Os caminhos paralelos de André Esteves, do BTG Pactual, e Daniel Vorcaro, do Banco Master

O que André Esteves e Daniel Vorcaro de fato disputavam - PlatôBR

Quando o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, em dezembro do ano passado, parte do mundo financeiro e político não encarou o episódio apenas como uma falência técnica. Nos círculos do poder, o movimento era visto como o fim de uma guerra travada há meses nos bastidores.

De um lado estava Daniel Vorcaro, dono do Master, preso pela Polícia Federal no mesmo dia da intervenção. Do outro, André Esteves, presidente do conselho do BTG Pactual, apontado por muitos como o suposto “arquiteto” de uma estratégia para enfraquecer o concorrente — por meio da pressão sobre autoridades e de vazamentos seletivos de informações para a imprensa.

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, apreendidas na Operação Compliance Zero e enviadas à CPMI do INSS, revelam um conflito direto entre os dois banqueiros. Nas conversas privadas, Vorcaro descreve um cerco que mistura uma sequência de investidas contra ele, exposição pública e uma paranoia crescente.

Em 19 de novembro de 2024, Vorcaro disse à então namorada, Martha Graeff: “Esteves me deu uma espremida para ficar com o banco”. Meses antes, em julho, ele já reclamava de um “ataque de mídia” que atribuía ao rival.

“Banco é igual máfia”

E o clima só esquentou com o passar do tempo. Em abril de 2025, Daniel Vorcaro escreveu: “Agora a guerra com André está exposta”, sugerindo que reportagens negativas sobre o Master foram “compradas” pelo adversário.

O vocabulário usado por Vorcaro ajuda a entender o ambiente. “Esse negócio de banco é igual máfia. Não dá para sair. Ninguém sai bem. Só sai mal”, desabafou.

Em outra sequência de mensagens, ele acusa André Esteves de “entrar na mente dos caras do Bacen”, numa referência ao Banco Central.

Em 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro registrou em seu bloco de notas: “Amanhã começam as batidas do Esteves”. No dia seguinte, o BC decretou oficialmente o encerramento do Master, citando “grave crise de liquidez”, “comprometimento significativo da situação econômico-financeira da instituição” e “violações às normas do Sistema Financeiro Nacional”.

As acusações são negadas pelo BTG Pactual, mas o caso reforça a imagem de André Esteves como uma presença constante na política do país. Sua trajetória, de jovem programador de computadores a líder de um império de investimentos (chegando a interlocutor de presidentes e ministros), mostra como dinheiro e influência circulam onde as decisões realmente são tomadas.

“Concurseiro” de elite

André Esteves, de 57 anos, cresceu num apartamento de classe média no bairro da Tijuca, na Zona Norte carioca. Filho de pais separados, criado pela mãe professora e pela avó manicure, ele logo entendeu que estudar era o único caminho possível para uma vida mais promissora e confortável.

“Quanto mais você estuda e trabalha, mais sorte você tem”, gosta de dizer.

Na década de 80, Esteves se destacou no Rio de Janeiro como “concurseiro” de elite. Aos 17 anos, ficou em primeiro lugar nacional na prova para a Marinha Mercante — feito que repetiu no ano seguinte.

Ele chegou a tentar a carreira na área, para realizar o sonho da avó, mas desistiu ao perceber que o percurso seria lento e pouco recompensador. “Em 30 anos, eu estaria no mesmo lugar que todo mundo”, afirma.

Esteves acabou optando por ingressar na UFRJ, onde passou no vestibular com folga e se formou em Ciência da Computação e Matemática. Enquanto estudava, trabalhou no instituto de pesquisa da própria universidade para ajudar a mãe e a avó a pagar as contas.

Até que, em 1989, aos 21 anos, ele respondeu a um anúncio de jornal enigmático, que buscava “jovens talentosos e ambiciosos”. Era uma vaga de programador em um banco novo, criado há apenas seis anos: o Pactual.

De programador a sócio

Fundado por Paulo Guedes, Luiz César Fernandes e André Jakurski, o Pactual operava sob uma cultura de meritocracia levada a sério. Quem se destacava de verdade podia comprar participação no banco e virar sócio.

“Aquele menino da mesa tinha um talento descomunal, uma dedicação descomunal e uma ambição descomunal”, diz Paulo Guedes. A “mesa” a que ele se refere é o núcleo do banco — o pregão, onde operadores compram e vendem ativos em ritmo frenético, assumindo riscos reais e tomando decisões que podem gerar milhões em minutos.

