjunto com muitas lideranças que despontavam, culminando com a aprovação da Lei da Anistia, em 28 de agosto de 1979, e o começo da saída das prisões dos condenados pela ditadura e a volta dos exilados.

Em 23 de maio de 1985, o Partido Comunista do Brasil entrou para a legalidade, após quase quatro décadas na clandestinidade.  Aurélio Peres acompanhado de dezenas de simpatizantes do PCdoB presenciou o momento em que dirigentes comunistas, conduzidos por João Amazonas, protocolaram no TSE a documentação do Partido. A Classe Operária, órgão central do PCdoB, registrou em grande estilo esse acontecimento histórico, que repercutiu em toda imprensa. E em 7 de agosto de 1985, “Haroldo Lima e Aurélio Peres comunicaram oficialmente a Ulisses Guimarães e a Pimenta da Veiga, respectivamente presidente do MDB e líder da bancada emedebista, a decisão de deixar aquele partido e constituir formalmente a bancada comunista”. Outro grande acontecimento culmina as vitórias comunistas, quando em 31 de agosto de 1985, Aurélio Peres se filia oficialmente ao PCdoB. João Amazonas saudou sua filiação oficial, afirmando: “Este é um ato simbólico, porque representa o encontro da classe operária com o seu partido de vanguarda”.

Tem mais. Eu repercuto o que disse nosso saudoso camarada João Amazonas no momento da filiação oficial ao PCdoB de Aurélio Peres, já deputado federal: “Aurélio é um bravo lutador, homem simples e modesto, que sabe honrar a ideologia da classe operária”. Aurélio, saído do interior de São Paulo, nascido “quase que debaixo de um pé de café”, trabalhador na roça e estudante dedicado, se torna destacado líder popular, importante líder operário em plena ditadura militar, se empenhou em grandes lutas ao lado dos trabalhadores paulistas e nos movimentos sociais nos bairros da periferia da cidade de São Paulo, e foi um líder eloquente nas duras batalhas que pôs fim ao regime militar. Ele conquistou muito respeito na Igreja, no movimento sindical e popular e nas fileiras do PCdoB. Eleito deputado federal em dois mandatos, primeiro comunista eleito ainda na vigência do regime militar, parlamentar do MDB, “partido que serviu de guarda-chuva para abrigar todos os que lutaram contra a ditadura”. Dessa forma, de fato foi um pioneiro, que desbravou a trilha para junto com os que vieram atrás, construir o caminho da representação parlamentar do PCdoB, na transição à democracia. Aurélio Peres é um exemplo de militante comunista, memorável líder popular, orgulho para todo Partido.

À memória de Carlos Nicolau Danielli, ícone do PCdoB assassinato no DOI-Codi

 

Em uma cerimônia na terça-feira (30) ocorreu a oitava entrega oficial, pelo governo Lula, de certidões de óbito retificadas de mortos e desaparecidos da ditadura militar. Ao todo, 95 documentos foram disponibilizados, dos quais 25 foram recebidos pelos familiares presentes. O ato foi realizado no teatro do BNDES, no Rio de Janeiro, e reuniu familiares, autoridades e representantes da sociedade civil e de movimentos sociais. Um deles foi Carlos Nicolau Danielli, jornalista e dirigente do PCdoB, que morreu sob tortura, pessoalmente comandada por Brilhante Ustra, em 31 de dezembro de 1972. Ao lado de João Amazonas e Maurício Grabois, teve papel essencial na reorganização do partido e na guerrilha do Araguaia.

Por Osvaldo Bertolino – autor da biografia Testamento de luta – a vida de Carlos Danielli

Natural de Niterói, Rio de Janeiro, Danielli, secretário de Organização do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), havia se mudado para São Paulo no processo de preparação da Guerrilha do Guerrilha. Ele era um dos responsáveis pelo encaminhamento dos militantes do Partido mais visados pela ditadura para a Sul do Pará, onde estavam os também dirigentes do PCdoB João Amazonas e Maurício Grabois, que se revezavam em viagens para São Paulo. Danielli era também responsável pela redação, impressão e distribuição do jornal do Partido, A Classe Operária, operação que se dava com os militantes comunistas Maria Amélia de Almeida Teles (Amelinha) e César Augusto Teles.

Além da preparação da guerra popular como caminho da luta armada contra a ditadura, Danielli era peça-chave no processo de incorporação da Ação Popular (AP) ao PCdoB. Ele e o também integrante do Comitê Central, Pedro Pomar, estabeleceram os primeiros contatos com a direção da AP para tratar da incorporação. Na evolução do processo, a AP se se transformou na Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Um de seus principais dirigentes, Duarte Pacheco Pereira, passou a ser o interlocutor da organização com Danielli.

O prosseguimento dos entendimentos se deu com a intensificação da repressão. A ditadura apertava o cerco sobre a resistência e o PCdoB aumentou o envio de militantes para o Araguaia, local distante dos grandes centros. Danielli era peça-chave também nessa operação. Com o ataque da ditadura no Araguaia, iniciado em 12 de abril de 1972, a Guerrilha ficou isolada da Comissão de Organização, sem comunicação e com suprimentos reduzidos. Grabois conseguiu enviar correspondência para Danielli pela guerrilheira Criméia Alice Schmidt de Almeida, irmã de Amelinha, que precisou deixar a região por estar grávida, numa operação de alto risco. O PCdoB estava sob severa vigilância em todo o país.

A vida e a militância de Danielli

Danielli, apesar de relativamente jovem – estava com quarenta e três anos de idade –, era um dirigente experiente. Estava no Partido desde a adolescência, influenciado por seu pai, Paschoal, que foi dirigente comunista no Rio de Janeiro, liderança sindical de destaque e deputado estadual constituinte eleito em 1947.Danielli se integrou à União da Juventude Comunista (UJC), participou da delegação que fez um curso intensivo de marxismo-leninismo na URSS em 1952/53 e, no IV Congresso do Partido, em 1954, foi eleito membro do Comitê Central, aos vinte e cinco anos de idade.

No surto revisionista que se instalou no movimento comunista a partir do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), no começo de 1956, ele e Amazonas foram os primeiros a se manifestarem em defesa do Partido. Danielli também foi ver de perto a experiência da Revolução Cubana, vitoriosa em 1º de janeiro de 1959, o caminho da luta armada que conduziu os guerrilheiros liderados por Fidel Castro da Sierra Maestra a Havana. Ele voltaria a Cuba, desta vez acompanhado de Ângelo Arroyo, mas não consta que deixaram algum registro escrito do que viram – ao contrário de Pomar, que fez um relato minucioso de sua estada de duas semanas e meia em Cuba, em uma série de artigos no jornal comunista Novos Rumos.

Danielli, considerado próximo de Grabois, se destacou também no debate do V Congresso do Partido, em 1960, que evoluiria para a sua reorganização, em 1962, após a criação, pelos revisionistas, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1961. Jacob Gorender, um dos ideólogos do novo PCB, escreveu na Tribuna de Debates do V Congresso: “Seria injusto falar do discípulo (Danielli) e silenciar sobre o mestre. Chegamos, pois, ao camarada Maurício Grabois.”

                                                                                                                       Carlos Nicolau Danielli

Ele havia se profissionalizado jornalista e foi um dos organizadores do Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado em setembro de 1961, na cidade de Nova Friburgo. Com sua posição firme contra o revisionismo, seria um dos “expulsos” do novo PCB, ao qual nunca pertenceu, no processo de reorganização do Partido. Uma nota no jornal Novos Rumos, em janeiro de 1962, informou que ele foi “expulso das fileiras do movimento comunista por exercer atividades fracionistas”. Antes, havia sido enviado para o estado do Espírito Santos, afastado pela direção revisionista, onde trabalhou como jornalista no jornal local do Partido.

Depois do golpe militar de 1964, Grabois, Amazonas e Danielli providenciaram a mudança de suas famílias para a cidade de São Paulo. Danielli montou um “aparelho” de imprensa na capital paulista – inicialmente na Rua Lisete, Jardim Miriam, zona Sul, e, posteriormente, na Rua Maria Bittencourt Petit, Cidade Ademar, também na zona Sul – para a impressão d’A Classe Operária, trabalho que conciliava com a direção da Comissão de Organização, da qual também faziam parte, pela Comissão Executiva do Partido, Dynéas Aguiar e Pomar, em São Paulo, e Lincoln Oest e Luiz Guilhardini, no Rio de Janeiro.

Caminho da luta armada

A direção do PCdoB chegou à conclusão de que para discutir profundamente a forma de enfrentar a ditadura militar seria necessário convocar uma Conferência – a VI, realizada em julho de 1966 em São Paulo. Foram discutidas a situação política e a atividade partidária, modificações estatutárias e a recomposição do Comitê Central.

Além das questões organizativas – principalmente a segurança –, a Conferência debateu e aprovou a linha política, contida no documento União dos brasileiros para livrar o país da crise, da ditadura e da ameaça neocolonialista. “Perigo sem precedente paira sobre o Brasil, sujeito a viver longo tempo sob o regime ditatorial, a ter seu desenvolvimento interrompido e a perder suas características de nação independente”, diz o documento. “Em tal circunstância, nenhum problema pode sobrepor-se ao objetivo de salvar o país desse perigo.”

O PCdoB apontou a guerrilha como uma das principais formas de luta contra a ditadura. “A ideia de que é indispensável empunhar armas para libertar o país do atraso e da opressão vem ganhando força”, diz o documento. “A luta revolucionária em nosso país assumirá a forma de guerra popular”, definiu a Conferência. “As forças armadas populares, inicialmente débeis, crescem e tornam-se fortes e superiores às do adversário. (…) Sendo parte integrante do povo, têm nele a fonte de sua invencibilidade.”

A ideia contida no documento era de realizar um intenso trabalho político e de organização popular, criando pequenos núcleos de combatentes, “no amplo emprego da tática de guerrilha e na criação de bases de apoio no campo”. “Em toda parte, em especial no campo, é preciso discutir os problemas da luta armada e, guardadas as normas de trabalho conspirativo, tomar medidas visando à sua preparação prática”, diz o texto.

O PCdoB saiu a campo para verificar os melhores lugares para começar a implantação da guerra popular. Foram criados três grupos de trabalho – um dirigido por Grabois e Amazonas, outro por Pomar e um terceiro por Danielli. O grupo de Pomar se fixaria na região do Vale do Ribeira, em São Paulo. Danielli e seus companheiros foram para o Oeste da Bahia e visitaram alguns pontos no Ceará, Piauí e Maranhão. Grabois e Amazonas foram para a região do Araguaia.