Foi ali que André Esteves chamou a atenção: jovem, vindo da área de tecnologia, obcecado por estudo e rápido de raciocínio. Durante o caos do Plano Collor, enquanto muitos executivos experientes patinavam diante das novas regras, ele leu o regulamento linha por linha, repetidas vezes, até identificar brechas e oportunidades que passavam despercebidas.

As apostas de Esteves davam tão certo que, em 1993, aos 24 anos, ele virou sócio do Pactual. Cinco anos depois, quando o fundador Luiz César Fernandes enfrentou dificuldades financeiras em negócios pessoais, o jovem liderou um movimento interno que tomou o controle da instituição de seu próprio mentor.

“Ninguém podia discutir com um cara que estava ganhando tanto dinheiro para o banco”, afirma Fernandes.

O jovem bilionário

Em 2006, André Esteves vendeu o Pactual para o grupo suíço UBS por US$ 3,1 bilhões, tornando-se um dos mais jovens bilionários do Brasil. Mudou-se para Londres, onde assumiu a chefia global de renda fixa do banco suíço, mas não se adaptou à nova realidade.

A estrutura hierarquizada e avessa ao risco da instituição não combinava com o seu perfil mais arrojado. Além disso, a rotina era insana: ele precisava acompanhar ao mesmo tempo o que acontecia nos EUA, na Europa e no Brasil.

Após deixar o UBS, em junho de 2008, André Esteves se juntou a um grupo de nove sócios para criar a BTG Investments. A ideia do novo projeto era resgatar a cultura original do Pactual, com a mesma lógica de meritocracia e sociedade.

A BTG rapidamente mostrou a que veio: adquiriu a operação brasileira do Lehman Brothers logo após sua falência, revendendo a carteira com lucro poucos dias depois.

No ano seguinte, Esteves fechou o que o mercado chamou de “negócio da década”. Ele comprou o Pactual de volta do UBS por US$ 2,5 bilhões — os suíços, afundados em mais de US$ 40 bilhões em perdas devido à crise financeira mundial, precisavam se desfazer de ativos para sobreviver.

O valor pago era menor do que o da venda original, mas o banco havia sido engordado pelos aportes suíços. No fim das contas, o patrimônio líquido tinha quadruplicado.

Estava criado o BTG Pactual. Oficialmente, a sigla significava Banking and Trading Group. Mas, nos bastidores da Faria Lima, todo mundo sabia o sentido real: Back to the Game (“De Volta ao Jogo”).

Um banqueiro em Bangu

Em novembro de 2015, André Esteves sofreu um revés: foi parar no presídio de Bangu 8, por determinação do ministro do STF Teori Zavascki.

A acusação? Tentativa de obstrução de justiça na Operação Lava Jato, com base em gravações que sugeriam sua disposição em pagar pelo silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró para evitar delações.

Na cadeia, o banqueiro leu o Código Penal, organizou jogos de futebol e, segundo relatos, manteve a calma. Vinte e oito dias depois, o Supremo considerou que não havia provas suficientes para manter a prisão preventiva.

Em 2018, Esteves foi absolvido. O ministro Gilmar Mendes classificou o episódio como “o maior erro judiciário da história do Brasil”.

A expansão

Depois da Lava Jato, Esteves mudou de estratégia nos negócios. Em vez de depender apenas do mercado financeiro, passou a comprar empresas em crise e reestruturá-las.

Ele pegou a antiga MPX, de Eike Batista, e transformou na Eneva, hoje a maior operadora privada de gás natural do Brasil. Também investiu em hospitais, hotéis, educação, florestas e tecnologia.

O BTG de 2026 é menos um banco tradicional e mais um conglomerado com presença em quase todos os setores relevantes da economia — e, por consequência, em quase todas as decisões relevantes do país.

Ao lado de Elon Musk

Além de ser reconhecido como um habilidoso gestor na administração e nas finanças, André Esteves é famoso por sua capacidade de circular entre diferentes grupos de poder.

Ele foi próximo de Lula nos primeiros mandatos, participou dos projetos de infraestrutura de Dilma e, quando o PT deixou o Planalto, adaptou-se sem cerimônia.

Na gestão de Jair Bolsonaro, o começo foi difícil. Há quem diga que Paulo Guedes, seu ex-sócio, fechou as portas do Ministério da Economia para ele.

Mas Esteves fez um contorno bem calculado. Aproximou-se do ministro das Comunicações (e genro de Silvio Santos) Fábio Faria — que, ao deixar o governo, foi contratado pelo BTG.