Prisão, tortura e morte

Danielli foi preso, em 28 de dezembro de 1972. A emboscada da repressão começou no estado do Espírito Santo, com a prisão de um dirigente local do PCdoB, e terminou na Rua Loefgreen, zona Sul de São Paulo, onde ele, com a correspondência enviada por Grabois, teria um encontro com Lincoln Oest para informá-lo sobre a situação no Araguaia.

Lincoln havia sido detido e assassinado no Rio de Janeiro no dia 20 de dezembro de 1972. Foi o primeiro a cair. O contato do preso no Espírito Santos com a direção era por meio de Lincoln. Sob brutais torturas, ele entregou o “ponto” no Rio de Janeiro. A cilada havia produzido o primeiro grande resultado. Lincoln pagou com a vida a decisão de nada revelar, mas o mesmo não ocorreu com o motorista encarregado de conduzi-lo ao “ponto”. Sob torturas, ele revelou o encontro previamente marcado com Danielli e foi levado para a capital paulista como isca.

Quando Danielli chegou ao local, não avistou Lincoln, mas, atraído pela isca, resolveu se aproximar. Deu de cara com armas sobre a sua cabeça. Os agentes da repressão comunicaram a seus superiores, por rádio, que estavam com um “peixe graúdo”. Danielli seria encaminhado ao inferno, como diziam os torturadores às suas vítimas, às vezes identificando-se como Lúcifer.

Arrastado pelo pátio cimentado, protegido da vista dos passantes pelo largo prédio de dois andares da 36ª Delegacia de Polícia, no número 921 da Rua Tutoia, no bairro do Paraíso, seria submetido à brutalidade dos bandos que atuavam no local. As instalações pertenciam ao Exército Brasileiro e abrigavam o DOI-Codi, o Destacamento de Operações e Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, uma sofisticada máquina de torturar e matar que nasceu da Operação Bandeirantes (Oban), surgida em julho de 1969.

Sua certidão de nascimento é uma “Diretriz presidencial”, de setembro de 1970, assinada pelo ditador Emílio Garrastazu Médici, determinando que todos os comandos do Exército adotassem aquele sistema. Com essa medida, o regime oficializou e expandiu no país a experiência de unificar as ações repressivas da Oban. Em São Paulo, o DOI-Codi, comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, atuava em conjunto com um bando de policiais civis sob a liderança do delegado do Departamento de Ordem Política e Social, Sérgio Paranhos Fleury, que também promovia uma monstruosa escalada criminosa.

À esquerda, foto de identificação policial CarImagens anexadas ao processo de Carlos Nicolau Danielli na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. À esquerda, foto de identificação policial após ser capturado pela repressão da ditadura militar. À direita e abaixo, as imagens de Danielli após sua morte sob tortura no DOI-Codi.

Era a “Casa da vovó”, conforme definiam os torturadores, onde se sentiam à vontade para torturar e matar. Já no início do “interrogatório”, Danielli afirmou: “É disso que vocês querem saber (a Guerrilha do Araguaia)? Pois é comigo mesmo. Só que eu não vou dizer. Só faço o meu testamento político.” Morreu, torturado pessoalmente por Ustra, em 31 de dezembro de 1972.

Leia também: Verdade e justiça para Carlos Danielli e demais mortos pela ditadura militar

No começo de 1973, Luís Guilhardini também foi preso, torturado e assassinado no Rio de Janeiro. Em março do mesmo ano, Lincoln Bicalho Roque, jovem membro do Comitê Central do Partido e principal dirigente da União da Juventude Patriótica (UJP) – organização importante no envio de jovens visados pela ditadura para o Araguaia –, seria igualmente assassinado na capital carioca.

                                                                                Lincoln Bicalho Roque, Luiz Guilhardini, Lincoln Oest e Carlos Danielli

Incorporação da APML

As mortes dos dirigentes do PCdoB mudaram o rumo da APML. Em nota, sua direção chamou os assassinatos de covardes, um ato que causava indignação e repulsa. O governo do ditador Médici, segundo o documento, desenvolvera a um nível sem precedentes na história da pátria o terrorismo contra o povo e os sacrifícios da soberania nacional.

Ao mesmo tempo, disse a APML, uma frente antifascista começava a se levantar, como demonstrava a resistência no Araguaia, tocando fundo o coração do povo, renovando-lhe as esperanças e apontando-lhe o caminho da libertação. A ditadura sentia que o futuro não lhe sorria e apavorava-se, dizia a nota. “Compreendendo que o Partido da classe operária era o seu mais tenaz e consequente opositor, os generais fascistas concentravam sua linha de fogo contra o PCdoB”, afirmou.

De acordo com a APML, os frios assassinatos de Carlos Danielli, Lincoln Oest, Luís Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque faziam parte do plano sinistro do regime terrorista de privar o povo brasileiro da sua vanguarda lúcida e experimentada. Quando a ira dos generais fascistas se voltava contra o PCdoB, prosseguiu a nota, a APML apresentava ao Partido o apoio combatente, completo e irrestrito.

A nota apresentou sentida solidariedade pela perda “dos bravos combatentes tombados na luta”. “Conhecíamos bem a Carlos Danielli, que conosco se relacionou em termos partidários. Fez-se um grande amigo da Ação Popular e muito nos ajudaram seus conselhos. Também conhecíamos a Luís Guilhardini que, da mesma forma, se tornara nosso amigo e nos ajudara. Rendemos especial homenagem a estes dois saudosos camaradas.”

A APML manifestou a confiança de que “o experimentado Comitê Central do PCdoB” saberia retemperar-se “e continuar a trajetória luminosa de seus cinquenta anos de luta”. “Se a barbárie intimida os covardes, enche de mais resolução os autênticos revolucionários. A sanha terrorista desencadeada pela ditadura Médici contra o PC do Brasil e o sangue derramado por quatro de seus destacados dirigentes tornam mais imbatível a nossa firme convicção de que a todos os marxistas-leninistas do Brasil cabe buscar fortalecer, prontamente, o PC do Brasil. Conduzir a Ação Popular a este objetivo tornou-se, para nós, mais justo e urgente”, finalizou o documento.

Aqueles crimes da ditadura aceleraram os entendimentos sobre a incorporação ao PCdoB. Na compreensão da maioria, não fazia mais sentido realizar o Congresso para resolver pendências superadas pela urgência de reforço à resistência à ditadura. Em 17 de maio de 1973, o Birô Político do Comitê Central da APML divulgou sua última circular, com o título Incorporemo-nos ao PC do Brasil.

Comunistas celebram os 105º aniversário do PCCh, o maior partido governante do mundo

Por Osvaldo Bertolino

Há 105 anos, em 1º de julho de 1921, em uma noite de céu carregado de nuvens escuras ameaçando chuva Mao Tse-tung partiu para Xangai, secretamente, para participar do primeiro Congresso do Partido Comunista da China (PCCh). Doze delegados reuniram-se no evento, realizado numa escola na então concessão francesa de Xangai. Como era período de férias, o prédio estava vazio e, mediante uma gorjeta, o porteiro abriu as portas de um modesto celeiro dos fundos, onde se reuniram os fundadores do comunismo chinês.

Perseguidos pela polícia, alertada por um infiltrado, os delegados fugiram – dois foram detidos – e terminaram o Congresso sob o disfarce de um piquenique a bordo de uma pequena embarcação no meio do lago, 50 quilômetros ao sul de Xangai. O PCCh nascia com uma lista de 52 membros. Rapidamente a organização se expandiu pela China e criou organizações em outros países, como a França, a Alemanha, a Rússia e o Japão.

Depois de uma longa marcha, literalmente falando, em 1949 os comunistas chineses, liderados por Mao Tse-tung, anunciaram a vitória da Revolução. Foram 37 anos de guerra. O líder da marcha declarou: “Desde 1927 até o momento presente, o centro de gravidade de nosso trabalho residiu nas aldeias. Recrutamos nossas forças nas aldeias e as utilizamos para cercar as cidades e ulteriormente tomá-las. O período caracterizado por estes métodos de trabalho já terminou. O período ‘da cidade ao campo’ e de ‘a cidade dirige as aldeias’ começou.”

Estava proclamada a República Popular da China. Mais 475 milhões de pessoas passaram para o campo socialista. “Nossa grande terra está livre do sistema semicolonial e semifeudal, e inicia-se no caminho da independência, liberdade, paz, unidade, força e prosperidade”, disse Mao Tse-tung. Em 1º de outubro de 1949, o primeiro presidente da nova nação revolucionária anunciou, na Praça Tien An Men (Praça da Paz Celestial), a fundação da nova China, simbolizada pela bandeira com um retângulo vermelho e cinco estrelas – as quatros menos representando as classes aliadas (operários, camponeses, pequenos burgueses e burguesia Nacional), gravitando em torno da estrela maior, o Partido Comunista.

Homenagem dos comunistas brasileiros

Mao Tse-tung era muito considerado pelos comunistas brasileiros. No Pleno Ampliado do Comitê Nacional do Partido Comunista do Brasil (então com a sigla PCB) realizado entre 4 e 13 de janeiro de 1946, o líder chinês foi o presidente de honra. Uma inscrição dizia: “Do Partido Comunista do Brasil a Mao Tse-tung, o heroico bolchevique, dirigente máximo do PCCh”. João Amazonas, em nome da Executiva, falou de improviso sobre Mao Tse-tung — segundo ele, uma homenagem aos povos e milhões de trabalhadores dos países dependentes e semidependentes, que lutavam pela paz e pela liberdade, pela liquidação dos inimigos do seu progresso e independência nacional.

Em setembro de 1956, Pedro Pomar, membro da direção nacional do Partido Comunista do Brasil, desembarcou em Pequim para acompanhar o VIII Congresso do PCCh e ouviu Mao Tse-tung dizer em seu Informe Político que “o prestígio, a influência e a experiência dos chefes têm sido extremamente preciosos para o partido e o povo”, uma referência aberta aos ataques do grupo do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) liderado de Nikita Kruschev a Josef Stálin, então recém-falecido. “Prezar e saudar os chefes não significa torná-los objeto de adoração”, completou o líder chinês. Pomar levou uma mensagem do Comitê Central do PCB, assinada por Luiz Carlos Prestes, transmitida na íntegra pela Rádio Pequim.

Na crise desencadeada pelo XX Congresso do PCUS, realizado em 1956, uma prolífica publicação de documentos mostrou o abismo que se formara entre a China e a União Soviética. Em outubro de 1961, o XXII Congresso do PCUS se prestou a novos ataques ao histórico líder soviético, vigorosamente rebatidos pelo representante chinês, Chou En-lai.

A troca de farpas era aberta. Quando Kruschev subiu à tribuna e começou a criticar em termos violentos a Albânia, Chou En-lai, que também era primeiro-ministro do seu país, retirou-se ostensivamente da sala de debates. Os soviéticos, em um lance teatral, chegaram ao extremo de retirar do túmulo de Lênin os restos mortais de Stálin, ao passo que o representante chinês homenageava a sua memória depositando uma coroa de flores na nova sepultura do histórico líder soviético.

Após o rompimento entre as duas potências socialistas, a China entrou na polêmica “Grande Revolução Cultural Proletária”, mais tarde avaliada pelo Partido Comunista como um grande erro, que se constituiu em atraso para o país. Mais à frente chegaram as reformas e a abertura, criadas por Deng Xiaoping. Essa nova fase do socialismo chinês trouxe desenvolvimento rápido para o país e deu uma contribuição significativa ao desenvolvimento de todo o mundo.

Homenagens do presidente Xi Junping

De acordo com a agência de notícias Xinhua, o presidente  Xi Jinping saudou  os 105 anos de história do PCCh como a “epopeia mais magnífica” da nação chinesa e instou o Partido a prosseguir com a construção de uma China socialista moderna, dentro do prazo previsto. Discursando em uma cerimônia que marcou o 105º aniversário de fundação do PCCh em Pequim, Xi, também secretário-geral do Comitê Central do PCCh e presidente da Comissão Militar Central, conclamou os membros do Partido a permanecerem firmes em suas convicções e a trabalharem incansavelmente para cumprir as missões do Partido na nova era e na nova jornada. O PCCh é o maior partido governante do mundo, com enorme influência global, segundo a Xinhua.

Xi enfatizou a importância de atingir a meta de concretizar plenamente a modernização socialista até meados do século. “O tempo não para para ninguém, e a história também não”, disse ele. Todo o Partido deve aderir à sua teoria básica, linha básica e política básica para “permanecer firme diante das adversidades e manter o rumo em meio ao vento e às ondas”, disse. Enfatizando que o Partido deve contar com o apoio fundamental do povo para criar feitos históricos, ele exortou os membros do Partido a “revigorar ainda mais o espírito empreendedor para realizar as coisas”.

Também conclamou todo o Partido a responder ativamente aos riscos e desafios no caminho à frente. “O desenvolvimento da China está agora em um período em que oportunidades estratégicas coexistem com riscos e desafios, e em que fatores incertos e imprevisíveis estão em ascensão. Devemos estar sempre preparados para resistir a grandes provações, como ventos fortes e ondas furiosas, e até mesmo tempestades violentas”, alertou. À medida que mudanças profundas, nunca vistas em um século, se aceleram, o mundo entrou em um novo período de turbulência e transformação, com a humanidade mais uma vez em uma encruzilhada de escolhas, disse Xi. “Devemos promover continuamente a construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”, afirmou.

Xi também enfatizou o avanço da autogovernança plena e rigorosa do Partido, com esforços contínuos para vencer “a dura, prolongada e total batalha contra a corrupção”. “É imperativo que todos nós no Partido jamais esqueçamos nossa aspiração original e missão fundadora, que sempre permaneçamos modestos, prudentes e trabalhadores, e que tenhamos a coragem e a capacidade de prosseguir nossa luta”, acrescentou.

De acordo com as estatísticas mais recentes, presegue a Xinhua, o PCCh agora possui quase 101,29 milhões de membros e mais de 5,43 milhões de organizações partidárias de nível primário. Na reunião, Xi Jinping conferiu a Medalha de 1º de Julho, a mais alta honraria do Partido. Oito pessoas receberam a honraria este ano, incluindo um mediador comunitário, um veterano de guerra, um funcionário do Partido em uma aldeia, um médico rural, um agente comunitário, um especialista agrícola, um especialista em engenharia mecânica e um especialista em engenharia de refino de petróleo, este último homenageado postumamente.

Membros de destaque do Partido, militantes e organizações partidárias de nível primário de todo o país também foram homenageados na reunião que reuniu 3.000 pessoas. O evento contou com a presença de Li Qiang, Zhao Leji, Wang Huning, Cai Qi, Ding Xuexiang e Li Xi Jinping,  todos membros do Comitê Permanente do Birô Político do Comitê Central do PCCh, bem como do vice-presidente Han Zheng.

Xi Jinping afirmou que o PCCh possui qualidades excepcionais sem paralelo entre outros partidos políticos e forças políticas. Ele afirmou que os esforços do Partido ao longo dos últimos 105 anos transformaram fundamentalmente o futuro do povo chinês, pavimentaram o caminho certo para o grande rejuvenescimento da nação chinesa, demonstraram a forte vitalidade do marxismo, tiveram uma profunda influência no curso da história mundial e fizeram do PCCh um poderoso Partido Comunista.

Capacidade de luta do Partido, sua confiança inabalável

Sob a liderança do PCCh, a China se tornou a segunda maior economia do mundo, emergiu como uma das potências inovadoras de crescimento mais rápido do mundo, elevou a expectativa média de vida de sua população para mais de 79 anos e estabeleceu os maiores sistemas de educação, previdência social e saúde do mundo. O Partido permanece comprometido com a busca da verdade e sempre adere à direção correta, disse Xi, acrescentando que está profundamente enraizado no povo e sempre possui uma base sólida.

Ele disse que o PCCh cumpre corajosamente suas missões históricas e sempre mantém a iniciativa estratégica. Acompanha a tendência do desenvolvimento e permanece sempre na vanguarda de seu tempo. Xi também elogiou a coragem e a capacidade de luta do Partido, sua confiança inabalável na vitória e seu compromisso com o aprimoramento contínuo. Tendo liderado o país na erradicação da pobreza extrema, o PCCh delineou um plano para concretizar a modernização até 2035 e transformar a China em uma grande nação socialista moderna em todos os aspectos até meados do século.

Enfatizando a necessidade de manter a liderança absoluta do Partido sobre as Forças Armadas, Xi instou a que se envidassem esforços para alcançar as metas do centenário do Exército de Libertação Popular em 2027 e elevar as Forças Armadas Populares a um patamar de excelência mundial em ritmo acelerado. Ele também conclamou os militares a defenderem resolutamente a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento da China, e a contribuírem ainda mais para a salvaguarda da paz e do desenvolvimento mundial.

Promover a prosperidade e a estabilidade a longo prazo de Hong Kong e Macau é essencial para alcançar o rejuvenescimento nacional, disse Xi. Resolver a questão de Taiwan e concretizar a reunificação completa da China são uma missão histórica e um compromisso inabalável do Partido Comunista Chinês, afirmou. Ele prometeu ações resolutas para combater os separatistas que buscam a “independência de Taiwan”, opor-se à interferência externa e promover a reunificação nacional.

O culto às armas matou o meu irmão

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Meu irmão Cláudio tinha apenas 27 anos quando uma mísera bala de revólver lhe tirou a vida. Era uma tarde de sábado, dia 7 de janeiro de 1995. Ele tinha dois meninos: um de três anos e outro de um ano e meio. Recebi a notícia na casa da minha mãe, em Maringá, Noroeste do Estado do Paraná. Meu irmão estava na confluência do Estado do Paraná com o Estado do Mato Grosso do Sul, divisa com o Paraguai. Em uma falha de procedimento, uma pessoa não habilitada a usar armas pegou o revólver do meu irmão — que era policial civil — e disparou a esmo. O tiro o executou sem motivo, sem qualquer chance de defesa ou apelação, como se fosse uma brincadeira sem graça. Acidente? Casualidade? Negligência? Não sei. Há um motivo: a cultura da arma como símbolo de poder. Isso motivou o sujeito que atirou em meu irmão a se apossar do revólver indevidamente.

Poderia dizer que é fácil demais matar alguém no Brasil. Que a vida vale muitíssimo pouco no Brasil. Que as pessoas são trucidadas por engano no Brasil. E que, se não fizermos nada, homicídios podem se tornar moeda de troca nas relações entre vários de nossos grupos sociais. Poderia dizer que há cada vez menos chances de eu e você não nos envolvermos nisso. Porque não dá para fingir que não é conosco quando a violência está cada vez mais próxima. Poderia dizer que há mazelas sociais demais regendo nosso convívio. Poderia dizer que o que aconteceu com meu irmão não é aceitável entre adultos civilizados. Poderia dizer, ainda, que o Brasil, com a nossa conivência, com a nossa inação, está escolhendo o caminho do tiro, da facada, das ações e reações violentas, em detrimento do caminho do diálogo, da lógica, do argumento, do respeito mútuo.

Profundezas da alma humana

Poderia dizer muitas outras coisas. Mas a vontade é terminar este relato aqui — a sensação é que eu já disse tudo para ser contra o comércio de armas e munição. Gostaria de terminá-lo de modo seco, abrupto, sem tentativas de explicação, sem conclusão alguma. Terminá-lo aqui, de forma arbitrária, bruta, exatamente como foi encerrada a vida do meu irmão. Por que escrever quando não há o que dizer? Qualquer raciocínio perde o sentido diante da lembrança das crianças que tiveram o pai arrancado de suas vidas, diante da lembrança da mãe deles explicando o que houve, diante da lembrança da minha mãe chocada e incrédula. A palavra é inútil, a frase bem feita é inútil, o parágrafo perfeito é inteiramente inútil diante do absurdo, diante da imensa estupidez, diante do horror da perda do meu irmão.

No entanto, preciso encontrar argumentos para contestar a idéia de que a violência sempre existiu e sempre existirá no convívio humano. Penso que o problema é mais complexo. Diz respeito às profundezas da alma humana. Admiti-lo, obviamente, não significa resignação ao caos e muito menos complacência com criminosos. Significa, sim, enxergar o homem de uma forma menos idealizada. Nas palavras de Charles Darwin, “o temor (…) de que a humanidade perca a sua posição nobre e volte à bestialidade é certamente infundado, mas as regressões ocasionais à bestialidade sempre ocorrerão. Há um chacal adormecido em cada homem”. O historiador gaúcho Décio Freitas sugere que o desafio para a humanidade tem sido “criar uma (…) ordem civilizada, um universo racional e justo, capaz de transformar a bête humaine em ange humaine“.

Momento de dor e revolta

Claro que já andamos quilômetros no caminho da nossa “desanimalização”, desde os tempos em que vivíamos para imolar os inimigos e currar as fêmeas. Mas, na minha opinião, o culto às armas reproduz a lógica da bête humaine. E esse é um problema sério. Por que deixar desobstruída a tendência de alguns de brutalizar seus atos, de exterminar semelhantes (poucas espécies animais o fazem), de agredir aquilo que não entende ou tolera? A diminuição da violência, o controle do chacal, passa pela admissão de uma lógica que lhe seja oposta, que ofereça alternativa ao caminho cruento que o uso efetivo da arma termina por reforçar no leque das atitudes humanas. Por trás da idéia de que uma ameaça evita outra pulsa a lógica “bandido bom é bandido morto”. Ora, se é verdade que a única redenção possível para o criminoso é a morte, a maneira mais eficiente de fazê-lo é liquidar o sujeito o quanto antes. A própria polícia poderia dar conta da tarefa. Economizaríamos o aparato e, de quebra, nem precisaríamos mudar muito o modo como as coisas vêm sendo feitas.