Em 2022, quando Elon Musk visitou o Brasil, foi Esteves quem sentou ao lado do americano durante um almoço realizado no interior de São Paulo. Fluente em inglês, o banqueiro atuou como o principal interlocutor de Musk na mesa, enquanto Jair Bolsonaro permanecia próximo.

A “patada” de Lula

Com a volta de Lula, houve um “climão” inicial.

Em um jantar durante a campanha de 2022, André Esteves perguntou ao então candidato o que ele pretendia manter do legado de Jair Bolsonaro. Lula respondeu na lata: “Ô, André, você como eu sabe o que é ficar preso. Então não vem me dizer que tem alguma coisa positiva do governo Bolsonaro”.

A resposta arrancou risos da plateia e deixou o banqueiro sem reação. Quem estava lá conta que Esteves não gostou nem um pouco.

Mas, de novo, ele encontrou o caminho. Virou uma espécie de ponte informal entre o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, e o ministro Fernando Haddad, ajudando a costurar acordos em torno de medidas arrecadatórias.

O pouso no Tayayá

A relação de André Esteves com o STF segue a mesma lógica. Nelson Jobim, ex-presidente da Corte, tornou-se sócio do BTG após atuar na defesa de Esteves e hoje coordena as relações institucionais do banco em Brasília.

O contato do banqueiro com Gilmar Mendes, dizem, é frequente. Os dois costumam discutir segurança jurídica e o ambiente de negócios.

Já com Dias Toffoli, a história é mais complexa.

A proximidade entre Esteves e Toffoli foi exposta em 2023, quando imagens mostraram o magistrado recebendo o banqueiro no famoso resort Tayayá, no interior do Paraná, após um suave pouso de helicóptero. E não custa lembrar que o ministro foi o relator do Caso Master no Supremo.

Ninguém sabe onde o escândalo do Banco Master vai terminar. Mas, em Brasília e na Faria Lima, não resta dúvida de uma coisa: quando dinheiro e política se misturam, o nome de André Esteves costuma aparecer.

Como bem definiu outro bilionário brasileiro, Rubens Ometto, presidente da Cosan e “rei do etanol”: “André é danado. Ele não perde oportunidade, ele ocupa espaço”. (Gazeta do Povo)

– Pablo Marçal e Jair Bolsonaro ungidos pela Faria Lima e Wall Street

Por Osvaldo Bertolino

Um mundo abstrato, movido pelo giro concreto do dinheiro, define o que é o capitalismo, potencializado pela hipertofria do mercado financeiro, controlado e manipulado por agentes sem escrúpulos. Gente já definida como “lobo de Wall Street”, ou “yuppie”, bem representada em filmes e documentários como malandros, ladrões engravatados, geralmente aventureiros com ar de bem-sucedidos. No Brasil esses malandros ganharam projeção sobretudo com a criação do arcabouço político e “institucional” – cujo esteio é a imoral Lei de Responsabilidade Fiscal -, à margem do Estado Democrático de Direito regido pela Constituição de 1988.

É um fenômeno que ganhou grande relevância com a pretensão do projeto neoliberal de revogar o keynesianismo e a social-democracia, mitigadores das mazelas do capitalismo, para centrar fogo na resistência ao imperialismo, o projeto socialista. Para se impor, vale todo tipo de golpe para destruir as soberanias nacionais e populares, um mundo de corrupção e mantras autoritários difundidos pela guerra ideológica monopolizada por um gigantesco aparato midiático organimente ligado ao mundo financeiro. Com esses recursos, o imperialismo, que regovou os princípios do liberalismo formulados por Adan Smith, se torna radicalizado, valendo-se não raro de projetos políticos de extrema-direita.

É o que pode ser visto nestes dois artigos abaixo, sobre Pablo Marçal e Jair Boolsonaro, mera repetição da fala, em 1968, do então ministro do Trabalho e da Previdência Social da ditadura militar, Jarbas Passarinho, durante a reunião do AI-5 que instarou oficialmente o terrorismo de Estado: “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.” O terrorismo do projeto neoliberal está bem explícito nesses textos do Portal UOL e da Folha de S. Paulo relatando a falta de escrúpulos da Faria Lima e de Wall Street em relação ao nazifascimo contemporâneo no Brasil.

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Faria Lima já flerta com Marçal para derrotar Boulos

Andreza Matais, colunista do UOL – 27/08/2024

A Faria Lima vai esconder a predileção, mas em rodas fechadas empresários estão “encantados” com Pablo Marçal, segundo lideranças políticas e empresários com quem conversei nos últimos dois dias.

A avaliação nesse grupo é que Marçal pode tirar Guilherme Boulos da disputa e esse grupo faz de tudo para não ver o candidato do PSOL eleito.