A questão da proibição ou não do comércio de armas e munição, portanto, não é uma oposição entre os que têm coração mole e os que não têm coração. Ela é, no fundo, uma discussão filosófica acerca da natureza humana. E passa pelo Estado de Direito, um projeto racional. Ele é, a um só tempo, produto da civilização e um dos mecanismos políticos que a garantem. O Estado não pode funcionar pelo impulso de um momento de dor ou de revolta. Ou seja: não pode atuar movido por emoções individuais. Por mais naturais e compreensíveis que sejam esses sentimentos, eles não podem ser institucionalizados. O Estado precisa ser equilibrado. Ímpetos não podem virar leis.

A cólera pública e privada

O bom Estado — aquele que queremos construir para elevar a sociedade a um novo patamar — é o Estado que pertence e serve a todos em geral e a ninguém em específico. O Estado, em última análise, deve existir para instaurar a ordem e a igualdade de direitos e deveres entre os cidadãos. O pano de fundo desse cenário democrático é a tolerância, o viés humanista, as forças da civilização. A alternativa a tudo isso é a barbárie. O argumento de que é justo autorizar um indivíduo usar arma para impedir que outro indivíduo cometa atrocidades, portanto, não se sustenta: não há a menor justiça na justiça feita com as próprias mãos. Nem mesmo quando é o aparato estatal que intermedeia a desforra.

O Estado não pode jamais abdicar da civilização que representa e jogar pelas anti-regras da barbárie que suplanta. Sobretudo, é importante compreender que justiça não é vingança e que vingança não é justiça. Segundo o filósofo Paul Ricoeur, um dos mais importantes pensadores franceses do século 20, a função do Estado é atuar como o terceiro elemento, neutro, em um litígio, e estabelecer “uma justa distância entre a transgressão que desencadeia a cólera privada e pública, e a punição infligida pela instituição judicial”. Enquanto a vingança estabelece um “curto-circuito entre dois sofrimentos, o suportado pela vítima e o infligido pelo vingador”, a justiça “interpõe-se entre os dois, instituindo a justa distância” entre agressor e agredido, sob a égide da lei.

Uma realidade anterior à civilização

Somente o Estado de Direito colocado nesta posição imparcial, segundo Ricoeur, pode gerar justiça, ou seja, levar ao restabelecimento do direito, da ordem quebrada pelo crime. A sentença, para Ricoeur, ao transformar a punição em palavra, constrói a justa distância entre o crime e o seu castigo. A sanção, ancorada na lei, quebra o moto-contínuo de violência entre eles. E assim dirime a vingança, a tentação da barbárie, a truculência que de outro modo se reproduziria ad infinitum entre vítima, criminoso e vingador. Esse raciocínio confirma que a antirregra do “olho por olho, dente por dente” é coisa afeita ao tempo dos clãs, onde não havia Estado de Direito, lei ou justiça. Imperava a lógica da vingança. Quem matava morria, quem mutilava era mutilado. Uma realidade anterior à civilização, em que reinava o caos.

É bom que não estejamos, cidadãos modernos, democratas do século 21, empenhados em retornar às sombras. No Estado democrático, a punição que se inflige a um criminoso não é devida à vítima. Ela é devida à lei. Ou melhor, segundo Ricoeur, é “devida à vítima porque devida à lei”. Pensar no Estado como um veículo de vingança — ou que chancela a vingança — e não de justiça é sistematizar o linchamento. A grande questão que se impõe, e que ajuda a definir o estágio de civilização de uma sociedade, é que o direito à vida deve ser garantido inclusive para quem o violou. Um assalto não se torna legal por ser praticado contra um ladrão. Com o homicídio, dá-se o mesmo. O ato de matar não se torna correto por ser praticado contra quem matou. Se é para retornar ao regime do Talião, seria melhor que abstraíssemos a intermediação do Estado legal. A vítima ou seus familiares deveriam poder matar o assassino, estuprar o estuprador, esfolar quem esfolou etc.

O dia em que o Grêmio Maringá desbancou os gigantes soviéticos

Airton Donizete – Folha de S. Paulo

MARINGÁ (PR) “Seleção Soviética vem disposta a esmagar o Galo”. Manchete do extinto “O Jornal”, de Maringá, no interior do Paraná, anunciava o confronto entre Grêmio Esportivo Maringá (GEM) e seleção da antiga União Soviética (URSS), em 13 de fevereiro de 1966.

O chamado “jogo do ano” reuniu mais de 20 mil pessoas , a capacidade máxima do Estádio Willie Davids, de Maringá, segundo a extinta revista Panorama, de Londrina. A preocupação com os soviéticos não era em vão. A equipe tinha no gol o lendário Lev Yashin, o Aranha Negra, considerado um dos melhores goleiros de todos os tempos, e o ponta direita Slava Metreveli, conhecido por “Garrincha russo”.

Time soviético em jogo no interior do Paraná, em 1966 – Revista Panorama/Reprodução

Os amistosos no Brasil serviam de preparação para a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, na qual os soviéticos ficaram em quarto lugar. Em Minas Gerais, a URSS goleara o Atlético Mineiro por 6 a 1, vencera o Cruzeiro por 1 a 0 e o Uberlândia por 2 a 0. Mas o GEM venceu-os por 3 a 2, fazendo valer a fama da equipe do interior, que conquistara o bicampeonato paranaense e o tricampeonato do norte do estado.

Se os soviéticos tinham Yashin e Metreveli, o GEM tinha o zagueiro Roderley Geraldo de Oliveira, que comandava a defesa e permaneceu na cidade após encerrar a carreira. Ele recorda que os soviéticos tinham uma estrutura de fazer inveja. “No intervalo, por exemplo, eles beberam crusch e comeram pão com presunto, e a gente só tinha uma aguinha pra beber”, conta.

Maurício observado por Roderley, atrás, defende bola chutada por jogador russo – Revista Panorama/Reprodução

Outro destaque era o goleiro Maurício Gonçalves, que também vive em Maringá. A maioria dos ataques soviéticos que passava pela zaga parava nas mãos dele. “Ficamos emocionados com o estádio lotado nos apoiando com muita empolgação”, diz. “Do outro lado, víamos o lendário goleiro Yashin e o habilidoso Metreveli, mas acreditávamos que tínhamos condições de vencer e foi o que aconteceu”.

Para Maurício, não houve surpresa, enumerando os títulos que a equipe maringaense conquistara nos anos anteriores. Ele cita a boa fase do artilheiro Edgar, autor de dois gols contra os soviéticos. “Ficamos com receio porque era uma equipe muito forte, mas não baixamos a cabeça e fomos pra cima”, afirma Edgar, que está com 81 anos e mora em Ponta Grossa (PR).

O ex-goleiro Maurício exibe lembranças do jogo entre o time de Maringá e a seleção da antiga União Soviética – Foto: Airton Donizete/Folhapress

O advogado Alcides Siqueira Gomes, que morreu há dois meses, aos 71, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), não participou do jogo, mas vivenciou-o, não apenas porque esteve no Estádio Willie Davids naquele dia memorável, mas por causa de uma lembrança especial.

Colecionador de cédulas antigas, ele contou em entrevista à imprensa local em 2018 que se aproximara de Metreveli e, com ajuda de um interprete em inglês, lhe dissera que queria ter uma cédula russa de cem rubros para agregar a sua coleção.

O craque lhe prometera enviá-la. Em pouco mais de 30 dias, chegava pelos Correios na casa do advogado o presente do ídolo soviético. Siqueira guardava-a com carinho entre outras da sua coleção.

Com renda de 63 milhões de cruzeiros, Luiz Roberto abriu o placar aos 13 minutos do primeiro tempo para o GEM. Edgar ampliou aos 20; os russos reagiram. Serebriniev marcou aos 27, e Banichewski empatou aos 42 da primeira etapa. Edgar voltou a marcar aos 13 da fase final dando a vitória ao GEM.

O então governador do Paraná, Paulo Cruz Pimentel, enviou cumprimentos à diretora do GEM e ao prefeito Luiz Moreira de Carvalho pela conquista da equipe maringaense.

Equipe do GEM. Em pé: Roderley, Oliveira, Maurício, Edson Faria, Haroldo e Pinduca; agachados: Luiz Roberto, Célio, Edgar, Zuring e Valtinho. Revista Panorama/Reprodução

Os caminhos paralelos de André Esteves, do BTG Pactual, e Daniel Vorcaro, do Banco Master

O que André Esteves e Daniel Vorcaro de fato disputavam - PlatôBR

Quando o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, em dezembro do ano passado, parte do mundo financeiro e político não encarou o episódio apenas como uma falência técnica. Nos círculos do poder, o movimento era visto como o fim de uma guerra travada há meses nos bastidores.

De um lado estava Daniel Vorcaro, dono do Master, preso pela Polícia Federal no mesmo dia da intervenção. Do outro, André Esteves, presidente do conselho do BTG Pactual, apontado por muitos como o suposto “arquiteto” de uma estratégia para enfraquecer o concorrente — por meio da pressão sobre autoridades e de vazamentos seletivos de informações para a imprensa.

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, apreendidas na Operação Compliance Zero e enviadas à CPMI do INSS, revelam um conflito direto entre os dois banqueiros. Nas conversas privadas, Vorcaro descreve um cerco que mistura uma sequência de investidas contra ele, exposição pública e uma paranoia crescente.

Em 19 de novembro de 2024, Vorcaro disse à então namorada, Martha Graeff: “Esteves me deu uma espremida para ficar com o banco”. Meses antes, em julho, ele já reclamava de um “ataque de mídia” que atribuía ao rival.

“Banco é igual máfia”

E o clima só esquentou com o passar do tempo. Em abril de 2025, Daniel Vorcaro escreveu: “Agora a guerra com André está exposta”, sugerindo que reportagens negativas sobre o Master foram “compradas” pelo adversário.

O vocabulário usado por Vorcaro ajuda a entender o ambiente. “Esse negócio de banco é igual máfia. Não dá para sair. Ninguém sai bem. Só sai mal”, desabafou.

Em outra sequência de mensagens, ele acusa André Esteves de “entrar na mente dos caras do Bacen”, numa referência ao Banco Central.

Em 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro registrou em seu bloco de notas: “Amanhã começam as batidas do Esteves”. No dia seguinte, o BC decretou oficialmente o encerramento do Master, citando “grave crise de liquidez”, “comprometimento significativo da situação econômico-financeira da instituição” e “violações às normas do Sistema Financeiro Nacional”.

As acusações são negadas pelo BTG Pactual, mas o caso reforça a imagem de André Esteves como uma presença constante na política do país. Sua trajetória, de jovem programador de computadores a líder de um império de investimentos (chegando a interlocutor de presidentes e ministros), mostra como dinheiro e influência circulam onde as decisões realmente são tomadas.

“Concurseiro” de elite

André Esteves, de 57 anos, cresceu num apartamento de classe média no bairro da Tijuca, na Zona Norte carioca. Filho de pais separados, criado pela mãe professora e pela avó manicure, ele logo entendeu que estudar era o único caminho possível para uma vida mais promissora e confortável.

“Quanto mais você estuda e trabalha, mais sorte você tem”, gosta de dizer.

Na década de 80, Esteves se destacou no Rio de Janeiro como “concurseiro” de elite. Aos 17 anos, ficou em primeiro lugar nacional na prova para a Marinha Mercante — feito que repetiu no ano seguinte.

Ele chegou a tentar a carreira na área, para realizar o sonho da avó, mas desistiu ao perceber que o percurso seria lento e pouco recompensador. “Em 30 anos, eu estaria no mesmo lugar que todo mundo”, afirma.

Esteves acabou optando por ingressar na UFRJ, onde passou no vestibular com folga e se formou em Ciência da Computação e Matemática. Enquanto estudava, trabalhou no instituto de pesquisa da própria universidade para ajudar a mãe e a avó a pagar as contas.

Até que, em 1989, aos 21 anos, ele respondeu a um anúncio de jornal enigmático, que buscava “jovens talentosos e ambiciosos”. Era uma vaga de programador em um banco novo, criado há apenas seis anos: o Pactual.

De programador a sócio

Fundado por Paulo Guedes, Luiz César Fernandes e André Jakurski, o Pactual operava sob uma cultura de meritocracia levada a sério. Quem se destacava de verdade podia comprar participação no banco e virar sócio.

“Aquele menino da mesa tinha um talento descomunal, uma dedicação descomunal e uma ambição descomunal”, diz Paulo Guedes. A “mesa” a que ele se refere é o núcleo do banco — o pregão, onde operadores compram e vendem ativos em ritmo frenético, assumindo riscos reais e tomando decisões que podem gerar milhões em minutos.

Foi ali que André Esteves chamou a atenção: jovem, vindo da área de tecnologia, obcecado por estudo e rápido de raciocínio. Durante o caos do Plano Collor, enquanto muitos executivos experientes patinavam diante das novas regras, ele leu o regulamento linha por linha, repetidas vezes, até identificar brechas e oportunidades que passavam despercebidas.

As apostas de Esteves davam tão certo que, em 1993, aos 24 anos, ele virou sócio do Pactual. Cinco anos depois, quando o fundador Luiz César Fernandes enfrentou dificuldades financeiras em negócios pessoais, o jovem liderou um movimento interno que tomou o controle da instituição de seu próprio mentor.

“Ninguém podia discutir com um cara que estava ganhando tanto dinheiro para o banco”, afirma Fernandes.

O jovem bilionário

Em 2006, André Esteves vendeu o Pactual para o grupo suíço UBS por US$ 3,1 bilhões, tornando-se um dos mais jovens bilionários do Brasil. Mudou-se para Londres, onde assumiu a chefia global de renda fixa do banco suíço, mas não se adaptou à nova realidade.

A estrutura hierarquizada e avessa ao risco da instituição não combinava com o seu perfil mais arrojado. Além disso, a rotina era insana: ele precisava acompanhar ao mesmo tempo o que acontecia nos EUA, na Europa e no Brasil.

Após deixar o UBS, em junho de 2008, André Esteves se juntou a um grupo de nove sócios para criar a BTG Investments. A ideia do novo projeto era resgatar a cultura original do Pactual, com a mesma lógica de meritocracia e sociedade.

A BTG rapidamente mostrou a que veio: adquiriu a operação brasileira do Lehman Brothers logo após sua falência, revendendo a carteira com lucro poucos dias depois.

No ano seguinte, Esteves fechou o que o mercado chamou de “negócio da década”. Ele comprou o Pactual de volta do UBS por US$ 2,5 bilhões — os suíços, afundados em mais de US$ 40 bilhões em perdas devido à crise financeira mundial, precisavam se desfazer de ativos para sobreviver.

O valor pago era menor do que o da venda original, mas o banco havia sido engordado pelos aportes suíços. No fim das contas, o patrimônio líquido tinha quadruplicado.

Estava criado o BTG Pactual. Oficialmente, a sigla significava Banking and Trading Group. Mas, nos bastidores da Faria Lima, todo mundo sabia o sentido real: Back to the Game (“De Volta ao Jogo”).

Um banqueiro em Bangu

Em novembro de 2015, André Esteves sofreu um revés: foi parar no presídio de Bangu 8, por determinação do ministro do STF Teori Zavascki.

A acusação? Tentativa de obstrução de justiça na Operação Lava Jato, com base em gravações que sugeriam sua disposição em pagar pelo silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró para evitar delações.

Na cadeia, o banqueiro leu o Código Penal, organizou jogos de futebol e, segundo relatos, manteve a calma. Vinte e oito dias depois, o Supremo considerou que não havia provas suficientes para manter a prisão preventiva.

Em 2018, Esteves foi absolvido. O ministro Gilmar Mendes classificou o episódio como “o maior erro judiciário da história do Brasil”.

A expansão

Depois da Lava Jato, Esteves mudou de estratégia nos negócios. Em vez de depender apenas do mercado financeiro, passou a comprar empresas em crise e reestruturá-las.

Ele pegou a antiga MPX, de Eike Batista, e transformou na Eneva, hoje a maior operadora privada de gás natural do Brasil. Também investiu em hospitais, hotéis, educação, florestas e tecnologia.

O BTG de 2026 é menos um banco tradicional e mais um conglomerado com presença em quase todos os setores relevantes da economia — e, por consequência, em quase todas as decisões relevantes do país.

Ao lado de Elon Musk

Além de ser reconhecido como um habilidoso gestor na administração e nas finanças, André Esteves é famoso por sua capacidade de circular entre diferentes grupos de poder.

Ele foi próximo de Lula nos primeiros mandatos, participou dos projetos de infraestrutura de Dilma e, quando o PT deixou o Planalto, adaptou-se sem cerimônia.

Na gestão de Jair Bolsonaro, o começo foi difícil. Há quem diga que Paulo Guedes, seu ex-sócio, fechou as portas do Ministério da Economia para ele.

Mas Esteves fez um contorno bem calculado. Aproximou-se do ministro das Comunicações (e genro de Silvio Santos) Fábio Faria — que, ao deixar o governo, foi contratado pelo BTG.

Em 2022, quando Elon Musk visitou o Brasil, foi Esteves quem sentou ao lado do americano durante um almoço realizado no interior de São Paulo. Fluente em inglês, o banqueiro atuou como o principal interlocutor de Musk na mesa, enquanto Jair Bolsonaro permanecia próximo.

A “patada” de Lula

Com a volta de Lula, houve um “climão” inicial.

Em um jantar durante a campanha de 2022, André Esteves perguntou ao então candidato o que ele pretendia manter do legado de Jair Bolsonaro. Lula respondeu na lata: “Ô, André, você como eu sabe o que é ficar preso. Então não vem me dizer que tem alguma coisa positiva do governo Bolsonaro”.

A resposta arrancou risos da plateia e deixou o banqueiro sem reação. Quem estava lá conta que Esteves não gostou nem um pouco.

Mas, de novo, ele encontrou o caminho. Virou uma espécie de ponte informal entre o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, e o ministro Fernando Haddad, ajudando a costurar acordos em torno de medidas arrecadatórias.

O pouso no Tayayá

A relação de André Esteves com o STF segue a mesma lógica. Nelson Jobim, ex-presidente da Corte, tornou-se sócio do BTG após atuar na defesa de Esteves e hoje coordena as relações institucionais do banco em Brasília.

O contato do banqueiro com Gilmar Mendes, dizem, é frequente. Os dois costumam discutir segurança jurídica e o ambiente de negócios.

Já com Dias Toffoli, a história é mais complexa.

A proximidade entre Esteves e Toffoli foi exposta em 2023, quando imagens mostraram o magistrado recebendo o banqueiro no famoso resort Tayayá, no interior do Paraná, após um suave pouso de helicóptero. E não custa lembrar que o ministro foi o relator do Caso Master no Supremo.

Ninguém sabe onde o escândalo do Banco Master vai terminar. Mas, em Brasília e na Faria Lima, não resta dúvida de uma coisa: quando dinheiro e política se misturam, o nome de André Esteves costuma aparecer.

Como bem definiu outro bilionário brasileiro, Rubens Ometto, presidente da Cosan e “rei do etanol”: “André é danado. Ele não perde oportunidade, ele ocupa espaço”. (Gazeta do Povo)

Roberto Amaral: Adeus ao companheiro Renato Rabelo

Roberto Amaral e Renato Rabelo (ao fundo, o jornalista Raimundo Pereira)

Vínhamos da mesma luta, caminhando em espaços distintos: em comum, para além do combate tout court à ditadura (consideradas as mais variadas artes), unia-nos o projeto de construir uma sociedade sem classes. Avançávamos sobre os liberais, e sobre os que entendiam que a luta deveria travar-se nos limites da institucionalidade ditada pelos militares.

Na verdade, o projeto socialista era o leitmotiv de quase todas as correntes que então se batiam contra o regime militar; nossa “guerra” era, assim, uma etapa necessária e imprescindível – tudo isso, mas apenas isso – a serviço da revolução socialista.

A via revolucionária foi derrotada pelos fatos e o socialismo voltava a ser uma utopia que se afastava de nossos horizontes, mas é certo que muito contribuímos, com muitos erros e alguns acertos, para o fim do regime envilecido e a recuperação do espaço democrático das lutas sociais. Se o sonho socialista se distanciava do horizonte de então, conseguíramos, com o povo nas ruas – na vanguarda de um movimento nacional-popular amplíssimo –, apear a ditadura, com a implosão do colégio eleitoral, a eleição de Tancredo Neves, a posse de Sarney e a Constituinte de 1987, abrindo caminho para as eleições diretas para presidente da República em 1989, a primeira desde o distante ano de 1960.

Estamos em 1988. Vencida a ditadura, impunha-se a organização partidária legal. Davam-se os primeiros passos visando à candidatura de Lula – uma audácia sob todos os títulos! –, e eu chegava junto a setores do então arredio PT com a proposta da Frente Brasil Popular, uma tese do congresso do PSB, que então renascia pela esquerda sob o comando de Jamil Haddad. O primeiro ponto de apoio foi o PCdoB, e é preciso destacar o papel de João Amazonas, Haroldo Lima e Renato Rabelo. Foi então que Renato e eu apertamos as mãos pela primeira vez para seguirmos amigos pelo resto da vida, e guardo dele a imagem de dirigente firme e leal. Estivemos juntos em todas as frentes de luta desses tempos comuns e, em quase todos os casos, conseguimos conciliar os passos de nossas organizações.