Sobre Ricardo Nunes (MDB), atual prefeito de São Paulo, avaliam que seus bairros estão sujos, com calçadas esburacadas e que a cidade não tem zeladoria necessária.

Ninguém acredita que Marçal é uma boa pessoa, mas apostam que ele defende o empresariado e que seu jeito “deixa que eu resolvo” pode ser uma solução para a cidade.

Nesta terça-feira (27), terá um jantar na casa de Marçal para empresários. A coluna apurou que entre os convidados estão representantes de bancos. Se eles irão apoiar publicamente o candidato do PRTB a resposta é não. É o chamado voto envergonhado.

Um alto executivo de um banco disse à coluna que “a maioria é Nunes”, mas “todos acham que Marçal vai ganhar”.

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Por que tanta gente em Wall Street torce por uma vitória de Bolsonaro?

Brian Winter – Folha de S. Paulo, 05/09/2018

Pessoas íntegras admitem em conversas particulares que não há espaço para sentimentos

Por um candidato que odiava tanto a austeridade que nos anos 90 apelou pelo fuzilamento de um presidente que ordenou um corte de gastos?

Por alguém que quer mudar a composição do STF e indicar juízes ligados a ele? Que declarou seis semanas atrás que “na verdade não entendo de economia”?

Bem, há duas respostas.

Porque, graças em parte a Donald Trump, em 2018 a memória é curta. E porque os investidores estrangeiros, como muitos brasileiros, querem acreditar na possibilidade de um salvador.

Para a parte de Wall Street que investe em países como o Brasil, o ano foi horrível até agora.

Enquanto o mercado de ações dos EUA batia recordes, com o corte de impostos e as medidas de desregulamentação de Trump, o principal índice de mercados emergentes registrava queda geral de 9%, puxado pelas baixas na Turquia (-55%), África do Sul (-21%) e Brasil (-20%).

Um ano ruim quer dizer bonificação ruim e pode até significar a perda do emprego. O Brasil é grande o bastante para empurrar uma virada na categoria, mas isso só vai acontecer se um presidente “amigo do mercado” —Bolsonaro ou Alckmin— vencer.

Uma vitória do PT, em contraste, poderia causar nova queda dos ativos.

Nesse contexto, a maioria dos investidores parecia preferir Alckmin. Mas o equilíbrio está mudando, e não só porque ele continua estagnado.

A indicação por Bolsonaro de Paulo Guedes como ministro da Fazenda e depositário da ortodoxia econômica parece melhor a cada dia, aos olhos do mercado.

Sob a tutela de Guedes, Bolsonaro prometeu reforma nas aposentadorias e no mês passado chegou a mencionar a possibilidade do Cálice Sagrado de Wall Street —a privatização da Petrobras. Um investidor me disse, empolgado, que o Brasil pode ter seu primeiro presidente verdadeiramente liberal em pelo menos meio século.

Calma lá, você talvez diga: e quanto ao passado não tão distante de Bolsonaro?. É aí que entra Trump.

O presidente dos EUA era membro registrado do Partido Democrata até 2010 —mas na Casa Branca ele vem realizando os maiores sonhos republicanos em termos de corte de impostos e desregulamentação da economia. Os mercados financeiros estão sujeitos a modas, e a coerência ideológica está fora de moda.

Basta a explicação de Bolsonaro: “As pessoas evoluem”.

É claro que essa abordagem acarreta riscos. Um presidente que talvez não tenha grande compromisso com a austeridade será capaz de tomar as decisões duras necessárias para reduzir um deficit ainda maior que o da Argentina?

Ele conseguirá funcionar sem apoio claro no Congresso? (Ou, diante de oposição, cumprirá sua velha promessa de fechar o Congresso?) Alguns líderes que pisotearam instituições democráticas, de Recep Erdogan na Turquia a Daniel Ortega na Nicarágua, vêm enfrentando problemas.

Mas se você conversar com investidores sobre os riscos do autoritarismo, muitos tenderão a responder “ouvimos o mesmo sobre Trump, e as coisas estão ótimas” ou “qualquer um menos Lula”.

Há, por fim, o elemento moral. Como os investidores podem apoiar um candidato com posições como as de Bolsonaro sobre mulheres, minorias e direitos humanos?

Essa é a pergunta mais fácil. Conheço muitas pessoas íntegras em Wall Street que sentem repulsa por Bolsonaro. Mas elas admitem em conversas particulares que não há espaço para sentimentos. Como me disse uma, “meu trabalho é garantir que os títulos sejam pagos na data. Quanto ao resto — cabe aos brasileiros decidir”.