Embora de há muito esperada, a notícia de sua morte chega cortando fundo. Não é só a perda de um amigo. Sinto desaparecer mais um quadro do que ainda se poderia denominar de resistência socialista, quando mais crescem entre nós, inclusive no campo popular, as forças reacionárias, e ainda quando mais se fragilizam aquelas organizações que se justificavam como portadoras do projeto socialista.

Meus abraços para Conchita, Luciana Santos, Aldo Arantes, Walter Sorrentino, Luís Fernandes, Osvaldo Bertolino e todos os amigos e amigas do PCdoB.

Trecho de artigo de Roberto Amaral na revista CartaCapital

Meu convívio com a vida e as ideias de Renato Rabelo

Por Osvaldo Bertolino

Escrever a biografia de Renato, proposta pelo secretário nacional de Formação e Propaganda do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Adalberto Monteiro, foi um grande desafio. Conheço as ideias de Renato desde o início dos anos 1980, lendo seus textos na imprensa do PCdoB.

Tim, tim, Renato Rabelo! Uma honra contar a sua história na AP e no PCdoB!

Minha primeira conversa com ele ocorreu num seminário organizado pelo Sindicato dos Metroviários, do qual eu era diretor de Imprensa, eleito em 1989. Renato foi um dos convidados para fazer análise de conjuntura. A profundidade e abrangência de sua fala chamaram a atenção, característica que presenciei muitas outras vezes.

Entrevistei Renato para os portais Vermelho e Grabois, para a TV Grabois e para a revista Princípios. A última atividade em que participei com ele foi em 2 de outubro de 2022, dia do primeiro turno das eleições, numa transmissão de mais de cinco horas, comandada pelo sociólogo, professor, escritor e militante comunista Lejeune Mirhan, compartilhada por vários canais na internet. Tive a honra também de contar com seu Prefácio na biografia de Aurélio Peres.

Fazer a sua biografia exigiu dedicação quase integral, um isolamento praticamente total. Foram muitas horas de entrevistas, leituras, pesquisas e checagem de informações. Ouvi irmãos, filhos, companheiros, camaradas e amigos.

A irmã de Renato, Mara, teve participação especial. Foi paciente e prestativa, sempre disposta a me socorrer em momentos cruciais. De memória privilegiada, não foram poucas as vezes que ela prontamente se dispôs a solucionar dúvidas sobre a vida familiar de Renato. Por seu intermédio, pude conversar longamente com os irmãos Antônio e Jorge, igualmente diligentes e prestativos.

Os filhos de Renato, Nina e André, também foram fundamentais. Suas memórias infantis explicaram momentos às vezes dramáticos dos pais, a opção entre a segurança diante das ameaças da ditadura militar e a convivência familiar.

Seus depoimentos mostraram Renato e Conchita como pais zelosos e carinhosos em meio às agruras da clandestinidade e do exílio. Foram determinantes para a descrição de outra faceta importante de Renato: o pai dedicado. Mostraram também a convivência de Renato com os parentes mais próximos, mesmo sob rigorosa clandestinidade.

Faço uma menção especial à Conchita, por sua dedicação na tarefa de levantar informações familiares. Pacientemente ela reuniu materiais e sugeriu fontes, trabalho que deu vigor à história pessoal de Renato.

Foram horas e horas de conversa, de consultas de documentos e fotos, de lembranças muitas vezes descontraídas, mas também de intensa emoção. Para ela, revisitar algumas passagens de suas vidas foi um exercício de revolvimento de memórias com muitos detalhes apagados pelo tempo.

Renato sempre nos acompanhava em sua poltrona, com um livro na mão. No início de nossas conversas, quando começamos as gravações de seu depoimento, brindamos com um vinho – bebida de sua predileção – o trabalho desta biografia e a celebração à amizade que se estreitou em minhas muitas visitas à sua residência.

Pessoa reservada

Comecei o trabalho da biografia reunindo uma grande bibliografia, listei muitas fontes de pesquisa e formei uma valorosa equipe de apoio. A primeira incursão foi sobre suas memórias, com cerca de dez horas de gravação.

Acomodado na mesa da pequena sala do seu apartamento, em São Paulo, com uma pilha de livros ao lado, Renato Rabelo começou a falar. Parecia incansável. De meados da tarde até a noite avançada, lembrou detalhes de sua vida e do seu pensamento. Era muita coisa. Foi preciso retomar em outro dia. Novamente faltou coisa.

E assim a cena se repetiu, até que tudo fosse falado. Estava sempre bem-humorado, disposto a falar de tudo. Nunca fez a mínima ressalva sobre qualquer assunto e respondeu em detalhes tudo o que lhe foi perguntado. Tampouco pediu para mudar algum conteúdo quando leu os originais.

O tempo precisava ser otimizado para atender ao cuidado com a saúde. Diagnosticado com câncer de próstata em 2009, Renato começou o tratamento com reposição hormonal, que evoluiu para radioterapia e, em 2011, para cirurgia. Seguiu-se uma rotina de medicação e fisioterapia. Renato enfrentou o tratamento em meio à sua agenda intensa. Muitas vezes, saía da radioterapia direto para o aeroporto.

Em 2018, foi diagnosticado com a evolução do câncer, que atingiu o pâncreas. Uma cirurgia extirpou o tumor e estabilizou a doença.

Diabético, Renato mantinha uma rotina diária de caminhada e corrida acelerada, mesmo quando viajava. “Isso ajudou muito na minha saúde. Os médicos elogiaram a cirurgia porque, mesmo com diabetes, tudo cicatrizava muito bem. Falaram que eu tinha boa musculatura. Foram trinta ou quarenta anos andando e correndo”, diz.

Mesmo sob tratamento intensivo, Renato manteve a agenda carregada, sempre requisitado para palestras, cursos, entrevistas e artigos. Ao mesmo tempo, dedicava-se aos afazeres administrativos da Fundação Maurício Grabois, que lhe consumiam grande parte do tempo.

Renato se define como pessoa reservada, que não gosta de aparecer, o mais tímido dos irmãos. “Quando comecei a assumir o trabalho político, tive de fazer um esforço muito grande para ser uma pessoa com capacidade pública maior. Era essencial para a minha atividade. Acho que consegui não só por intervenções públicas como na relação política com grandes lideranças, como presidentes da República, presidentes da Câmara e do Senado, gente como o José Alencar, ministros. Todos me atendiam com muito respeito.”

Essa relação de confiança se devia ao prestígio do PCdoB, segundo Renato. “Então, eu ia sentindo que estava fazendo o papel necessário. Compreendi que estava fazendo um papel importante. Isso me deu muita segurança. Tinha certa autoridade.”

Um dos momentos mais decisivos de sua vida foi a indicação de Luciana Santos para assumir a presidência do PCdoB. “Foi uma das atitudes mais serenas e mais justas que tomei. Não foi uma corrida de revezamento”, comenta ao falar das pacientes consultas e dos debates no âmbito da direção do Partido. Para ele, esse processo guarda semelhança com a sua indicação para presidente do Partido por João Amazonas.

Renato recorda de seus camaradas com emoção, especialmente Haroldo Lima. “Haroldo teve também um papel importante para eu ingressar na luta. Eu poderia ficar por ali mesmo, em Salvador, estudando, ser um médico. Foi um ponto importante na minha vida”, relata, mostrando a foto da capa do livro autobiográfico de Haroldo, inconformado com a sua morte por uma causa que poderia ser evitada.

Falou também da relação com os filhos, muito atenciosos, mesmo quando estão distantes (principalmente André, que reside no Canadá). “Sempre foram muito compreensivos, pelo que eles passaram. A relação conosco mostra a grandeza deles. Se viraram por conta própria, uma coisa também muito importante. Foram independentes. Hoje, eles têm grande admiração e respeito por nós, eu e a mãe deles.” A convivência com os netos – Ana Clara e Sophia, filhas de André e Carolina, e Lorenzo, filho de Nina e Carlos Eduardo – é sempre uma alegria revigorante, define.

Renato cita a experiência vivida na China, quando jovem, como fundamental para a sua militância. “Uma experiência da envergadura da Revolução Chinesa ensina muito”, afirma. As visitas ao Vietnã também lhe causaram forte impressão. “Fiquei impressionado com o povo vietnamita. Não é por acaso que expulsaram três imperialismos. Essa ideia de nova luta pelo socialismo é deles.”

Segundo Renato, foram conhecimentos que ajudaram muito na sua compreensão sobre a tática e a estratégia. “O tempo que passei na França foi também importante, porque o exílio é uma escola. O povo francês é muito testado. É a terra das revoluções. Eles têm uma tradição de luta gigantesca. A vivência com um povo desse ensina muito para a gente”, afirma.

“Na minha vida, não tenho uma atitude que considero errada, algo que deveria ter feito de outra forma. Não consigo encontrar nada, assim, que me marcou negativamente”, conclui, com o olhar revelando que acabara de fazer uma viagem no tempo, desde seus primeiros dias em Ubaíra, onde nasceu.

Manifestações de insanidade e desindustrialização além de Trump

Por Osvaldo Bertolino

A afirmação do economista norte-americano John Kenneth Galbraith de que a feição neoliberal do capitalismo “tornou o mundo mais vulnerável a manifestações de insanidade” mostrou-se inteiramente acertada. É o resultado do que foi chamado de “capital da nova era”, a dominação plena do capitalismo por uma trilionária massa de dinheiro parasitária e opulenta, a exacerbação – talvez o auge – da predominância do capital financeiro reacionário apontada por Vladimir Lênin desde o fim do papel progressista da burguesia, o imperialismo, no final do século XIX.

Os efeitos políticos do mundo do dinheiro completamente desgovernado são visíveis em ações tresloucadas dos mandas-chuvas de Washington, o epicentro da “Nova Ordem Mundial” proclamada por George Bush em 11 de setembro de 1990 em seu discurso numa sessão conjunta do Congresso, uma repetição literal de Adolf Hitler, a afirmação de uma tendência que explodiu no governo Ronald Reagan. Mais tarde, seu filho, George W. Bush, anunciou a Doutrina Bush.

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As duas proclamações marcaram o caminho da política externa estadunidense, uma área na qual os presidentes geralmente enfrentam menos obstáculos institucionais do que em assuntos internos, a radicalização da premissa expansionista do regime que ganhou impulso no pós- Segunda Guerra Mundial. Atualmente, ela está expressa nas ameaças e agressões do presidente Donald Trump.

Galpões abandonados

O capitalismo brasileiro tem características tardias e peculiares dessa tendência, assumida por oligarquias escravistas que se revestiram de verniz burguês. Quando essa massa amorfa de “investimentos” começou a aportar no Brasil, ainda no governo do presidente Fernando Collor de Mello, dizia-se que ela seria como os bandeirantes do passado, que atrás de si trouxeram a colonização do país.

A política de Collor, apoiada nas privatizações e na abertura comercial e financeira, instaurou uma nova era de ajustes empresariais e financeiros, o “choque de concorrência” proporcionado pela diminuição da proteção cambial e tarifária, o início da eliminação de praticamente todos os símbolos do capitalismo brasileiro. O Plano Real, de Fernando Henrique Cardoso, agravou a situação.

Dados do jornal Folha de S. Paulo de 3 de outubro de 1999 revelam que a desnacionalização da indústria e do setor de serviços no Brasil havia produzido um aumento do envio de dinheiro pelas multinacionais para fora do país de US$ 2,5 bilhões em 1994 para US$ 7,2 bilhões. Em 1994, segundo o jornal, apenas 0,38% dos US$ 2,1 bilhões em investimentos externos foram para a compra de empresas já constituídas. Em 1998, o percentual já era de 74,1%. Ou seja: dos US$ 28,7 bilhões que entraram, US$ 21,3 bilhões foram usados para que empresas brasileiras passassem a ter donos estrangeiros.

A desnacionalização da economia brasileira implicou outra armadilha trágica: o Brasil entrou ainda mais no beco sem saída da dívida externa. Com a economia nas mãos das multinacionais, criou-se uma sangria permanente de despesas com dólares por dois caminhos principais: a compra de peças e componentes para produtos apenas montados aqui, de acordo com as ordens de suas matrizes, e um brutal aumento das remessas de lucros e dividendos. O desafio era conseguir os dólares necessários para girar essa engrenagem.

A transformação da dívida externa em dívida interna, substituindo passivos denominados em dólar por títulos emitidos em real, reduziu a vulnerabilidade externa a oscilações cambiais e a juros internacionais, mas aumentou a dívida pública interna, compensada com taxas de juros elevadas. A política de desindustrialização – em grande medida acentuada pelas privatizações selvagens – e a explosão da sangria de dinheiro público orçamentário pelo parasitismo financeiro empurrou vastos contingentes populacionais para o abismo social.

Em vários centros industriais do país, a expulsão de pequenas e médias empresas criou áreas necrosadas. Antigas indústrias se transformaram em galpões abandonados – ou ocupados para outros fins teoricamente não econômicos – e levas de desempregados passaram a perambular pelas ruas sem perspectivas, contribuindo para elevar os estratosféricos índices de criminalidade, vítimas da lógica de que para que alguns possam emergir muitos precisam submergir na pobreza e na miséria.

A China e o “clube dos ricos”

O economista desenvolvimentista Celso Furtado constatou, amargamente, em artigo na Folha de S. Paulo de 13 de junho de 1999, que “o país começou a projetar a imagem de uma economia distorcida que se endivida no exterior para financiar o crescimento do consumo e investimentos especulativos”. “É sabido que essa nova política foi concebida nos Estados Unidos, com a colaboração de técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, escreveu.

Furtado explicou que os recursos postos à disposição do Brasil aprofundaram o endividamento do país. “Diante dessa perspectiva, teríamos de reconhecer que o recurso à moratória seria um mal menor em comparação com a abdicação da responsabilidade de (o país) autogovernar-se”, disse.

Já naquelas circunstâncias, na opinião de Furtado, o essencial seria que o entendimento com os credores fosse adequadamente programado nos planos externo e interno. “Os aliados potenciais internos são os grupos industriais esmagados pelas taxas de juros exorbitantes e a classe trabalhadora, vítima do desemprego generalizado. Caberia inspirar-se no capítulo 11 do Código de Bancarrota dos Estados Unidos, conforme recomenda a Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).”

No plano externo, caberia lutar por uma reestruturação do sistema financeiro internacional, no sentido de reduzir a volatilidade dos fluxos de capital a curto prazo. A estratégia a ser seguida comportava uma ação em três frentes – reverter o processo de concentração patrimonial e de renda que está na raiz das distorções sociais que caracterizam o Brasil, a começar pela singular quantidade de solos aráveis não aproveitados; investimento no “fator humano”, atraso que se traduz em extremas disparidades entre salários de especialistas e do operário comum; e a forma de inserção no processo de globalização, relacionada ao “fator tecnológico”, concentrado nas empresas transnacionais.

O “clube dos ricos”, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), concentra a maior parte da infraestrutura de pesquisa e investimentos privados e públicos. A China aumentou significativamente seus investimentos, com uma taxa de crescimento que em 2023 superou a média da OCDE (8,7% contra a média OCDE de 2,4%). Em 2023, a China investiu 2,6% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento, aproximando-se dos níveis da OCDE.

Substituição de importações

A desindustrialização do país, como se vê, tem raízes profundas e consequências nefastas sobre a soberania nacional – inclusive na definição da política monetária, macroeconômica – que não pode ser revertida com meras proclamações de intenções, verdadeiros idealismos políticos, muitas vezes aventureiros.

No Brasil – assim como em muitos países periféricos ou semiperiféricos – a hegemonia tecnológica dos ricos recebeu injustificadas facilidades por meio da abertura econômica indiscriminada e do abandono das políticas de Estado de produção científica e tecnológica. A tese de que abrindo a economia o país criaria um atalho tecnológico se mostrou totalmente falsa: dados da OCDE revelam um acentuado declínio da transferência de tecnologia para a periferia, ao lado da concentração dos fluxos de investimento externo direto dentro dos próprios países centrais.

Essa política neoliberal impôs toque de silencio sobre o pensamento progressista latino-americano que há tempos discute os obstáculos impostos à industrialização da região. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) foi a referência maior nesse debate, inaugurado pela reflexão inspiradora de Raul Prebisch sobre os vínculos desiguais nas trocas comerciais.

O Brasil levou a cabo um extenso programa de substituição de importações, modernizou seu parque industrial, mas manteve largos segmentos inteiramente à margem do processo produtivo, sem acesso às benesses do crescimento. Com poucos governos de visão social, o Estado esteve por muito tempo ausente não apenas da tarefa de distribuir renda, mas também da de habilitar toda a sociedade a participar da dinâmica produtiva. No auge da era neoliberal, o assédio institucionalizado de setores privilegiados aos canais de decisão foi explícito. Acentuou-se o vício histórico do patrimonialismo, em que o público fica refém do privado.

É um problema crônico, que vem dos tempos de Tiradentes. A República a que ele aspirava previa a industrialização do país, o fim dos monopólios coloniais, a suspensão da exportação do ouro e o uso das riquezas minerais para o desenvolvimento do país. Um problema relacionado ao imperialismo teorizado por Lênin, o poder dos países centrais do capitalismo que se lançaram à corrida pelo domínio econômico do planeta. Fizeram duas guerras mundiais na disputa por domínio de territórios para impor sua lógica, distribuindo benesses às classes dominantes locais em troca de liberdade para suas operações.

A religião do lucro

O Brasil é o que é como nação, com seus vícios e virtudes, seus esplendores e misérias, graças, fundamentalmente, às mãos que o conduziu a partir de Getúlio Vargas e sua Revolução de 1930, que tirou o país da pasmaceira que deu o tom da República Velha para industrializá-lo. Quando ele voltou à Presidência da República, eleito em 1950, encontrou o país em processo de dilapidação pelo entreguismo do governo do general Eurico Gaspar Dutra, com alta do custo de vida, deterioração da balança de pagamentos, endividamento externo, falta de energia elétrica e crise no transporte.

Vargas adotou uma forte intervenção do Estado na economia para responder à necessidade de “suprir as deficiências da iniciativa privada, ou acautelar os superiores interesses da nação, quer contra a ação predatória destas forças de rapina, que não conhecem a bandeira nacional nem cultuam outra religião que não seja a do lucro”, segundo mensagem enviada pelo presidente ao Congresso Nacional.  A atenção do governo estava concentrada nas medidas que asseguravam o desenvolvimento pela via da industrialização, apoiado no capital nacional e orientado para o mercado interno.

O golpe militar de 1964 condensou um processo histórico de luta das classes dominantes e seu entreguismo, contrário ao interesse nacional e ao desenvolvimento independente, com distribuição de renda, baseado nas “reformas de base” preconizadas por Vargas e levadas à condição de plataforma política por João Goulart. No ciclo militar, o país sangrou e, do ponto de vista econômico, foi uma mediocridade fardada em cujo legado é difícil encontrar qualquer coisa de positivo.

Depois desse período, no rol da ruindade presidencial é difícil apontar quem foi mais nefasto: Collor ou FHC. Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2002, herdou uma pesada carga maldita, com o país pendurado em empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), com inflação alta, juros elevados e baixo crescimento. Lula disse que o Brasil estava na UTI. “A herança não é maldita, é para lá de maldita”, disse.

As crises políticas que se sucederam, passando pelo lavajatismo golpista e corrupto que derrubou a presidenta Dilma Rousseff e o reinado de Jair Bolsonaro, com o entreguista radical e boquirroto Paulo Guedes no Ministério da Economia, se deram em torno da disputa pelo rumo do país. O Brasil assistiu, de forma espetacularizada pela mídia – um grotesco show de manipulação e golpismo –, o esforço das classes dominantes para tirar do povo a sua soberania do voto, um jogo sujo que prossegue no âmbito das eleições de 2026.

Dicotomia revolução-reação

Pelas regras da democracia, o projeto da direita não se firma. Ela representa ideais do século XVIII e XIX, empurrados goela abaixo do país em manobras políticas espúrias que resultaram na desqualificação da política para impor golpes de armas e de mão, episódios que pontilharam a história brasileira no século XX e neste início do século XXI, prática que não se limita às fronteiras nacionais e não está desconectada da tendência natural do capitalismo em sua etapa imperialista.

Desde o auge do iluminismo, ou movimento das luzes simbolizado pela Revolução Francesa, o mundo se pauta pela dicotomia revolução-reação, democracia versus golpismo. Criou-se a dualidade socialismo-capitalismo, a marcha do progresso social – o processo civilizatório – e a expansão do domínio econômico das potências imperialistas, no pós-Segunda Guerra Mundial controladas com mão de ferro pelo poderio militar, econômico e midiático dos Estados Unidos, que impuseram sua cartilha no rearranjo das forças que emergiram das cinzas do nazifascismo.

No final da Segunda Guerra Mundial, esse quadro ficou bem delineado. Enquanto o socialismo se expandia para o Leste Europeu e cravava sua bandeira na América (Cuba) e na Ásia (China, Vietnã e Coréia), por meio de movimentos de libertação nacional e revoluções, o imperialismo “ocidental” implantava ditaduras e regimes atrelados aos seus interesses, inclusive na Europa Ocidental, amarrados pelos tratados de Bretton Woods e pelo socorro do Plano Marshal.

A queda do socialismo soviético, esculpida pelo trio Ronald Reagan-Margareth Tatcher-Mikhail Gorbachov, degradou muito esse quadro. Claro que China, Cuba, Coréia Democrática e Vietnã seguraram com brio a bandeira do socialismo. Mas, com a exceção da China, esses países ainda têm muito a caminhar antes de atingir um platô em sua trajetória de crescimento, enfrentando a brutal ofensiva do regime dos Estados Unidos, atualmente pedalando no ar na busca de reverter sua decadência, crise que levou o tresloucado Donal Trump de volta à Presidência da República.

Fascismo envernizado

O alvo final das tropelias trumpistas é a China, que, preservando seu feixe de tradições, inventou seu próprio modelo de desenvolvimento, seu próprio estilo de fazer a roda da economia girar, de renovar o ideal socialista e de revigorar o projeto revolucionário. Países que erigiram sistemas políticos por revoluções e guerras de libertação nacional – a própria Rússia se beneficia dessa tradição libertária – encontram-se em melhores condições para enfrentar o fascismo neoliberal, do qual Trump tomou as rédeas. Os novos ingredientes dessa política de reação, apresentados na agressão covarde à Venezuela, tendem a ser cada vez mais testados mundo afora.

Trump seguirá forçando portas, fazendo ameaças e agressões covardes, corrompendo e chantageando, uma configuração do capitalismo que faz o mundo prender a respiração à espera de seus desdobramentos. Não é razoável imaginar que ele seguirá com êxito nesse caminho, a ponto de impor seu diktat sem grandes estremecimentos no seu próprio campo de manobra, o mundo capitalista. A ordem neoliberal, com seu fascismo envernizado de democracia, sabe que a radicalização de um lado leva à radicalização do outro.

A busca por esse caminho não passa por Trump e seus comparsas, como o bolsonarismo no Brasil. O mundo ainda se ressente da tragédia hitlerista, no Brasil e demais países da periferia reproduzida por golpes anticomunistas. A ideia de uma institucionalidade democrática de fachada, conforme o figurino do regime dos Estados, limitada a dois partidos – na prática duas facções do mesmo partido do poder econômico –, é a fórmula perseguida.

A evolução dessa contradição é uma incógnita, mas segue a modelagem de um poder paralelo controlando as finanças públicas, a política monetária e os fluxos de capital, no Brasil bem visível pela “independência” do Banco Central, fórmula que afasta o povo das decisões fundamentais do país, tolhendo a soberania do voto e as prerrogativas constitucionais, repetição de um pensamento enraizado nas classes dominantes. É uma tendência natural do capitalismo, acentuada pelo neoliberalismo, de impor a governança por métodos que tiram do povo a sua soberania por meios armados ou manobras midiáticas e institucionais espúrias. O Brasil conhece bem essa realidade.

Publicista do fascismo

Quando a ditadura militar transitava do apogeu para o declínio, com o fracasso do “milagre econômico”, o então presidente-ditador, general Ernesto Geisel, proclamou sem reservas a tese da “imaturidade” do eleitorado brasileiro. Era uma manifestação do pensamento dos que se imaginam bem-nascidos do Brasil, a ideia de que o povo é incapaz de conduzir os destinos da nação, assunto trazido à baila também por uma manipulação de uma entrevista de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. ao jornal Folha de S. Paulo de 26 de novembro de 1977. “O povo brasileiro ainda não está em condições de votar por falta de prática, por falta de educação e ainda mais porque se vota, em geral, mais por amizade nos candidatos”, disse ele.

Anos depois, quando Luiz Inácio Lula da Silva disputava a reeleição presidencial, em 2006, um publicista do fascismo, Alexandre Garcia, defendeu, na TV Globo, a tese da aptidão para se obter o título eleitoral, numa proclamação de que o povo deveria ser afastado de decisões como aquela. Seria uma democracia grega deformada, uma salvaguarda que atribuía aos imaginados baixos índices educacionais do povo a responsabilidade pela vitória de Lula em 2002 e sua possível reeleição em 2006.

O oráculo da direita, ao repetir o ditador na TV Globo, omitiu outra máxima dos tempos da ditadura de que em primeiro lugar deve vir o crescimento econômico, depois o bem-estar social — a calatimoso teoria monetária-colunária de Deldim Netto de que era preciso fazer o bolo crescer para depois reparti-lo —, precondição, segundo Geisel, de um “regime democrático sadio”, um eleitorado composto de “cidadãos conscientes, racionais, sociabilizados e educados”.

É a revogação da máxima de que todos são iguais, proclamada pela Revolução Francesa como o fim da era dos absolutismos e o início dos tempos revolucionários, que se desdobrariam em enfrentamentos com a ordem capitalista, amálgama dos resquícios escravistas e feudais, a luta entre o poder total, proclamado como sobrenatural, e a soberania popular.

A sentença de Alexandre Garcia não foi um fato isolado, constatação evidenciada pelas crises que marcaram os governos Lula e Dilma Rousseff, o fundo da contenda entre povo e elite travada em torno da economia e os projetos políticos a ela agregados, a luta de classes definida por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto do Partido Comunista como o motor da história.

A posição do Vietnã sobre o Conselho da Paz de Trump

Apenas dois dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter convidado o Vietnã para o Conselho da Paz, o secretário-geral do Partido Comunista, Tô Lâm, aceitou o convite, apesar de algumas preocupações sobre a organização. Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores do Vietnã, de 18 de janeiro, ele aceitou o convite para se juntar ao Conselho como membro fundador.

Tô Lâm enfatizou a posição do Vietnã de apoiar e estar sempre pronto para contribuir com os esforços comuns da comunidade internacional para resolver conflitos e divergências por meios pacíficos, em conformidade com o direito internacional e a Carta da ONU e respeitando os direitos fundamentais das partes envolvidas.

De acordo com o comunicado, “o Vietnã está pronto para participar, como Estado-membro fundador do Conselho da Paz, trabalhando em conjunto com os Estados Unidos e a comunidade internacional para dar contribuições positivas para uma solução duradoura e abrangente para o processo de paz no Oriente Médio, incluindo o estabelecimento de um Estado palestino que coexista pacificamente com o Estado de Israel”.

No entanto, à medida que mais detalhes foram divulgados, surgiram preocupações sobre este Conselho da Paz, como as relativas aos membros de sua diretoria executiva, incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, que apoiou a invasão do Iraque em 2003, mas não a da Palestina. Outras preocupações decorrem também da taxa de adesão permanente de um milhão de dólares, para além do papel das Nações Unidas.

Em 16 de janeiro, coincidindo com o dia em que Trump enviou o convite a Tô Lâm, o governo vietnamita concedeu o título de Cidadão honorário de Hanói ao embaixador do Estado da Palestina, Saadi Salama, num gesto que reafirma a amizade tradicional entre os dois países.  A atribuição do título é um “reconhecimento respeitoso” de “um diplomata que esteve intimamente ligado ao Vietnã durante mais de quatro décadas, dando muitas contribuições duradouras a Hanói e à amizade Vietnã-Palestina”, afirmou o portal de informação do governo.

O vice-presidente do Comitê Popular de Hanói, Nguyen Manh Quyen (à direita), entrega o título de Cidadão Honorário de Hanói ao embaixador palestino Saadi Salama em 16 de janeiro.

Em sua página no Facebook, no dia 20 de janeiro, Saadi Salama expressou gratidão ao Vietnã, afirmando que o tempo que passou vivendo e trabalhando no país o ajudou a “formar e fortalecer sua base intelectual e pessoal, fundamentada nos nobres valores culturais tradicionais das duas nações irmãs da Palestina e do Vietnã”.

A posição do Vietnã é vista como pragmática, com declarações que apelam a todas as partes envolvidas para que exerçam moderação, cessem fogo, ponham fim à violência e apoiem uma solução de dois Estados. Atualmente, tanto a embaixada de Israel quanto a da Palestina estão presentes em Hanói.

O Vietnã mantém uma relação tradicional com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), grupo que atualmente detém o poder na Cisjordânia, e não com o grupo armado Hamas. Desde 1968, reconhece a OLP, mais de 10 anos antes da União Soviética, marcando o objetivo comum da OLP e do Partido Comunista de combater o imperialismo norte-americano. Em 1976, a OLP estabeleceu um escritório permanente em Hanói, que mais tarde se tornou embaixada quando o Vietnã reconheceu oficialmente o Estado da Palestina e estabeleceu relações diplomáticas em 1988.

Em 2013, o embaixador palestino Saadi Salama foi citado pela mídia vietnamita dizendo que “o Vietnã continua sendo um símbolo de sua luta”. Alguns especialistas acreditam que, por ser um país pequeno e geograficamente distante, o apoio do Vietnã ao povo palestino é primordialmente moral.

Com Israel, o Vietnã mantém uma relação de cooperação focada em três áreas-chave, que tornam impossível para o Vietnã criticar Israel de forma contundente: inovação, agricultura de alta tecnologia e defesa e segurança. Entre 2017 e 2022, dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo indicaram que Israel foi o segundo maior fornecedor de armas para o Vietnã, depois da Rússia.

Apesar de ser um aliado dos Estados Unidos, Israel vende armas letais ao Vietnã desde 2006, incluindo 150 veículos blindados. A isso se seguiram outras armas, como mísseis costeiros Extra e drones Orbiter 2, que foram fornecidos à Marinha vietnamita.

Além de fornecer armas e equipamentos (hardware), Israel é também um dos poucos países que transferiu tecnologia (software) para o Vietnã, permitindo que o país fabrique seus próprios veículos blindados e reduza sua dependência de importações.

Antes de Tô Lâm se tornar secretário-geral, em agosto de 2024, o Vietnã tinha apenas 7 parceiros estratégicos abrangentes. Com a melhoria das relações com o Reino Unido em outubro de 2025, passou a ter 14. Em junho de 2025, o Vietnã tornou-se um país parceiro do BRICS, com o objetivo de contribuir e fortalecer a voz e o papel dos países em desenvolvimento.

Na sessão de abertura do 14º Congresso Nacional do Partido Comunista, em 20 de janeiro, Tô Lâm apresentou o relatório do 13º Comitê Central sobre os documentos submetidos ao 14º Congresso Nacional, afirmando que “promover as relações exteriores e a integração internacional”, juntamente com o fortalecimento da defesa e segurança nacional, “é crucial e contínuo”. Esta é a primeira vez que “assuntos externos e integração internacional” são colocados em pé de igualdade com a defesa e segurança nacional.

As informações são da BBC